Nascido aos 50

Posted: 16th outubro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
16 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara

Pouco conhecida no Brasil, a série de detetives “Inspetor Morse” é um clássico da TV inglesa. Teve a duração de treze anos (de 1987 a 2000), com um total de 33 episódios e 81 vítimas.

À maneira de “Columbo”, cada investigação é um longa-metragem de 1h40, tempo suficiente para o detetive conduzir o caso de forma morosa e improcedente, parando para beber em todos os pubs de Oxford e seguindo pistas absurdas.

Nessa série, é comum passar um episódio inteiro desvendando um homicídio que parecia suicídio – persegue-se o culpado com fervor, provas são encontradas, uma prisão é feita. Por fim, o inspetor chega à conclusão de que a vítima havia se matado mesmo.

O fator anticlimático é tão perturbador quanto original, num gênero televisivo que se tornou cada vez mais cartesiano. Os roteiros, por vezes confusos, trazem informações desencontradas e subtramas desnecessárias. Há peças que não se encaixam. Muitas pistas não levam a nada, enquanto outras hipóteses são abandonadas bruscamente e jamais retomadas.

O inspetor-chefe Endeavour Morse (o prenome vem do navio do capitão Cook e quer dizer “esforço”) é interpretado por John Thaw, um senhor circunspecto de cabelos brancos e olhos azuis que, segundo o próprio, aparenta ter 50 anos desde que nasceu.

Saído dos romances policiais de Colin Dexter, Morse é ríspido e presunçoso. “Sou velho, solteiro e não entendo a natureza humana”, diz. É fã de ópera, tem gostos refinados, bebe sem parar e aprecia palavras cruzadas.

Sua falta de traquejo social é evidenciada no episódio “Twilight of the gods”, quando ele pergunta pela primeira vez como vão a esposa e filhos do sargento Lewis, seu parceiro desde sempre.

No Brasil, “Inspetor Morse” chegou a passar no Multishow e até há pouco tempo constava da grade do canal Film & Arts. Em 2007, anunciou-se um “spin-off” com o parceiro de Morse no papel principal – “Lewis” já está na sexta temporada.

Um dado curioso: reparem na bela música incidental e no tema da série, criados por Barrington Pheloung. Nos acordes da flauta, pode-se distinguir uma palavra dita em código Morse: o nome do protagonista, Morse. Em certos casos, a flauta também revela o nome do assassino.

A mobília falante de Datena

Posted: 9th outubro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de São Paulo – Ilustrada
9 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara

Não dá pra saber se foi de verdade ou encenação, mas achei José Luiz Datena um sujeito estranhamente lúcido.

Nesta quarta, o virulento apresentador de “Brasil Urgente” (Band, seg. a sex. às 17h) foi o convidado de Marília Gabriela no “De frente com Gabi” (SBT, qua. à 0h15), onde tomou as rédeas da conversa.

Esquivando-se das perguntas sobre seu salário possivelmente milionário, ele falou da mudança brusca de emissoras e declarou ser infeliz com o que faz. “Eu odeio fazer jornalismo policial”, disse. “Só caí nessa porque o Eduardo Lafon me deu a oportunidade.”

À vontade com o próprio discurso, o jornalista tinha os olhos vermelhos e falou de Complexo de Édipo, mais-valia e Tolstói.

“Esse negócio de propriedade é uma coisa muito relativa. Eu estava lendo outro dia… relendo os clássicos do Tolstói e tinha lá um cavalo”, afirma, referindo-se ao conto “Kholstomér”. Nele, o equino indaga se a propriedade é daquele que tem ou daquele que cuida.

Datena exalou angústia e tormento existencial. “Quando eu não tinha grana era mais feliz do que sou hoje”, revelou, citando de improviso um trecho das “Confissões” de Santo Agostinho, no qual o filósofo vê um mendigo sorrindo e inveja sua felicidade.

“O mendigo não tinha nada. E ele, que tinha praticamente tudo, estava vivendo um momento tenso.” Segundo Datena, o filósofo apreciava as mulheres e, “se não me engano, foi o autor da frase: ‘Senhor, faça-me casto, porém não agora’”.

