Papai noel armênio, egípcio de quipá

Posted: 1st setembro 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Adur

Revista 18, do Centro da Cultura Judaica
Setembro de 2011

por Vanessa Barbara

Quando eu tinha 3 anos, nos idos de 1985, o Papai Noel da família se chamava Adur Kiulhtzian – um descendente de gregos e armênios que posteriormente virou tenor de projeção internacional, mas que até então era um amigo de infância dos meus tios. Todos os anos, Adur arrastava um saco de presentes pelo quintal da casa dos meus avós, no Bom Retiro, enquanto sua voz potente ecoava um ho! ho! ho! macabro, que me fazia chorar a noite inteira.

Adur e o irmão Stepan eram grandes amigos da família, bem como seu primo, Kevork Zadikian. Até hoje, Stepan mora na mesma rua (a Rodolfo Miranda, próxima à estação Armênia do metrô), assim como os meus avós, Glaudy e Paulo de Moraes. Minha família tem origem portuguesa e, ao longo de cinco gerações, vem acompanhando as transformações da região, totalizando 86 anos de bairro – somos, portanto, do jet set bonretirense.

O Bom Retiro é um lugar engraçado, confuso e anacrônico, onde se ouvem ao menos cinco idiomas e coabitam várias gerações de residentes e comerciantes. Lá, existem papelarias com a aparência de que fecharam em 1967 e reabriram na semana passada, exatamente como eram. Numa mesma esquina, convivem letreiros em coreano, um empório de comida kosher, uma lanchonete de burekas búlgaras e um padre Armênio que não é armênio, mas natural da Vila Brasilândia, zona norte. (Armênio é capelão do Mosteiro da Luz, ex-árbitro de futebol, corinthiano e apaixonado por fados portugueses.) Há também joint-ventures curiosas, como a videolocadora-cabeleireiro-despachante que esteve em atividade até pouco tempo, com sua promoção de R$ 1,50 para filmes do catálogo que ninguém levava, só eu – do tipo Momo, o senhor do tempo. E mais: um boteco com um poema do Fernando Pessoa pintado na parede, um jornaleiro que emprestava revistas aos clientes e um desconhecido que deixava dinheiro na caixa de correio dos outros, sem motivo.

Caos turco

O ponto para onde convergem todas as coisas é o armarinho do Turco, na rua Três Rios, 148 – cujo nome oficial é “Loja do Turquinho”. Trata-se de uma loja ostensivamente desorganizada, de propriedade dos irmãos Sérgio e Roberto Camasmie, que sabem exatamente onde ficam os extensores para sutiã da cor creme, as flanelas para pijamas, os rolos de cetim, tules, flanelas, aviamentos de costura, botões, forros, lãs, linhas, barbantes, agulhas, zíperes, rendas, tapetes e até aquele pedaço de veludo que a dona Ione deixou em 1955 para trocar porque veio com um vinco. “Não é infinito, mas é um finito longo”, costumam dizer. “Só não achamos o que não existe.”

O pai deles, Hacib, veio da Síria no começo do século e abriu a loja em 1925. Desde então, as coisas continuam basicamente no mesmo lugar. Amontoados, os grandes rolos de tecido ocultam mais rolos de tecido, e atrás deles se pode vislumbrar uma estante de metal comprida, uma escada de quatro metros de altura e o balcão, invariavelmente ocupado pelos dois irmãos. Que repetem ao recém-chegado: “Quem não pediu, pida.”

Sérgio e Roberto são engenheiros de formação, mas resolveram assumir o negócio em reverência ao pai, falecido em 1994, aos 95 anos. Juntos, atendem dezenas de clientes ao mesmo tempo, cobram os produtos, calculam o troco e fazem gracinhas, sobretudo às mulheres, a quem Sérgio diz ser “especialista em sutiã”. Negociam com japoneses, coreanos, armênios, gregos, egípcios, bolivianos e israelitas, todos seguindo a trilha dos imigrantes italianos que tomaram o bairro no início do século. Por conta da clientela internacional, sabem falar várias línguas. O velho Hacib era fluente em russo, árabe e italiano. Sérgio é versado em rudimentos do coreano: “Estou fazendo aquele curso de coreano por correspondência”, diz, e nunca se sabe quando está brincando. Ambos dominam as saudações básicas, uma ou outra pergunta “e, claro, os números”. “Embrulha-se o freguês em qualquer língua”, riem.

Em árabe, por exemplo, provocam o amigo e cliente Sherine Shaaban, numa cena registrada no documentário Cosmópolis (2005, Mutante Filmes). “Esse aqui é um grande shahath”, Sérgio afirma, apontando o recém-chegado. “Sabe o que é shahath? Chorão.”

Típico morador do bairro, Sherine tem 49 anos e nasceu em Alexandria, no Egito. É descendente de um muçulmano (Ibrahim Hussein Shaaban) e uma judia (Sarina Victor Schinazi). Sua esposa é nipo-brasileira, e seu filho se chama Amir Nasser Inawashiro Shaaban.

Além de praticante de xadrez e esgrima, esse egípcio é o maior fabricante de quipás da América Latina.

Seleção do resto do mundo

Artilheiro do time do Real F.S., fundado em 1979, meu tio Paulo de Moraes Júnior mora no bairro até hoje. Além dele, a escalação de base compreendia meu outro tio Mário Luiz, o Pezão (ocasionalmente substituído pelo Baleia), o Armênio (Kevork Kiulhtzian) e o Josué, neto da dona Rosária, uma espanhola que morava na rua João Kopke. “Em um dos nossos jogos internacionais, um boliviano baixinho e atarracado cabeceou o meu rosto em vez de cabecear a bola. Quebrei o nariz. Ele era tio da Kika e do Juca, que também moravam na João Kopke”, lembra.

Na época, uma das poucas bolivianas da região era a dona Fernanda, que fazia sacolas de ráfia, trabalhava “feito uma doida” e teve duas filhas gordinhas que sofriam bullying da molecada.

