Literatura de pescoço: Regras básicas

Posted: 12th julho 2012 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas

Blog da Companhia das Letras
10 de julho de 2012

por Vanessa Barbara

Na coluna anterior, abordamos a dolorida questão da cervicalgia literária e o fato de nunca encontrarmos uma boa posição para ler na cama. Agora daremos prosseguimento ao tema com uma questão bastante controversa: o deselegante hábito de “pescoçar” o livro dos outros, favorecendo o torcicolo.

Vejam: não estamos falando aqui de acompanhar ostensivamente a leitura alheia, informando ao vizinho que ele já pode virar a página quando lhe for conveniente (e faça o favor de acelerar esse ritmo), mas de uma prática teoricamente mais discreta e inofensiva, que é descobrir o título do livro que alguém está lendo. É o meu esporte favorito no metrô, no ônibus, na rodoviária, no aeroporto e nas praças.

Sou uma ávida praticante da pescoçagem literária, mesmo quando estou num país de alfabeto cirílico ou idioma que desconheço. Recentemente, na Croácia, levei cerca de quatro minutos para desvendar o título de um romance, o sisudo “Naš čovjek na terenu”. Fiquei mais feliz ou mais sábia com essa informação? Não. Me serviu de algo? Não. Mas valeu a pena.

(Agradecemos ao locutor esportivo Cléber Machado pelo autossofismo acima.)

Inegavelmente habilidosa no ofício, não hesito em lançar mão de expedientes inescrupulosos, se preciso for. Posso derrubar objetos de propósito só para ter de me abaixar e espiar a capa; também recorro a discretos esbarrões e um suposto tique nervoso de natureza variável – pode envolver uma virada de cabeça para o sul, seguida de um piparote para a esquerda, piscando um olho de cada vez, dependendo da localização do alvo.

Quando a encadernação é padronizada e não há como distinguir o livro pela capa, não me deixo abalar. Tento a lombada. Em caso de fracasso, sento-me pimponamente ao lado da vítima e procuro distinguir um cabeçalho qualquer no topo da página, sempre fingindo uma insanidade inofensiva, porém temerária. Na ausência de autor e título, vou pescoçando os nomes dos personagens e dos lugares, com vistas a distinguir um Oliver Twist, um Kurt Wallander, uma Eccles Street ou um bom protagonista do Ítalo Calvino, com aquelas numerosas consoantes e acentos diferenciais.

Já identifiquei muitos livros pela edição, sobretudo os Tolkiens da Martins Fontes, os Milleniums da Companhia das Letras e aquela coleção Debates, da Perspectiva. A biografia do Steve Jobs não tem como errar, embora eu seja da opinião de que, se a capa traz Jobs de frente, a contracapa devia trazê-lo de costas. Fico a imaginar como seria a nuca do polêmico gênio da informática.

Se é falta de educação reparar no livro dos outros, não sei, mas, na dúvida, meto a cara nas capas sem pudor, e os descontentes que me acertem no nariz com sua estimada tradução de Moby Dick. Ainda sou capaz de, surpreendida no ato, elogiar o gosto literário do próximo ou render-me a um silêncio reprobatório, sugerindo bibliografia complementar ou indicando o tambor de reciclagem mais próximo.

Quando estou longe do alvo e não há rotas fáceis de aproximação, procuro me achegar discretamente e proceder ao reconhecimento de forma tímida, casual até. No entanto, essa polida abordagem não costuma gerar resultados tão certeiros quanto a cara de pau pura e simples.

A popularização dos e-books é uma triste realidade para os praticantes do esporte, e um alívio para quem deseja ler as memórias do George W. Bush sem sofrer bullying silencioso dos companheiros de trem. (Uma vez estava no metrô lendo “Umidade”, do Reinaldo Moraes, e acho que angariei um escandalizado sinal da cruz de uma velhinha à minha frente.) Ainda assim, é possível utilizar a tática da adivinhação via personagem, mas a superfície total de pescoçagem é menor e a coisa toda passa a depender mais da sorte e da acuidade visual. Eu pessoalmente não me deixo desanimar por um e-book diminuto, uma fonte tamanho 9, uma cópia encadernada, uma coleção com capa de couro e um leitor superprotetor de suas preferências. Quanto mais difícil, melhor.