É um discurso muito encaixado e pensado para provocar determinada reação – Datena está infeliz e odeia o que faz. Ao longo da entrevista, fiquei pensando no “Faça-me casto, porém não agora” e na pergunta: por que, então, Datena continua nesse emprego detestável? Por que não sai agora e vai fazer aquilo que gosta?

Posso até dar uma sugestão. No melhor momento da noite, ele confessa que já foi ao psiquiatra e fez três meses de terapia. “O médico botou uma cadeira vazia e falou assim: ‘essa aqui é a sua mãe’.”

Datena passou quarenta minutos conversando com a cadeira. “Se foi bom, não sei. Mas toda vez que eu vou à Tok&Stok vejo a minha vó, meu pai, minha tia…”

Taí: Datena podia comandar um talk show com cadeiras.

Folha de S. Paulo – Ilustrada
2 de outubro de 2011

Febre no YouTube, vídeos da Galinha Pintadinha estreiam no mercado hispânico após terem sido recusados por canais de TV

Divulgação

Galinha Pintadinha e Galo Carijó no 2º DVD de clipes

VANESSA BARBARA
COLUNISTA DA FOLHA

Sucesso entre os bebês de variadas procedências e classes sociais, os vídeos da franquia brasileira Galinha Pintadinha se preparam para entrar no mercado hispânico.

A fase de produção já foi concluída no México e a equipe procura distribuidores na América Latina. Por enquanto, só três das 16 faixas estão disponíveis em espanhol no YouTube: “Mariposita”, “Gallina Pintadita” e “Pollito Amarillito”, com 80 mil visualizações no total.

Os criadores da febre da Galinha são os publicitários Marcos Luporini, 40, e Juliano Prado, 41, sócios da Bromélia Filminhos, de Campinas (SP). Há quatro anos, produziram uma animação caseira da cantiga “Galinha Pintadinha”, de um minuto e 49 segundos, para mostrar a produtores de canais infantis.

Fizeram um videoclipe simples e colorido protagonizado por uma galinha azul de pintinhas brancas que certo dia cai adoentada e sofre a indiferença do marido carijó. A letra aparece na tela com uma bolinha para as crianças acompanharem.
Como não podiam se deslocar para mostrar o vídeo aos compradores, eles postaram o material no YouTube.

“À época, buscávamos alguma forma de conseguir financiar o restante do projeto. Tentamos de tudo. As pessoas até simpatizavam, mas não davam dinheiro”, conta Luporini. Entre as empresas que recusaram o vídeo, estão a TV Cultura, o Discovery Kids e agências de propaganda.

Conformados com a recusa, nem se preocuparam em tirá-lo do ar. Seis meses depois, o clipe havia sido visto meio milhão de vezes. Hoje, já são 42 milhões.

Desde então, o subproduto mais célebre da franquia, o “Pintinho Amarelinho”, é o mais visto do mundo na categoria filmes e desenhos, com 75 milhões de cliques. Outros oito títulos da marca estão no top 15 do YouTube, com 266 milhões de visitas.

Nos últimos dois anos, a dupla lançou dois DVDs, um CD com versões de ninar, um galináceo de pelúcia e uma coletânea em Blu-ray. Pretende ainda licenciar a marca para comercializar brinquedos, roupas, material escolar e um game on-line.

Recentemente, foram procurados pela agência F.Biz, que propôs uma ação de marketing conjunta com os sabonetes Lifebuoy. A faixa “Lava a Mão” já existia e estava na lista do próximo DVD.

“Apresentamos a música e, por razões óbvias, a empresa se interessou. Antecipamos a produção e o lançamento do clipe no YouTube como um oferecimento Lifebuoy”, conta Luporini. Em menos de dois meses, o vídeo tem 1,8 milhão de cliques.

LOOPING

O paulistano Max Blas Vidal de Souza, um ano e cinco meses, é um bebê geralmente centrado. Com seus cachos alourados e temperamento pacífico, Max tem pendor para a literatura e as artes plásticas, sendo seu único revés comportamental o costume de sujar a calça de geleia.

Ainda assim, há uma coisa que tira Max do sério: os vídeos da Galinha Pintadinha. Sofia Nishida, de 14 meses, e Augusto Saggio Barbará, de 17 meses, também escutam as músicas sempre em looping.