Na mesma calçada da casa dos meus avós ficava o prédio da Ofidas (Organização Feminina Israelita de Assistência Social), entidade beneficente hoje incorporada à Unibes (União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social). No segundo andar do edifício, havia uma suculenta biblioteca, onde, em meados de 1967, aos 13 anos, minha mãe Luiza resolveu abrir uma ficha – lá em casa não havia livros, e seu material de leitura até então consistia em quadrinhos usados e fotonovelas que minha avó comprava na feira.

Pouco depois, minha mãe deixou o decoro de lado e decidiu abrir seis fichas – uma para cada membro da família, incluindo as tias. Naturalmente, era ela quem lia tudo, voltando na semana seguinte para pegar uma nova leva. As bibliotecárias, claro, perceberam a movimentação suspeita e acharam por bem admiti-la como voluntária, mantendo-a sob vigilância e, de quebra, arrumando alguém para espanar os livros. Dona Ida e suas colegas davam total liberdade de ação para a pequena devoradora de romances e sugeriam novos títulos sem, contudo, serem invasivas. Durante anos a fio, graças às senhoras da Ofidas, minha mãe pôde ler um bom número de clássicos da literatura (em edições de luxo, adornados com letras douradas e encadernação de couro ou percalina), além de lançamentos contemporâneos como Exodus, de Leon Uris, que ela até hoje adora.

Já meu tio, em sua condição de futebolista veterano, fez questão de jogar nas quadras poliesportivas das mais diversas denominações religiosas presentes no Bom Retiro. Em quase cinquenta anos de bairro, demonstrou sua habilidade com a pelota no Instituto Dom Bosco, na Igreja Armênia Ortodoxa, no Colégio Nossa Senhora do Loreto e no Liceu Coração de Jesus, onde joga até hoje. Nas férias, aluga a quadra do Colégio Brasileiro Islâmico, onde é proibido falar palavrões e o atleta deve especificar a nacionalidade no ato da inscrição. Hoje, pertencem ao time um paraguaio chamado Javier, um coreano chamado San e um grego – que por acaso se chama Homero e é quem organiza as partidas.

O grupo segue o chamado “sistema homérico” de divisão dos times. Dono de uma papelaria na rua Correia de Melo, ele é responsável por imprimir, embaralhar e sortear os números plastificados que determinam a composição dos escretes (não só os que irão se enfrentar imediatamente, como também os que ficarão “de próximo”). É ele o dono do cronômetro.

Em 13 de junho de 2010, em plena Copa do Mundo, o Bom Retiro teve sua própria versão de Grécia vs. Coreia, um dia após a partida oficial. Homero foi chamado para disputar um arranca-toco contra um combinado de coreanos, proprietários de um comércio na rua Correia de Melo (hoje apelidada de “Coreia de Melo”). Tomado por um sentimento de civilidade neoclássica, encomendou um jogo de camisas nas cores branca e azul-claro e convocou a sua própria seleção: além do meu tio e do meu primo, que de gregos só tinham a afeição ao churrasco, o grupo era formado pelo filho de Homero, Emanuil, alguns brasileiros, um paraguaio e até um coreano. Mais uma vez, os helenos perderam.

Ecumenismo para todos os gostos

No distrito do Bom Retiro, que engloba os bairros da Ponte Pequena, Ponte Grande e Luz, há templos de pelo menos dez diferentes denominações religiosas. Há, por exemplo, uma igreja batista, uma Assembleia de Deus, uma igreja apostólica armênia, uma igreja ortodoxa grega, cinco paróquias católicas (Nossa Senhora da Auxiliadora, Santo Eduardo, São Cristóvão, São Gregório e o Santuário das Almas), um mosteiro (da Luz), seis sinagogas (Adat Ischurum, Ahavat Reim, Kehilat Israel, Kehilá Hadass Iereim, Machzikei Hadat, Rabi Itzchak Elchanan, Talmud Thorá Lubavitch) e um centro israelita (Knesset Israel), além da Congregação Israelita Ortodoxa Kehal Hassidim. Os coreanos têm sete opções: Igreja Batista Coreana, Igreja Missionária Emaús Coreana do Brasil, Igreja Coreana Missão Evangélica de São Paulo, Igreja Presbiteriana Fiel Coreana, Igreja Católica Coreana do Brasil, a Paróquia São Kim Degun e a Igreja Missionária Oriental de São Paulo. Outros templos da região são a Igreja Internacional da Graça de Deus, a Igreja Presbiteriana da Paz de São Paulo, a Presbiteriana Emanuel do Brasil, a Presbiteriana Feliz e a Congregação Cristã do Brasil (conhecida como “igrejinha dos italianos”, de confissão protestante).

De fato, os primeiros a se instalarem no bairro foram os portugueses e os italianos, já no fim do século XIX, atraídos pela crescente demanda de mão de obra nas indústrias e pelas políticas de subsídio à imigração. Depois vieram os judeus, antes mesmo da Primeira Guerra, embora a maioria tenha vindo no período de 1930 a 1947, tentando escapar do nazismo na Europa. Foi aproximadamente na mesma época que aportaram os gregos, fugindo da guerra civil no país (1946-49).

No final da década de 60, vieram os coreanos, que hoje ocupam 70% dos pontos comerciais da região – como se pode perceber pelos letreiros das lojas –, sendo os 20% restantes judeus e 10% italianos e gregos.

Imigração sideral

Quando moleque, meu tio fez kung-fu na rua José Paulino. Namorou uma boliviana e também uma judia, mas se casou mesmo com uma nipo-brasileira. Meu primo Daniel, hoje com 23 anos, passou a infância brincando com os filhos mineiros do vizinho, e aos cinco anos de idade já ostentava um inconfundível sotaque de Santa Rita do Sapucaí.

Até pouco tempo atrás, os moradores mais longevos da rua eram os italianos da família Del Bianco, que chegaram um mês depois dos meus tataravós, em 1926. Eu só conhecia o seu Roque de nome – era ele quem furava as bolas de capotão do meu tio e que saía escondido à noite para fazer cocô num buraco, a fim de incrementar o esterco dos patos e galinhas. Seu Roque era também o zelador da rua: varria o meio-fio de ponta a ponta, incluindo os bueiros, e aproveitava para catar todo tipo de bagulhos, que armazenava no quintal (placas, calotas, bolinhas de gude).