Há uma página no Facebook totalmente dedicada a fotos de leitores no metrô, a Biblioteca Subterrânea de Nova York [https://www.facebook.com/UndergroundNYPL]. Cada instantâneo traz uma legenda com o título do livro e o autor. Num deles, um sujeito de gravata lê o início do romance histórico “New York”, de Edward Rutherfurd, de 880 páginas. Dois meses depois, é fotografado já no fim do livro. São rostos compenetrados e sérios, e é divertido relacionar a obra ao leitor, a passagem lida ao ar ausente da pessoa. Daí a necessidade de saber o que os outros leem de tão interessante, e o contorcionismo que advém dessa curiosidade maníaca.

Minhas táticas de guerrilha incluem espreguiçar-se em direção à vítima, fingir que se está distraído e perguntar as horas. É perfeitamente lícito puxar assunto sobre o tempo só pra ver se ela baixa a guarda, mas terminantemente proibido perguntar de chofre o que a pessoa está lendo. Isso implicaria ter que dar a sua opinião sobre o título e efetuar uma desagradável interação humana, o que quase nunca é positivo, já que você pretende apenas sanar a curiosidade e retornar ao seu próprio romance. 

Ironicamente – ou mesmo por conta disso –, sou tímida ao expor minhas leituras ao público, fazendo de tudo para dificultar a identificação imediata. É algo cruel, admito. E não acontece só quando estou lendo porcarias, mas também por modéstia. Não fica bem ostentar um Dostoiévski na praia e um Flaubert no original num 118-C. Se é inegável a existência de leitores exibicionistas que carregam por aí suas edições comentadas de Joyce ou Pynchon debaixo do braço, com o título voltado para os transeuntes, há os que, como eu, encapam o livro ou o escondem virado pra baixo, com uma incômoda sensação de que há alguém, em algum lugar, ocupado em roubar seu valoroso segredo.

(Como esse senhor da foto.)

O segredo mais bem guardado da TV

Posted: 9th julho 2012 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
Tags: , , ,
Folha de S.Paulo – Ilustrada
9 de julho de 2012

por Vanessa Barbara

Há bem mais do que “Doku-soaps” e julgamentos novelescos na tevê alemã: existe um seriado policial de altíssimo nível e popularidade avassaladora que atende pelo nome de “Tatort” (“Cena do Crime”).

Pergunte a qualquer alemão onde ele estará no domingo às 20h15 e é bem provável que a resposta seja a mesma: no bar, assistindo “Tatort” pelo telão. Ou no sofá de casa. É dessas experiências culturais difíceis de traduzir para os estrangeiros, mas que falam alto a uma nação. Alguns bares chegam a receber os episódios em DVD com antecedência, para que os fãs possam pausar e tentar adivinhar o assassino.

A série é veiculada pela emissora estatal ARD desde 1970, com a mesma abertura – um par de olhos e uma sequência antiquada ao estilo 007. Os canais regionais possuem cada qual sua equipe de investigadores, de modo que existem quinze variações de “Tatort” em cidades como Berlim, Leipzig, Bremen, Stuttgart e até Viena.

Os espectadores tendem a escolher sua favorita e assistir aos episódios regionais com o furor que alguns reservam ao futebol e ao pinocle. Não raro, o enredo aborda questões sociais da área, como abuso de menores, imigração e violência escolar.

O “Tatort” de Frankfurt é conhecido pela excelência na cinematografia e roteiro, já o de Munique se destaca pelos diálogos rápidos e bem-humorados. Em Konstanz, os detetives às vezes resolvem crimes ambientais. O de Hamburgo traz um investigador solitário de raízes turcas, e o de Hanover tem uma protagonista feminina.

“Tatort” se diferencia da franquia norte-americana “CSI” por ser mais voltado à caracterização de personagens do que à solução de homicídios engenhosos. Cada episódio dura 90 minutos.

Seria mais pertinente compará-lo à série britânica “Inspetor Morse”, que também traz um detetive melancólico e anti-Sherlock Holmes. A narrativa é realista e não usa flashbacks ou movimentos tresloucados de câmera.

Um episódio célebre é “Reifezeugnis”, dirigido por Wolfgang Petersen (de “Das Boot”), com a jovem Natassja Kinski. O detetive mais popular foi Horst Schimanski, sujeito parrudo com ficha criminal e propensão ao alcoolismo interpretado por Götz George nos anos 80.

Ao todo, foram exibidos 852 episódios da série. Com exceção de um austríaco, garimpado no YouTube, nenhum deles está disponível com legendas em inglês, em DVD ou na internet.

“Tatort” é o segredo mais bem guardado da televisão.

Cadernos Expedicionários – A placa

Posted: 8th julho 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários
Placa na esquina de casa, certamente afixada por um mandaquiense. 

[No dia 17 de abril de 1967, neste lugar, não aconteceu nada.]