“Dos quase 16 milhões de visualizações desse vídeo, 15 milhões foram dos meus filhos”, calcula o webdesigner Rafael de Souza, em comentário no YouTube.

Até a presidente Dilma Rousseff revelou sua predileção pelo galináceo cantante, após ter sido flagrada, em julho, entoando em altos brados a música-título, junto ao senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e à ministra Helena Chagas, numa viagem a bordo do avião presidencial.

Ela assumiu os vocais e os assessores ficaram no “pó, pó, pó, pó…”. Depois, cantou “Atirei o Pau no Gato” com o vice Michel Temer. Dilma tem um neto de um ano.

Todos os bebês expostos à epidemia aviária repetem mecanicamente os gestos do pintinho (que “cabe aqui na minha mão”) e, ao verem ilustrações de batráquios, fazem “não” com as mãos (de “O Sapo Não Lava o Pé”).

A praga voltou-se contra os próprios criadores -Luporini tem um bebê de oito meses, e Prado, duas filhas mais velhas, todos infectados. Ainda assim, rejeitam as acusações de haver mensagens subliminares nos vídeos.

“Engraçado como essas teorias conspiratórias antigas nunca saem de moda”, desconversa Luporini, acrescentando: “Dominar o mundo não está nos nossos planos”.

“Não existe nenhuma técnica”, diz. “Só buscamos simplificar a linguagem para aproximá-la dos pequenos. O resto é intuição mesmo.”

Zebras na pista

Posted: 2nd outubro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
02 de outubro de 2011

por Vanessa Barbara 

Quando me disseram que “problemas com zebras” atrasaram o início do treino livre de Fórmula 1, na sexta-feira passada, decidi que era hora de finalmente assistir ao Grande Prêmio de Cingapura, pela Globo (dom. às 9h).

Qual foi a minha decepção ao saber que as tais zebras não eram os equídeos listrados de temperamento pacífico e olhar perdido que todos nós conhecemos e amamos, trotando desvairadamente em direção ao grid de largada, mas as faixas pintadas que margeiam as curvas do autódromo.

A desilusão esportiva não parou por aí: logo de início, Galvão Bueno informou que um carro iria “abrir as asas”. Ninguém saiu voando.

Ele se referia ao aerofólio traseiro no formato de asa invertida que, quando acionado, confere maior velocidade na ultrapassagem minimizando o chamado “downforce”, que grudaria o automóvel ao chão em vez de fazê-lo decolar.

A Fórmula 1 é um esporte anticlimático. Ninguém voa e não há zebras na pista.

Embora o Circuito de Marina Bay seja noturno e urbano, com a cidade estonteantemente iluminada à beira de uma baía, e ainda que os pilotos trafeguem pela contramão e no corredor de ônibus, o evento em si não tem muitos atrativos para quem esperava a corrida de bigas do “Ben-Hur”.

É uma competição de automóveis milionários andando em círculos milionários, enquanto na tela surgem dados de velocidade, distância e número de voltas.

Nos bastidores, há uma infinidade de velhos alemães e moças loiras com calças justas de oncinha, além de alarmados homenzinhos acolchoados que trocam pneus em 2,9 segundos – de quem, aliás, gosto muito.

Gosto também dos sujeitos de macacão que entram correndo para tirar pedaços de carros recém-acidentados. Gosto quando o carro de segurança entra na pista e, comportados, os pilotos fazem filinha atrás dele e andam em ziguezague, com a intenção secreta de irritar quem vem atrás.

Foram duas horas de considerações sobre a estratégia dos pneus e só uns poucos comentários sobre o equilíbrio mental de Lewis Hamilton, que, para Galvão Bueno, é hoje um caso de psiquiatria.

“Ele literalmente tem perdido a cabeça dentro do carro, não tem outra explicação”, diz o locutor, e eu quase caio do sofá.

Blog da Companhia das Letras
28 setembro 2011, 1:13 pm

Por Vanessa Barbara

[Leia A cartografia de O grande Gatsby, com um mapa da área onde se passa a história, e Gatsby no cinema, sobre as adaptações do livro.]

[Atenção: este texto contém spoilers.]