Sua irmã, dona Ida, passava o Natal conosco (e, por extensão, com o Papai Noel armênio) e gostava de ouvir aquela piada sobre a Corrida de São Silvestre, em que o atleta português, até então na dianteira, é ultrapassado porque parou no sinal vermelho.

Há meses, meu tio frequenta a Formativa Academia, na rua Bandeirantes, cujos proprietários (e muitos dos associados) são de origem coreana. Lá, minha tia Elizabet Sueda conheceu Norma Kosol, de 78 anos, judia polonesa que ainda mora na região e malha três vezes por semana. Quando Norma tinha 6 anos de idade, viu os nazistas queimarem sua terra natal, Kalish, e foi levada para morar com uma tia em Varsóvia. O pai voltou ao vilarejo destruído e ela não soube mais o que houve com os seus dois irmãos.

Em Varsóvia, Norma recebeu ajuda de uma associação católica para viver junto a outras quatro crianças, e pouco depois foi para a França com o apoio de uma organização judaica. Quando a guerra acabou, voltou para a Polônia. Lá se casou, teve um filho chamado Marcos e, aos 25 anos, veio para o Brasil, onde teve outro filho, José. Norma e Henrique Kosol moram há 52 anos no Bom Retiro. Ela é baixinha, magra, loira e faz musculação. É muito amiga da minha tia, que, por sua vez, é neta de japoneses nascidos em Kumamoto e Nagasaki.

Pertencente à geração seguinte, meu primo Daniel estudou com os coreanos Dong e Charly, além da boliviana Alessandra. Hoje, entre os melhores amigos da minha prima Victória, de 10 anos, aluna do Colégio de Santa Inês, estão os bolivianos Yosinory e Davi, e a coreana Stella Her.

Para além de todas as etnias citadas, minha família é testemunha de que não foram só armênios, portugueses, gregos, italianos, bolivianos, espanhóis, egípcios, sírios, israelitas, turcos e coreanos que visitaram o Bom Retiro. Habitantes de longe, muito longe, já frequentaram o bairro.

Certa noite, o Tuco, cachorro da casa, começou a latir. “Acho que foi no ano de 1978 ou 1979, porque a Luiza já estava casada e eu ainda usava óculos”, disse o meu tio, conferindo precisão histórica ao relato. A família toda saiu para averiguar, e se deparou com inúmeras luzes no céu. “Eram triangulares, sem as pontas, e em cada canto uma luz esverdeada. Vinham em alta velocidade da direção sul, mais ou menos da igreja armênia da avenida Tiradentes. Praticamente pairavam sobre nossas cabeças”, conta. Fora da família, a única testemunha foi o Pedrão, irmão do Josué, um dos espanhóis da João Kopke.

“Subimos até o prédio abandonado da transportadora, mas então ‘eles’ não voltaram. O Pedro tentou até uma telepatia para convencê-los a aparecer de novo, mas acho que foi um momento único”, disse. Minha tia Marisa chegou a telefonar para a base da Aeronáutica, no Campo de Marte, mas eles só mencionaram que detectaram os objetos, e que estavam bem altos e velozes.

Meu tio concluiu: “Em plena cidade de São Paulo, na rua Rodolfo Miranda, só nós tivemos a curiosidade de olhar para o céu. Ganhamos o privilégio de descobrir que não estamos sós no universo – e eles, de saberem que o Bom Retiro existe.”

Alergia a amendoim

Posted: 28th agosto 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Muito já se falou sobre Sue Sylvester, a vilã carismática e desequilibrada que é uma das principais atrações da série musical “Glee” (Fox, seg. às 21h; Globo, sáb. às 11h15).

Pouca gente reparou em outra boa figura da série: Brittany, a cheerleader loira de ascendência holandesa que entra para o grupo vocal da escola. É interpretada pela atriz Heather Morris, que improvisa muitas das tiradas nonsense da personagem.

Brittany tem a inteligência de um peixinho dourado. Vive distraída, entende tudo errado e faz os melhores comentários do grupo, com o rosto impassível, mesmo que sua frase não faça o menor sentido.

Na segunda temporada, descobriu-se que ela acreditava em Papai Noel. Também foi pega em atividades insólitas como tentar botar o papel higiênico de volta ao rolo e levantar a mão para perguntar quantos Ms tem na letra R.

Certa feita, ela entrou no consultório do dentista e declarou: “Esta sala parece a espaçonave onde fui testada uma vez”. Os colegas a ignoram, na esperança de que ela desista.

Não adianta – Brittany insiste em fazer confissões absolutamente despropositadas, como: “Tenho quase certeza de que o meu gato está lendo o meu diário”.

Ainda nesta temporada, ela ganha confiança após ter uma alucinação com a cantora Britney Spears, de quem sentia ciúmes por dividir “o mesmo nome”: Brittany Susan Pierce. Abreviando, Brittany S. Pierce.

O que lhe falta em inteligência e bom-senso sobra em bondade e inocência – embora, é verdade, ela já tenha saído com quase todos na escola, homens e mulheres, inclusive o zelador.

Ainda assim, quando o tetraplégico Artie reclama que ela nunca havia reparado nele, Brittany argumenta: “Até pouco tempo atrás, achei que você fosse um robô”. E está sendo sincera.

Certa vez, a loirinha passou o verão inteiro supostamente viajando, quando na verdade se perdeu na rede de esgotos. Foi o prof. Schuester que lhe ensinou a segunda metade do alfabeto: “Eu parava depois de M e N. Achava muito parecidos”.

Brittany não sabe ligar o computador, não é capaz de ler calendários, confunde-se com receitas e gosta de beber água salgada. Na próxima festa de Halloween, anunciou que irá se fantasiar de “alergia a amendoim”.