Cadernos Expedicionários – Caça ao Tesouro

Posted: 8th julho 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários
“Levée aux aurores un samedi. Pour aller faire un jeu de piste. Estimation de mon âge du jour: 8 ans. #ChasseAuxTrésors”

Cadernos Expedicionários – Felinos III

Posted: 8th julho 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários
Agora eu tenho um gato. É o felino mais silencioso do mundo e ainda vai me matar do coração.

Cadernos Expedicionários – Felinos II

Posted: 8th julho 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários
Ele de novo – com a mesmíssima cara.

“Granta” anuncia na Flip os 20 autores de edição brasileira

Posted: 6th julho 2012 by Vanessa Barbara in Clipping
Tags:
Folha de S.Paulo – Ilustrada
06 de julho de 2012

por Raquel Cozer, de Paraty 

Após um ano de suspense, foram anunciados ontem, na Flip, os 20 nomes que integram a edição “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros” da prestigiosa revista literária britânica “Granta”.

Carol Bensimon, Vanessa Barbara (colunista da Folha), Laura Erber, Carola Saavedra, Tatiana Salem Levy e Luisa Geisler compõem o time feminino. Os outros 14 são Cristhiano Aguiar, Javier Arancibia Contreras, Miguel del Castillo, João Paulo Cuenca, Emilio Fraia, Julián Fuks, Daniel Galera, Vinicius Jatobá, Michel Laub, Ricardo Lísias, Chico Mattoso, Leandro Sarmatz, Antônio Xerxenesky e Antonio Prata, colunista da Folha.

Eles foram selecionados entre 247 escritores nascidos a partir de 1972 e que enviaram textos para a Alfaguara, que publica a “Granta” no Brasil. Segundo Marcelo Ferroni, editor da casa e um dos jurados, houve uma pré-seleção. Os sete membros do júri avaliaram os 70 textos.

“Os 20 foram escolhidos unicamente com base na qualidade literária”, disse Roberto Feith, editor da Alfaguara. “São os nomes que definirão os rumos da literatura brasileira nos próximos anos.”

Feith contou que, antes do anúncio da “Granta” brasileira, a editora levantou nomes interessantes e a maioria deles enviou textos. Segundo Ferroni, a lista não interferiu na seleção feita a partir dos textos, embora 17 dos 20 estivessem no começo.

Além dele, integravam o júri Beatriz Bracher, Benjamin Moser, Cristovão Tezza, Ítalo Moriconi, Samuel Titan Jr. e Manuel da Costa Pinto.

O júri recebeu os textos entre outubro e novembro. Em fevereiro, cada um apresentou seus 20 escolhidos. Todos os que levaram de cinco a sete votos entraram na lista. Os que tiveram quatro votos também, a não ser que algum dos jurados se opusesse ao nome.

Na “fase do sigilo”, os textos foram formatados antes de avisar os autores, o que ocorreu entre abril e maio, para que lessem os textos finais e dessem informações biográficas.

Com 10 mil exemplares no Brasil, a edição sairá também nos países de língua inglesa e espanhola e na China.

O inglês John Freeman, editor da “Granta”, lembrou que “basicamente todos os autores que ganharam o Booker Prize nos últimos anos estavam nas listas de melhores autores de língua inglesa da ‘Granta'”, como Ian McEwan e Salman Rushdie.

Cadernos Expedicionários – Felinos

Posted: 3rd julho 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários
Abro a janela do novo apartamento e me deparo com…

Cadernos Expedicionários: Novo QG

Posted: 3rd julho 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários
Graças ao meu espartano senso de limpeza e organização mandaquiense, livrei-me da temida Lápide do Mau Locatário da Rue de Meaux, e ainda ganhei duas mangas como prêmio pelo bom comportamento, além da estima infinita do Monsieur Gabin e seu fiel escudeiro Ganesh. 

Como já era de se esperar, também consegui vencer os 744 passos da Caça ao Tesouro que me separavam do meu novo lar, que realmente incluíam bips escondidos e chaves em locais inusitados – onde agora estou, me sentindo o Indiana Jones. 

(E tenho uma espingarda.)

 

Cadernos Expedicionários: a lápide

Posted: 3rd julho 2012 by Vanessa Barbara in Cadernos Expedicionários
Em tempo: em alterada conversa etílica com Monsieur Gabin e um prato de mangas, foi-me informado de que esse não é (repito: não é) o túmulo do último locatário, que fez barulho em excesso e não pagou o aluguel. 

Tenho lá as minhas dúvidas. Torçam por mim no Julgamento Final.