Comecei a traduzir O grande Gatsby em janeiro e, ao final da empreitada, quatro meses depois, havia um cadáver num colchão inflável, descrevendo círculos na piscina. Meu casamento chegara ao fim e, como Nick Carraway, eu estava de volta ao Oeste para limpar a sujeira que os outros deixaram pra trás — no funeral, apareceu apenas um homem com os Olhos de Coruja, e choveu bastante.

Foram cinco meses de perplexidade e angústia, ainda mais porque eu não lembrava o que acontecia no final e ia seguindo, página a página, pensando “isso não vai dar certo”, e, ainda assim, virando a folha. Mesmo que a tragédia tenha sido suficientemente anunciada, eu insistia em decifrá-la, detendo-me em parágrafos misteriosos como os do final do capítulo 2 e procurando obter maior clareza, ainda que doesse.

O grande Gatsby fala de um novo-rico que compra uma mansão à beira da baía, em West Egg, e passa a promover festas extravagantes para reconquistar um grande amor do passado, Daisy, casada com um sujeito hipócrita e arrogante chamado Tom Buchanan. O narrador é Nick Carraway, primo de Daisy, que também mora do lado pobre da baía (East Egg é onde vivem os ricos). Tom mantém um apartamento em Nova York onde costuma se encontrar com a amante, sem o menor pudor, e durante aquele fatídico verão Daisy acaba engatando um romance com Gatsby.

Há duas cenas que ilustram à perfeição o que Gatsby significou pra mim nesses quatro meses: de um lado, o incidente com a roda do automóvel, no final do capítulo 3, e de outro, o último encontro entre o narrador e Tom Buchanan, no fim do livro.

O incidente da roda fecha magistralmente a descrição de uma festa no jardim da mansão de Jay Gatsby, onde se passava a noite toda dançando, brigando e se embebedando. Quase ninguém era efetivamente convidado, poucos conheciam o anfitrião e havia uma cantora alta e ruiva, integrante de um famoso coro, que “bebera grandes quantidades de champanhe e se convencera inoportunamente, no decorrer da canção, de que tudo era muito triste — de modo que não estava só cantando, mas também chorando”. Quando alguém lhe faz uma piada, ela lança as mãos ao céu, afunda na cadeira e cai num sono etílico.

Ao final da festa, o narrador deixa a mansão e vê um carro caído numa vala, provavelmente saído da garagem há não menos de dois minutos. Completamente embriagado, o motorista sai dos escombros e pergunta o que houve.

“Meia dúzia de dedos apontaram em direção à roda amputada. Ele a encarou por um instante e então olhou para cima, como se suspeitasse que tivesse caído do céu.

[…] Então, tomando um longo fôlego e endireitando os ombros, ele comentou: — Será que alguém aí sabe informar onde tem um posto de gasolina?

Pelo menos uma dúzia de homens, alguns quase tão bêbados quanto ele, lhe explicaram que roda e automóvel não mais se encontravam unidos por um elo físico.

— Para trás — ele sugeriu, depois de uma pausa. — Vamos dar marcha a ré. — Mas falta uma roda! Ele hesitou. — Não custa tentar.”

Os trechos sobre a festa são impagáveis e me fazem lembrar uma piada do cineasta Woody Allen: “Francis Scott e Zelda Fitzgerald voltaram pra casa, após uma tresloucada festa de réveillon. Era abril.”

São passagens engraçadas e ao mesmo tempo melancólicas, que trazem à tona personagens como Klipspringer, tão assíduo das festas que era conhecido como “o hóspede” — duvidava-se que tivesse outra residência — e que, no final, ressurge apenas para pedir seus tênis de volta. As noites ofuscantes e barulhentas no jardim de Gatsby prenunciam a frieza que estava por vir.

Toda a dissimulação e desprezo tem seu ápice na cena mais sufocante do livro, dentro de um quarto no Plaza Hotel, quando Tom resolve humilhar Gatsby e passar a limpo a traição da esposa. Brutalmente, manda-os voltar no mesmo carro.

Na volta, Daisy atropela a amante de Tom e é Gatsby quem assume a culpa. Tudo termina em sangue e tragédia, menos para os Buchanan, que se mudam para outro lugar e seguem suas vidas como se nada tivesse acontecido.