Os canadenses

Posted: 21st agosto 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
21 de agosto de 2011

por Vanessa Barbara 

Ilustração: Águeda Horn

Sempre chega um momento em que até o colunista mais democrático cede ao ímpeto de falar de temas obscuros. O assunto de hoje versará sobre séries de TV canadenses.

O subsídio do governo do Canadá para utilização de suas florestas como locação já é bastante conhecido pelo público, em séries como “Arquivo-X”, “Battlestar Galactica” e “24 Horas”, rodados em Vancouver.

Mas o país tem também produções próprias, sendo as mais célebres “La Femme Nikita” e “Slings and Arrows”, que no Brasil ganhou um remake na Globo, “Som & Fúria”.

De todas, minha favorita só teve 22 episódios, passava no Multishow e se chamava “Hope Island” – era sobre um pastor protestante assumindo uma comunidade pacata de pessoas comuns. Não foi para a frente, claro.

Das séries esquisitas, a maior delas é “Wonderfalls”, exibida pela Fox em 2004. Por motivos que jamais poderão ser racional e absolutamente esclarecidos, passei o fim de semana assistindo a primeira (e única) temporada, de 13 episódios.

“É um conluio. Não só a Via Láctea e o planeta Terra, mas toda a Criação”, diz a protagonista, Jaye Tyler, uma garota formada em filosofia que decide viver num trailer e trabalhar como atendente numa loja de recordações nas Cataratas do Niágara. “Olha só para eles: trabalham muito e são infelizes. Eu consigo ser infeliz sem ter que trabalhar tanto”, justifica.

Numa conjuntura tampouco suficientemente explicada, Jaye recebe ordens de objetos com cara de animais. As tarefas dão início a uma corrente bizarra de eventos, com resultados positivos para os outros – menos para ela.

Na série, ela conclui que somos reféns do destino. “Você pode muito bem se entregar desde já e curvar-se perante a sua sorte”, ela diz a um atônito desconhecido.

Por suas próprias ações, acaba lançando o homem que ama nos braços da ex-mulher, conformando-se e chorando “até se formarem depósitos de sal sobre as suas bochechas”.

Em seu derrotismo irônico, Jaye é uma bela personagem cercada de outros bons coadjuvantes, mas a série ainda assim é esquisita. Destaque para um momento de fúria em que ela arremessa pela janela um bonequinho pendurado no espelho do carro. “Mas eu não disse nada!”, ele protesta, espatifando-se na calçada.

 

Gatsby no cinema

Posted: 19th agosto 2011 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
23 agosto 2011, 1:00 pm

Por Vanessa Barbara

Em 29 de setembro, a Penguin Companhia irá lançar O grande Gatsby, com introdução e notas de Tony Tanner e tradução desta vossa humilde criada. Até então, o clássico de F. Scott Fitzgerald havia sido publicado no Brasil em 1980, pela Abril Cultural, em tradução de Brenno Silveira, e este ano pela Record, traduzido por Roberto Muggiati.

Durante os quatro meses que passei com Nick Carraway em Long Island, pude assistir três das seis versões cinematográficas do romance. Da primeira, lançada em 1926, restou apenas o trailer, mas sabe-se que era bastante fiel ao romance (embora fosse um filme mudo). A segunda é muitíssimo interessante, mas pelos motivos errados.

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Gatsby de 1949

Lançada em 1949 e dirigida por Elliott Nugent, esta adaptação ganhou um delirante subtítulo em português: O grande Gatsby – Até o céu tem limites. Encontrei muitas resenhas elogiando a performance de Alan Ladd no papel principal, e foi com grande expectativa que me dispus a ver o filme, após procurá-lo febrilmente pelos torrents desta vida.

Quase morri de decepção. O longa já começa equivocado: vinte anos mais tarde, o casal Nick e Jordan visita o túmulo do notório gângster Jay Gatsby (o leitor não precisa se preocupar com spoilers, já que muita coisa dessa trama passa bem longe do original). Sim, pois as cenas seguintes deixam bem clara a ocupação do nosso herói: ele é visto trocando tiros com a polícia, traficando bebidas alcoólicas, sendo perseguido pela Lei e tocando o horror num flashback moralizante e destituído de nuances.

Em sua lápide, uma passagem bíblica escolhida por Nick: “Tal caminho parece reto para alguém, mas afinal é o caminho da morte”. Fiquei imaginando que tipo de gente bota uma coisa dessas na lápide do amigo.

Uma a uma, todas as ambiguidades do romance são destroçadas a golpes de marreta: com sua estola de peles, Myrtle sai da oficina correndo e grita: “O carro amarelo! É ele! Pare!”, algo que é apenas sugerido no livro — se tanto. A cena mostra sem pudor quem estava ao volante do automóvel, o momento da colisão e o ímpeto vingativo de George Wilson.

Antes disso, no quarto do hotel, em lugar de uma situação tensa e trágica, Daisy se decide a ficar com Gatsby, exclamando: “Estou indo embora e nada no mundo vai me segurar!”. Confesso que ri em voz alta. Mais que isso, ela faz menção de se entregar à polícia e pede ajuda ao marido. “Não me deixe ser covarde, não me deixe ser fraca e egoísta. Por favor, pela primeira vez na vida, me ajude a ser leal e decente, fazendo o que é certo”. Tom responde: “Não, você está tentando me confundir”. Em seguida, tenta avisar Gatsby de que alguém está atrás dele.

Nessa versão, assim como nas demais, Nick é um santo: não só precisa ser contido em sua ânsia de fazer o bem (“vocês não podem deixar Jay levar a culpa!”), como no final se casa com Jordan. Tom é coagido por um homem armado, mas ainda assim não dedura o rival.

É como se fosse tudo um mal-entendido, um azar cósmico, e não uma consequência direta dos atos dos personagens, todos egoístas e descuidados — sem exceções, como observa Tony Tanner sobre Nick em sua introdução.

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Gatsby de 1974

A mais famosa das adaptações para o cinema é a dirigida por Jack Clayton e roteirizada por Francis Ford Coppola. Mia Farrow está no papel de Daisy, Sam Waterston é o narrador e Robert Redford é Jay Gatsby, numa eterna pose blasé com as mãos nos bolsos que até hoje me vem à mente quando penso no personagem.