O que nos leva àquela que, ao meu ver, é a principal cena do livro: Nick está andando pela Quinta Avenida, meses após o incidente, e encontra Tom. Hesita em cumprimentá-lo (“você sabe o que penso de você”).

Nesse trecho, muitos críticos falam da moralidade oscilante do narrador, que, no fim das contas, acaba apertando a mão de Tom, de certo modo compactuando com toda a sujeira e indiferença que vira até então: um marido negligente que trai publicamente a esposa, uma esposa avoada que sai impune de um homicídio culposo, uma vítima desiludida boiando num colchão inflável. A certa altura, Nick admite que Gatsby “vale mais do que todos eles juntos”, embora seja tarde demais para dizê-lo, e a despeito de o próprio Gatsby não ser uma pessoa tão admirável quanto o narrador faz pensar.

Ninguém sai impune desse romance duro e sem concessões — talvez apenas o Homem de Olhos de Coruja, que, bêbado há mais de uma semana, tem um insight sobre Gatsby, comparando-o a uma biblioteca de encadernações verdadeiras, mas que nunca foram lidas.

Lembrando o dia em que a filha nasceu, Daisy confidencia ao primo: “Não fazia nem uma hora que ela tinha nascido e Tom estava sabe Deus onde. Acordei do éter com um sentimento de completo abandono e perguntei à enfermeira se era menino ou menina. Ela me disse que era menina, e então eu virei a cabeça e chorei. ‘Que bom que é uma menina. […] Espero que ela seja uma grande tonta: é o melhor que uma garota pode ser neste mundo, uma belíssima tonta’”.

*****

Daisy e Tom pertencem a uma “irmandade secreta muito distinta” a quem tudo é permitido, e a quem basta fingir que nada aconteceu para que de fato nada tenha ocorrido. O romance inteiro é calcado em “acidentes”: o atropelamento fatal, os motoristas imprudentes, o namoro de Daisy com alguém de classe inferior, o esbarrão no trem entre Tom e a amante, que leva ao prolongado adultério. É como se os erros e descuidos das pessoas pudessem ser tomados como acidentes, como negligências inconsequentes sem qualquer implicação mais séria. “É como se Nick [o narrador] tivesse que se defrontar com um universo inteiro de casualidade. Desimportante. Insignificante”, diz Tony Tanner, na introdução desta edição. “Num mundo dominado pelos Buchanan, a pura contingência reina absoluta, ameaçadora e grotesca.”

O próprio narrador pondera:

“Eu nunca seria capaz de perdoá-lo ou de gostar dele, mas vi que seus atos eram, a seus olhos, inteiramente justificáveis. Tudo decorrera de forma descuidada e confusa. Eles eram todos descuidados e confusos. Eram descuidados, Tom e Daisy — esmagavam

coisas e criaturas e depois se protegiam por trás da riqueza ou de sua vasta falta de consideração, ou o que quer que os mantivesse juntos, e deixavam os outros limparem a bagunça que eles haviam feito…”

Na madrugada após o atropelamento, Nick espia pela cortina da cozinha e vê o casal conversando — não exatamente felizes, mas não de todo tristes. “Havia um clima inequívoco de intimidade natural naquela cena, e qualquer um poderia jurar que estavam conspirando.”

E estavam. Depois do almoço, os Buchanan já tinham partido sem avisar ninguém, e, antes do fim do ano, Tom caminhava pela rua com naturalidade, parando para olhar a vitrine de uma joalheria — talvez em busca de um presente para a nova amante. “O que vocês queriam? O que esperavam?”, diria o Homem de Olhos de Coruja, com sua sabedoria bêbada.

Para que o caso pudesse permanecer o mais simples possível, ninguém tomou a responsabilidade para si, apressando-se em atribuir o crime a um homem “louco de tristeza”. E ficou por isso mesmo. A indiferença é tamanha que, quando Tom percebe a hesitação de Nick em cumprimentá-lo, reage de forma indignada: “Você está louco, Nick. […] Não sei qual o seu problema”.

“Apertei a mão de Tom; me pareceu tolo não fazê-lo, pois tive a súbita impressão de que estava lidando com uma criança. Então ele entrou na joalheria para comprar um colar de pérolas — ou talvez apenas um par de abotoaduras —, livre para sempre da minha sensibilidade provinciana.”

Até o último instante, Gatsby esperava o telefonema de Daisy. E é assim que, ao final do romance, temos um cadáver boiando à deriva num colchão inflável, e uma tradutora que abraçou o livro por acidente — justo este livro — e até hoje não sabe ao certo se o automóvel que a atropelou era verde-claro ou amarelo.

*****

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Politicamente cruel

Posted: 25th setembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
25 de setembro de 2001

por Vanessa Barbara 

No dia 16, estreou no Brasil o filme “Glee 3D”, que conta os bastidores da turnê musical dos protagonistas da série pelos EUA.

Prenunciando o fracasso de bilheteria, o astuto produtor soltou um comunicado à imprensa supostamente escrito pela vilã Sue Sylvester, treinadora das cheerleaders e arquirrival do clube de canto que dá nome ao show.

“Diga não a essa experiência cinematográfica insignificante”, ela bradou. “Seu rosto vai derreter e seus filhos irão chorar sobre o cadáver desfigurado”.

De forma absolutamente inadequada, lembrei do escritor Jorge Luis Borges, que clamava o direito de escrever uma crítica impiedosa contra si mesmo, pois ninguém conhecia melhor seus defeitos.

Egocêntrica e mesquinha, Sue Sylvester é um dos acertos da série, com suas tiradas difamatórias, o invariável abrigo de ginástica e o costume de empurrar as crianças no corredor.

Ela forma um complemento perfeito à sinceridade tocante do diretor Figgins, capaz de dizer coisas como: “Infelizmente, Fulano não pôde comparecer por desinteresse”.

Certa vez, ele anunciou nos alto-falantes: “Em primeiro lugar, os alunos que comeram o ravióli hoje e não estão em dia com a vacina de tétano devem ir à enfermaria imediatamente”.

Sue Sylvester não perde em franqueza – ela é autora do best-seller: “Eu sou uma campeã e você é gordo” e gosta de se referir aos membros do Clube Glee como “aqueles perdedores que brincam de druidas e gnomos”.

Seu método pedagógico se traduz num “estado de medo constante, um ambiente de terror irracional e aleatório”. Seu bordão: “Vocês acham isso difícil? Experimentem a tortura por afogamento”.

Num momento de ternura, ela confessa que não deseja fazer as pazes com Will Schuester, mas golpeá-lo com uma pá.

Anota todos os planos malévolos num diário, como quando falhou em trocar as cadeiras da escola por traves afiadas, “numa retumbante derrota em minha guerra contra sentar”.

Uma de suas pérolas: “Se você atrasar um minuto, irei ao abrigo de animais e lhe trarei um gatinho. Deixarei que você se apaixone pelo filhote. E aí, numa noite escura e fria, invadirei a sua casa só para surrá-lo”.

Chega de vilões sentimentais. O mundo precisa de uma nova Cruella Cruel.

A cartografia de O grande Gatsby

Posted: 20th setembro 2011 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
20 setembro 2011, 10:46 am

Por Vanessa Barbara

O mapa acima foi cuidadosa e atabalhoadamente confeccionado pela tradutora deste romance, com vistas a se localizar na geografia mítica de Fitzgerald, que mistura logradouros inventados à cartografia real de Long Island.

O objetivo é ajudar o leitor a se situar nas andanças dos personagens pela região e no caminho até Manhattan.

A fictícia “West Egg” do livro, onde moram Gatsby e Nick Carraway, corresponde a Kings Point, na península de Great Neck. A badalada “East Egg”, onde vivem os Buchanan, corresponde a Sands Point, na península de Cow Neck.

O lendário Vale das Cinzas, onde se localiza a oficina de George Wilson e onde ocorre o acidente, é uma região comprida e desolada, conhecida na época como o Depósito de Corona, no Queens, onde eram descartadas as cinzas industriais das fornalhas de carvão, além de lixo e esterco. Em 1936, a área foi revitalizada para a Feira Mundial de 1939-40, e hoje abriga o Flushing Meadows Corona Park (onde até há pouco tempo havia o Shea Stadium).