Trata-se de uma versão quase literal dos acontecimentos do livro, unanimemente massacrada pela crítica por ser fiel ao texto e equivocada quanto às emoções e simbolismos do livro. O próprio Coppola renega o roteiro, dizendo que o diretor nem deve tê-lo levado em conta. Antes de Coppola, Truman Capote arriscou-se na função, mas parece que seu rascunho inicial fazia de Nick um homossexual e de Jordan uma lésbica vingativa. Foi demitido, e Coppola escreveu seu roteiro em três semanas.

O resultado é um filme idêntico ao livro na aparência. Por dentro, é “tão morto quanto um cadáver que está há muito tempo no fundo da piscina”, conforme um crítico do Times. É superficial e melodramático, focando apenas no romance entre os personagens, mas, ainda assim, foi a versão que mais me agradou — fiquei satisfeita de poder assistir à história e às cenas do livro, com diálogos literais, embora o fato de Mia Farrow resistir a um Gatsby interpretado por Redford não faça o menor sentido. (Talvez tivesse sido melhor escolher um ator menos charmoso — entre os nomes cogitados à época, Warren Beatty e Steve McQueen dariam na mesma, mas Jack Nicholson seria uma boa opção, pois que é mais feioso.)

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Gatsby de 2000

A adaptação seguinte foi feita para a TV e dirigida por Robert Markowitz, numa parceria entre o canal norte-americano A&E e a britânica Granada Produções. Mira Sorvino faz o papel de Daisy, Paul Rudd é o narrador e Toby Stephens é Jay Gatsby.

Esta versão também situa Gatsby como protagonista, numa trama invariavelmente focada no romance entre os dois amantes, prestando pouca ou nenhuma atenção ao narrador. Embora a adição das palavras finais do livro seja louvável, não gostei dos atores que fazem Gatsby e Tom — este último, que é pra ser um brutamontes, atua de forma quase gentil. Ele acerta no desdém, mas falha em agir como um grandalhão preconceituoso e agressivo, sem o menor respeito pelas mulheres. Tanto que, na cena da bofetada, ele chega a pedir desculpas à amante, como se o próprio ator não conseguisse evitar seu cavalheirismo.

Outro deslize do roteiro é associar grosseiramente o Homem dos Olhos de Coruja ao anúncio do Dr. T. J. Eckleburg, como se estivéssemos filmando um Gatsby for Dummies.

Uma das principais cenas do livro, a meu ver, é o encontro final entre Tom e o narrador, quando este finalmente cede e decide cumprimentar o brutamontes — apesar de tudo o que houve. Em nenhuma das adaptações a cena foi bem resolvida, tornando-se mais um momento de piedade do que de submissão moral do narrador perante as atrocidades dos demais.

Contudo, esta adaptação de 2000 é uma versão interessante que contém um quê da atmosfera do livro, e devo confessar que a Daisy de Mira Sorvino me agradou mais do que eu estaria disposta a admitir.

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Outros Gatsbies

Além dessas adaptações, há um filme obscuro do diretor Christopher Scott Cherot, de 2002, chamado G: Triângulo amoroso, cuja história é vagamente baseada no romance de Fitzgerald. O herói é um magnata do hip hop que deseja conquistar de volta o amor de sua vida.

Em 2007, o coreano Lee Kang-hoon dirigiu uma série de TV para o público jovem chamada The Great Catsby que, a despeito do que se pensa, não é uma adaptação direta do romance, mas de uma história em quadrinhos protagonizada por gatos — esta, sim, foi vagamente baseada no livro. Daisy ganhou o nome de Persu e troca Catsby por Houndu, um executivo bem-sucedido. Um trecho dessa insólita série pode ser visto aqui: http://www.youtube.com/watch?v=UmRgUn7PTCE.

Por fim, chegamos a 2011, quando o diretor Baz Luhrmann decidiu filmar, na Austrália, uma adaptação em 3D do clássico romance. Leonardo DiCaprio está no papel principal, Tobey McGuire é o narrador e Carey Mulligan é Daisy.

Os críticos já prenunciam mais um desastre, argumentando que é impossível adaptar o livro para as telas do jeito que Hollywood gostaria, já que o protagonista não é Gatsby, mas Nick Carraway, e o livro trata de seus dilemas morais.

A despeito de toda essa polêmica, há uma adaptação que ninguém menciona e que se ergue soberana entre as demais: O grande Gatsby para NES, um jogo de 8-bits com cara de antigo, criado por Charlie Hoey e Pete Smith. Este, sim, captura as nuances simbólicas do livro e se arrisca a modificações necessárias, como a jornada de Nick pela rede de esgoto novaiorquina e a aparição de espectros holandeses na praia, que são derrotados quando o herói arremessa seu chapéu. Os olhos do Dr. T. J. Eckleburg são um dos chefes de fase, bem como a luz verde que pisca no cais. Também é a única versão que acerta no protagonista: Nick Carraway.

Para jogar: http://greatgatsbygame.com.

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Vanessa Barbara tem 28 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Críticos de berçário

Posted: 14th agosto 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Empunhando o valoroso estandarte do jornalismo de utilidade pública, abrimos aqui um espaço para a crítica qualificada de programas do Discovery Kids, conforme avaliação e receptividade do meu sobrinho de 1 ano e familiares correlatos – a saber, meu irmão.