Pode-se dizer que a oficina de Wilson no Vale das Cinzas fica próxima ao ponto onde a rodovia e a ferrovia cortam o rio Flushing. Em sua geografia mítica, Fitzgerald teve de aproximar o traçado de ambas para poder situar a oficina à beira da estrada e a pouca distância da ponte levadiça que define a parada dos trens.

Recomenda-se que o leitor imprima este garboso mapa de proporções razoavelmente fidedignas a fim de anexá-lo à última página do livro, podendo se sentir à vontade para percorrer os passos dos personagens com a ajuda de peões coloridos, feijões ou carrinhos do Jogo da Vida.

Observação: Como base, usei uma foto de satélite gentilmente fornecida pelo Google Earth, transcrita em papel vegetal com canetinhas e lápis de cor. Fica o agradecimento a Jennifer Roberts, professora de literatura americana da Point Loma High School, em San Diego, Califórnia, que postou em seu blog este belo mapa, que adotei como esboço.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 28 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Por uma miss sem noção

Posted: 18th setembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo / Ilustrada
18 de setembro de 2011

por Vanessa Barbara

Para ganhar o concurso de Miss Universo, é preciso ser terráquea. O que se configura extrema injustiça e tira do páreo as belas mulheres de Hercólubus, aquele planeta em rota de colisão com a Terra, e do recém-descoberto HD85512b, onde, com sua tez esverdeada, as nativas devem ficar lindas de biquíni marrom.

(Há quem diga que a representante de Andrômeda compareceu ao concurso, mas não era visível. Outras pereceram com o ar-condicionado do Credicard Hall, posto serem micróbios.)

Além da tediosa procedência terrícola, há que se ter porte, presença e elegância. Mão na cintura e olhar perdido, como se estivessem resolvendo um cálculo matemático (…menos oito, fica sete, vai um), elas foram obedientes ao treino recebido.

Daí a falta de grandes emoções e imprevistos no Miss Universo 2011, exibido pela Band na segunda-feira.

A emissora tinha um camarote de onde transmitia os comentários de Adriane Galisteu e da editora de moda Susana Barbosa. O palco da cerimônia podia ser visto ao fundo.

Melhor seria se houvessem transmitido os intervalos do show, aqueles instigantes momentos em que os produtores dão instruções para o público e há maquiadores em perpétuo estado de retoque.

Em uma dessas pausas, as misses congelaram as poses enquanto um sujeito ao microfone informava que era proibido apitar.

Na hora das perguntas, mais tédio – questionada sobre o nudismo, a representante da China, que lembrava um altivo urso panda, perdeu a chance de dizer que era, sim, a favor de todo mundo peladão. Receberia o apoio histérico da torcida.

Quanto ao que gostaria de mudar no corpo, a campeã Miss Angola podia ter dito: visão de raios X e respiração branquial subaquática, o que, se talvez não agradasse, ao menos impressionaria os jurados.

Outras perguntas versariam sobre a pena de morte (sim ou não, sem chances para tergiversar sobre a importância de manter as praias limpas), aborto, legalização das drogas e transgênicos.

Fosse eu a representante da República Popular do Mandaqui, tornaria tudo mais divertido manifestando ser contra as criancinhas do mundo e a favor das guerras, da corrupção, da fome e da saia-balão.

Meus hobbies: torturar passarinhos e tossir sem cobrir a boca.

Só mais uma observaçãozinha

Posted: 11th setembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo / Ilustrada
11 de setembro de 2011

por Vanessa Barbara 

Muita gente escreveu comentando a coluna sobre o ator Peter Falk (“Como se faz um ‘Columbo’”, de 10/7/11). Por isso resolvi parar à porta, hesitar um segundo e fazer “só mais uma observaçãozinha”.

O médico Fernando Corpa Fernandes, de 69 anos, quis saber por que a Universal não lançou no Brasil a série completa, desistindo do projeto antes da quarta temporada.

Ele elenca em seu e-mail as coisas de que mais gosta na vida: “pescar, Timão e Columbo”, no que estou absolutamente de acordo.

O dentista Marcio Palacios aproveitou para mandar um conto sobre manequins macabros, que compôs usando o método descrito na coluna: partindo de um fato ou situação, criam-se as condições para tudo acontecer.

O leitor Sergio Beni lembrou um de seus episódios preferidos, em que o assassino usa uma barra de gelo para cometer o homicídio, golpeando alguém à beira da piscina. Ou seja, a arma do crime nunca poderia ser encontrada.

“Que ideia maravilhosa”, ele comenta. “Vou escrever com letras maiores: QUE IDEIA MARAVILHOSA!”.

Já Aparecido Schiavone, de 63 anos, costumava assistir “Columbo” às segundas à noite na TV Tupi e enviou um verdadeiro tratado sobre o personagem, referindo-se a seus cabelos desgrenhados, “voz fina e irritante, sapatos velhos, terno gasto, camisa branca e gravata fina, estilo cowboy”.

“Tinha maneirismos como colocar o dorso da mão aberta na testa quando se via diante de um fato estranho na investigação. Mantinha uma cigarrilha apagada na mão esquerda e nunca tinha fósforos.”

Além da certeza de que ladrões pé de chinelo não cometiam crimes premeditados, Aparecido lembra outro corolário do tenente: toda teoria tem uma ramificação. Enquanto cada caminho não fosse fechado, era preciso insistir.

E quanto ao primeiro nome de Columbo? A resposta “Philip”, muito popular na época, foi inventada pelo escritor Fred Worth, que inseriu uma informação errada num livro de “trivia” só para poder processar futuros plagiadores.

(É o mesmo método usado por cartógrafos que plantam nomes fictícios de logradouros como futuras evidências de cópia não autorizada.)

Ao que parece, o primeiro nome de Columbo era, simplesmente, “Tenente”.

Dinei e as lhamas

Posted: 4th setembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, TV
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Tenho acompanhado com avidez as notícias do reality show “A Fazenda” (Record, dom. a sex. às 23h, sáb. às 22h15), que traduzem à perfeição todo o interesse e importância inerentes ao programa – e ao noticiário em si, por tabela.

Minhas preferidas se referem ao envolvimento emocional de Dinei com a população residente de lhamas (um macho e uma fêmea), suas melhores amigas e confidentes, que ouvem as angústias do atleta enquanto coçam as costas na cerca e mastigam portentosas graminhas.

De início, o ex-jogador do Corinthians temia levar uma boa cusparada dos animais, batizados pelo público de Lana e Lino. Com a convivência, perdeu o medo e também o pudor.

“Eu nunca vou esquecer vocês”, declarou, improvisando um samba cujos versos diziam: “Seu sorriso alto, nananã…/ Na orgia…/ Seu sorriso alto, simpatia…/ Nem tudo/ Em tuas glórias/ Eu lhe garanto…”, levantando dúvidas quanto à sua sanidade mental.

Segundo a imprensa, Dinei se afeiçoou aos ruminantes e passa as tardes gritando “Lino!” quando está sozinho na casa da árvore. “Falavam que você cuspia na cara”, afirmou, “mas nós viramos irmãos, mano”.

Num dos desabafos ele até chorou, exclamando, diante do camelídeo cada vez mais perplexo: “Por que fiz tanta besteira na minha vida, meu Deus do céu?”.

Dinei costuma procurar o pacato lhama para “trocar uma ideia”, e, no domingo passado, confidenciou que, se ganhar os 2 milhões, irá levá-lo para casa. Em público, disfarça sua afeição: “Se ele cuspir em mim, eu cuspo nele também”.

Até o fechamento desta edição, Lino não se pronunciou. Se persistir o assédio, temo que o lanífero peça para sair do programa, alegando que conversar com Dinei não está no contrato. “É muito degradante, né? A gente é lhama, mas a gente tem o nosso valor”, há de comentar o ruminante.

Outras notícias recentes: “Anna Markun se irrita com cabras”, “Compadre Washington assa a batata de Joana” e “Valesca Popozuda provoca avestruz”.

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P.S.: Ainda que as lhamas sejam o destaque absoluto do programa, o paraquedista Gui Pádua se saiu bem num desses momentos de histeria após o corte de um dos confinados. “Ela foi eliminada do jogo, não da vida”, filosofou.