1. Mecanimais (20h30): Apesar de moderadamente bem conduzida, a obra não consegue criar um envolvimento do espectador com as criaturas. Há que se destacar a boa intenção de fazer o não dito expressar mais que qualquer diálogo, mas, ainda assim, “Mecanimais” toca apenas na superfície dos temas que levanta. Avaliação: bom

2. Peixonauta (11h30, 19h30): Construído no improviso de sua narrativa, o “Peixonauta” fala de seres involuntariamente deslocados de seu habitat. Ao optar por uma estética menos clássica e mais frenética, provoca discussões entre o tradicional e o vanguardista. Preocupado em recriar a “nouvelle époque” na animação, o “Peixonauta” consegue acertar na maioria de seus intentos, embora os segmentos com a bola mágica flutuante sejam forçados. Avaliação: ótimo

3. Backyardigans (10h, 21h30): Tolo e frágil, “Backyardigans” é uma ilusão comercial que fracassa na intenção da realidade alternativa. O duelo verbal entre os personagens não convence o mais ignóbil, e a trama perde ridiculamente o impacto graças à incapacidade do espectador em materializar o páthos da obra. Em suma, “Backyardigans” é um desperdício irritante e inócuo. Avaliação: ruim

4. Rob, o Robô (13h30): Intrigante e enigmático, “Rob, o Robô” é arrebatador. Os efeitos visuais prendem a atenção do infante, que se envolve emocionalmente com as descobertas do sujeito ativo enquanto desbravador de mundos. Um marco na arte e um título obrigatório aos amantes da vida. Avaliação: excelente

5. Meu Amigãozão (12h30, 22h30): As técnicas de colorização estendida, frames duplicados e narração em off fazem de “Meu Amigãozão” uma obra estranha. Tal inovação exige maior empenho de sua contraparte (o público), que precisa digerir o trabalho burocrático de personagens como o canguru Bongo. Ainda assim, a conjuntura bivalente do traço expressionista e os diálogos intensos merecem uma análise mais profunda. Avaliação: ótimo

“Tomai o fardo do homem branco”, escreveu o poeta inglês Rudyard Kipling no final do século xix, conclamando os europeus à conquista imperialista dos povos bárbaros. “Encha a boca dos famintos/ e proclama, das doenças, o cessar”.

Foi o que me ocorreu ao assistir a nova temporada de “Extreme Makeover Social” (Record, sáb. 0h30), apresentado pela empresária e socialite Cristiana Arcangeli, que no último sábado marcou 7 pontos no Ibope.

A produção brasileira é derivada de “Extreme Makeover”, reality show em que os participantes passam por transformações no visual ou têm suas casas reformadas. Na versão da Record, o objetivo é contemplar creches, asilos e casas de apoio voltadas à população carente.

Na temporada passada, mais de 400 vagas foram abertas para crianças “em situação de vulnerabilidade social e econômica”. O investimento foi de R$ 10 milhões, e contou com o apoio de 47 empresas e quatro grandes patrocinadores: Nestlé, Kimberly-Clark, Suvinil e Leroy-Merlin.

Os grilhões do patrocinador são facilmente sentidos ao longo do episódio, sempre que há uma cena ensaiada, do tipo: “Nossa, mas que portal bacana. Ai, quer saber? Vou aproveitar e escolher os produtos no catálogo virtual”.

A naturalidade afetada do merchandising é o de menos. Pior é ganhar uma reforma à custa da própria dignidade, já que o programa não perde a chance de dar zoom em órfãos que choram, abusar da trilha sonora pungente e explorar ao máximo as emoções de quem está ganhando um suprimento de fraldas.

Sem contar as demonstrações caramelosas de gratidão: as crianças correm para abraçar a apresentadora, uma espécie de emissária do bem que segura a mão dos necessitados e, condescendente, chama uma voluntária de “bonitinha”. O tom é magnânimo. Só uma vez ela tropeça, trocando “refeitório” por “restaurante”.

Com as câmeras quase dentro das narinas da entrevistada, grava-se a reação de uma diretora de creche, a quem a empresária comunica que decidiu dar uma casa.

“Quem é feliz aqui?”, ela pergunta, e as crianças gritam: “êêêu!”.

O objetivo do programa é realizar sonhos – e, pelo visto, explorá-los. É esse o fardo do milionário.

Sabedoria de Miss

Posted: 31st julho 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Folha de S. Paulo – Ilustrada
31 de julho de 2011

por Vanessa Barbara

Ilustração: Águeda Horn

 

Em mais uma prova da acuidade jornalística desta coluna e de sua antecipação visionária dos assuntos que dominarão a pauta televisiva interplanetária, viu-se no sábado passado, na Band, um belo close do dr. Hollywood fazendo coraçãozinho com as mãos, em clara referência aos textos de 15/5 e 17/7.

O dr. Robert Rey foi um dos jurados do concurso Miss Brasil 2011, exibido pela emissora no dia 23. Com mais de duas horas de duração, o evento foi apresentado pela ex-miss Nayla Micherif e por Adriane Galisteu, que muito falaram sobre a “sensualidade da mulher brasileira” e cometeram falhas insólitas como anunciar um “biquíni de desfile”, em vez de “desfile de biquíni”.

Logo de início, elas pareciam estar à frente de um show beneficente estilo Teleton. “Você pode ajudar uma dessas garotas acessando o site”, disse Galisteu. Eu quase liguei para fazer uma doação à Miss São Paulo, que parecia estar em pânico, e para uma outra que listou como hobby as artes plásticas (pensei logo em Tupperware).

Mais tarde, Galisteu anunciou ao microfone que a torcida continuava enorme, como se estivesse surpresa com o fato de ninguém ainda ter ido embora. Depois passou à descrição dos estados (Acre significa “touca de penas”, o Ceará é conhecido por ser berço de talentos humorísticos, o Espírito Santo pelas moquecas de peixe e o Rio Grande do Norte pelo maior cajueiro do mundo).

De maquiagem pesada, saltos altíssimos, mão na cintura e sorriso congelado, todas as candidatas pareciam a mesma pessoa. Eram altas e morenas (só havia duas loiras) e flanavam pela passarela como se houvessem acabado de passar por uma cesárea e os pontos fossem explodir.

Quem ganhou foi a gaúcha Priscila Machado, sonoramente vaiada pela torcida, que apoiava outras candidatas e gritava “pelada”, em referência a fotos polêmicas que circularam pela internet.

Outro ponto alto da noite foi a entrega da faixa de Miss Simpatia Lux para a piauiense Renata Lustosa.

Na hora de parabenizá-la, Adriane Galisteu fez uma pausa grave, pousou as mãos no ombro da vencedora e disse, com um ar maternal: “Lembre-se de uma coisa, nunca se esqueça: com Lux, você mantém a sua pele macia e perfumada todos os dias”.

Levanta-te e grifa

Posted: 26th julho 2011 by Vanessa Barbara in Blog da Cia. das Letras, Crônicas
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Blog da Companhia das Letras
26 julho 2011, 10:30 am
 

Por Vanessa Barbara

 

Desde janeiro de 2002, sou a feliz editora de um almanaque eletrônico de periodicidade aleatória, A Hortaliça (hortifruti.org), que depende da ativa colaboração de leitores desocupados e da anuência de autores mortos — não os psicografados, entenda-se — para compor um periódico só de citações despropositadas, textos alheios tirados do contexto e textos próprios sem razão de ser.

Vivendo sobretudo à custa de citações, tenho que lidar pacientemente com os paradoxos da marcação livresca, essa grave ciência que trata do realce de trechos para posterior análise e transcrição, a fim de que não se percam para sempre num oceano de páginas intocadas pela experiência humana. Ou num canto escuro da memória onde jazem as senhas do ICQ, o sobrenome daquele japonesinho da quinta série, a área do triângulo-retângulo e o enredo do último filme do 007.

O que nos leva a uma questão absolutamente anterior a essa: marcar os livros, sublinhar parágrafos, fazer orelhas nas páginas, realçá-las com marca-texto, ceder a anotações ininteligíveis nas bordas — vandalismo ou apropriação lícita do texto escrito? Sou da segunda opinião, embora às vezes hesite em macular um volume especialmente novo e cheiroso, sendo meu fervor pró-marcação diretamente proporcional ao matiz amarelado das páginas, às onipresentes mordidas de traça, à mancha primordial de café na página 33 e ao carimbo do sebo de procedência, onde teria custado a bagatela de vinte cruzados novos.

De início, adquiri o hábito de anotar as partes mais pitorescas assim que elas surgiam. Além de impraticável em livros como Tristram Shandy ou Alice no país das maravilhas, que demandariam a transcrição completa no meu caderno espiral, esse método provou-se exaustivo e desanimador: a cada trecho promissor, lá ia a pobre alma que vos escreve apanhar o lápis e o papel, levantando-se pesadamente da cama só para registrar o texto. Interrompia-se a leitura e torcia-se para que o resto do livro fosse uma droga, só para não ter que se esforçar mais vezes. Em nenhum momento cogitou-se usar um bom e velho marcador de livros, que se destina tão exclusivamente a demarcar o andamento da leitura, ou sua utilização seria conspurcada para todo o sempre.

Mais à frente, resolvi anotar apenas o número das páginas que continham o trecho desejado, a ser copiado mais tarde. O sistema durou um bom tempo, até que passei a confundir irremediavelmente as notas, registradas em pedaços de papel na minha cabeceira — a página 116 anotada seria de Alex no país dos números, Sobre a morte e o morrer ou A conspiração franciscana, que estive lendo ao mesmo tempo? E mais: às vezes a tal página continha duas citações interessantes, de modo que uma delas passaria lamentavelmente despercebida, a menos que eu lesse de novo a folha inteira. Embora algumas passagens fossem de identificação gritante — a tal página 116 pertencia a Ensaios de amor, de Alain de Botton, e falava de um homem que pensava ser um ovo frito —, muitas eram tão obscuras ou circunstanciais que era preciso ler a página inteira várias vezes só para concluir que o número havia sido anotado em um momento de grande confusão mental e não correspondia a nada de lógico neste mundo.

Da notação numérica passei, portanto, ao método de grifar a lápis no próprio livro, apontando a localização e extensão do trecho por meio de pequenos colchetes. Às vezes também circulava o número da página só para facilitar a varredura posterior, folha a folha, quando então as marcas seriam apagadas. Esse método não prevê a costumeira ausência de material esferográfico nas redondezas e a preguiça de folhear mais tarde o livro à cata dos trechos.

Seguiu-se a adoção de um método mais limpinho e socialmente invejável — os “post-it flags”, que são aquelas tirinhas estreitas e coloridas que você pode colar e descolar facilmente das páginas, e até preencher com anotações classificatórias. De minha parte, hesito em aderir de corpo e alma ao procedimento pelos mesmos motivos da marcação a lápis, ou seja, ignora-se o dispêndio de energia necessário para apanhar o material e a possível falta deste à mão. Também acho as etiquetas demasiadamente jeitosas e acabo racionando a quantidade de trechos só para não gastá-las demais.

Outra alternativa infeliz foi fazer um vinco com a unha ao lado do trecho desejado, na esperança de que os olhos pudessem depois identificar as marcas, o que só ocorreria em casos de visão biônica. Sem falar no inconveniente de haver edições naturalmente vincadas, o que pode levar um editor à loucura em poucos dias.

A alternativa que por enquanto me parece a mais simples, mais honesta e menos trabalhosa é dobrar a ponta das páginas e entregar a vida ao Altíssimo. A marcação leva menos de cinco segundos (com o necessário calcamento e recalcamento digital, a fim de que a dobra não se desfaça) e pode ser facilmente rastreada olhando-se a borda do livro fechado. O ruim é que aqui em casa acabei ocupando uma gaveta inteira só de livros “a legumar”, o que dá aquela sensação ruim de trabalho infinito e acaba desestimulando a copista. Além disso, pode-se entrar em crise quando há necessidade de marcar um trecho na frente da folha e outro no verso.

A questão da marcação necessária ainda carece de resolução, e nem me venham falar em Kindle, que é leve e prático demais para causar transtorno. Esta coluna se baseia no corolário básico de que livro que é livro tem mesmo é de causar transtorno.

* * * * *

Há alguns anos, comprei num sebo virtual Traçando Paris, de Luis Fernando Verissimo e Joaquim da Fonseca. A foto que ilustra este post dá uma ideia do tamanho da loucura com que me deparei. Em quase todas as linhas de absolutamente todas as páginas, uma certa Maria Solange Corrêa de Barros Oliveira, residente à rua Mostardeiro, n° 1035, Porto Alegre, se pôs a sublinhar, rasurar, realçar, rabiscar e escrever sandices como: “Eu estou com 56 anos et tenho dito. Assim seja. Amém”. Havia ilustrações esparsas de um certo Solar das Amigas, que não tem nenhuma relação com o livro, e alguns devaneios com a língua francesa, como quando ela anota, no sumário, que “quem pegar este cahier(caderno) vai receber um pito”. Escreve que “demi” é “chopinho” e garante que “genre” é “genro” em francês. Afirma, em letra de mão rebuscada: “Cannes fica no Canadá”.

Ela não sublinha apenas os trechos, mas também os créditos autorais, a ficha bibliográfica, a legenda das fotos, a minibiografia da orelha e algumas ruas do mapa de Paris. Há menções religiosas por toda parte e a palavra “diabo” é tachada em vermelho com tanta fúria que sai do outro lado.

O melhor comentário ao livro está bastante apagado e foi feito em lápis cor de laranja: “Marie Solange Olivier Corrêa: vá para a direita e volte para a esquerda. Assim seja. Amém”.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 28 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Quem matou Rosie Larsen?

Posted: 24th julho 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Nos últimos anos, a emissora norte-americana AMC tem rivalizado com a HBO na produção de séries de qualidade. Em sua reduzida carteira de títulos estão dois dos melhores dramas da nova safra: “Mad Men” e “Breaking Bad”.

O slogan do canal é: “Aqui a história importa”.

Dito isso, confesso que não entendi muito bem qual é a da série “The Killing”, inédita no Brasil e lançada nos EUA em abril, onde conquistou grande audiência e gerou um nível similar de expectativa.

Baseada num original dinamarquês, “The Killing” começa com o assassinato de Rosie Larsen, num início soturno e gélido que exala “Twin Peaks” por todos os poros (até a fotografia é parecida). Cabe à detetive Sarah Linden desvendar o crime, e para isso tem à disposição todos os treze episódios da temporada.

“The Killing” foi indicada a seis Emmy, entre os quais o de elenco, direção e roteiro do piloto de duas horas. Foram feitas comparações ambiciosas com os romances policiais de Stieg Larsson (da trilogia “Millenium”) e Henning Mankell (de “Wallander”), de modo que, a essa altura, a torcida já estava quase ganha. Era só chutar e correr para o abraço.

Apesar de tudo, pelo menos pra mim, foi bola fora. A série é arrastada e sem sal. O roteiro é displicente. Episódio após episódio, a impressão é a de que nada aconteceu.
Há algo, porém, que gera estranhamento: a semelhança randômica com outras séries.

Além do paralelo óbvio com “Twin Peaks”, há uma similaridade perturbadora entre a detetive Linden e Linda Wallander, sobretudo no quesito amargura e ausência absoluta de “joie de vivre”.

Além disso, o vereador Richmond é parecidíssimo com o prefeito Tommy Carcetti, de “The Wire”. E a mãe da vítima é interpretada pela mesma atriz que faz a esposa de Paul Weston no seriado “Em Terapia”. O piloto também tem toques fúnebres de “A Sete Palmos”, mas não chega ao mindinho dos pés de nenhuma dessas séries.

Mas quem, afinal, matou Rosie Larsen? Exibido em fins de junho, o último episódio da temporada prometia a resposta. Público e crítica reagiram com indignação. Ao que tudo indica, quem matou Rosie Larsen foi a roteirista Veena Sud (de “Cold Case”), que definitivamente errou a mão.

A gênese do coraçãozinho

Posted: 17th julho 2011 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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A primeira vez que vi alguém fazendo um coração com as mãos foi na plateia do programa “Manos e Minas”, da TV Cultura. Fiquei imediatamente tomada de curiosidade antropológica.

Em meu afã investigativo, mal consegui me defender da avalanche de mãos em coraçãozinho que assolam a tevê, sobretudo em reality shows e programas vespertinos de fofoca. Há sites com extensas compilações só de celebridades fazendo o tal gesto e confusas especulações sobre quem teria lançado a moda.

No Brasil, diz-se que o precursor foi Alexandre Pato. Ao marcar seu primeiro gol no Milan, há três anos, o atacante comemorou fazendo um coração às câmeras, dedicando-o a Sthefany Brito, sua namorada na época.

Daí em diante, aderiram à moda jogadores como Vágner Love (Flamengo), Ronaldo (Corinthians), Dagoberto (São Paulo) e Rildo (Vitória). Em vez de irem celebrar com os companheiros de time, o técnico ou a torcida, eles procuram as câmeras e sacam um empolgado S2 ao éter. (S2 é o “emoticon” que representa o coração, assim como <3.)

No exterior, o “hand heart” é atribuído a artistas adolescentes como Taylor Swift e Justin Bieber, além de Lady Gaga e Selena Gomez, que costumam acenar aos fãs dessa forma.

O símbolo pode também ser remetido ao Claddagh, tradicional anel irlandês de compromisso que traz uma figura dourada de coração envolvido por duas mãos e uma coroa. Ou, ainda, a uma gangue de traficantes de cocaína em Chicago, chamada Gangster Disciples, que adotava o símbolo do “coração com asas”, com os dedos erguidos, sabe-se lá por quê.

Certo é que o gesto tem relação íntima com a exibicionice popular, visto que é prontamente acionado quando há uma câmera por perto. Trata-se de uma versão mais espontânea do “Filma eu, Galvão” ou dos antiquados tchauzinhos.

Embora não se possa identificar com precisão histórica o criador dessa moda, sei exatamente quem a consagrou, elevando-a ao status de arte: o cantor sertanejo Luan Santana.

Em perfil publicado pela revista “piauí” de janeiro, ele sobe ao palco e diz ter um presente para as fãs. “Finge então procurar alguma coisa nos bolsos, não encontra e finalmente ergue as mãos em forma de coração”. O público entra em êxtase.

É um mestre.