Ratinho tem um problema

Posted: 7th novembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Às voltas com a queda dos índices de audiência e os boatos de cancelamento em 2011, o “Programa do Ratinho” (SBT, seg.-sex. às 18h) tem feito de tudo para se recuperar. A atração de auditório, comandada por Carlos Massa, é focada na exploração e resolução de disputas domésticas, em que maridos ofendem ex-mulheres, esposas agridem amantes e há escândalos em profusão.

Ratinho já tentou de tudo: mudou o cenário, a direção, o formato e até tentou convocar Palmirinha Onofre para seus quadros. Nada parece surtir efeito.

Desta feita, aqui vai uma sugestão infalível para revitalizar a atração.

O fato é que, a todo momento, o apresentador promete resolver os problemas do público, sejam eles quais forem. Em geral, são mães tentando comprovar a paternidade dos filhos, que não raro também se envolvem na cizânia, e não raro partem para a agressão física. No estúdio, há seguranças a postos para apartar os mais belicosos.

A sugestão, portanto, seria diversificar a natureza desses problemas, incluindo questões metafísicas e dúvidas de cunho ético. Um exemplo: o sujeito chega ao Programa do Ratinho com um problema. Solícita, a produção se dispõe a ouvi-lo, mas não garante a solução imediata do imbróglio.

Ele dispara: “Se um trem sai da cidade A em direção a B com uma velocidade média estimada de 50 km/h, em movimento retilíneo, e um trem sai da cidade B em direção a A a 30 km/h, sendo que estas cidades se encontram a uma distância de 100 km, quando os trens irão colidir?”.

Dá para imaginar Ratinho consultando o ponto, a moça da produção sacando a calculadora e os peritos pedindo mais detalhes (“Condições normais de temperatura e pressão, você disse?”).

Seria proveitoso convidar populares angustiados e filósofos niilistas que tenham coragem de subir ao palco e perguntar coisas como: “Pode Deus criar uma pedra que não consiga levantar?”, ou: “Em um gás ideal, a entropia é uma variável extensiva?”.

Sempre haverá aquele que, tomando com fúria o microfone, exporá um problema fatal: “Um burro bom e barato é raro. Tudo que é raro é caro. Um burro bom e barato é caro. Um burro bom…”

E assim por diante, até que os seguranças venham contê-lo com um livro de palavras cruzadas.

TV Chimpanzé

Posted: 31st outubro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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No último dia 18, às 23h, o canal Animal Planet exibiu com exclusividade o primeiro filme rodado por chimpanzés (“TV Chimpanzé”).

A estreia dos bonobos na indústria cinematográfica foi patrocinada pela BBC e viabilizada pela cientista comportamental Betsy Herrelko, que, na tentativa de descobrir o que se passa na mente dos chimpanzés, decidiu fornecer-lhes o material e o embasamento tecnológico para produzirem seus próprios vídeos caseiros.

Betsy escolheu 11 chimpanzés residentes no zoológico de Edimburgo, no Reino Unido. Passou 18 meses ensinando-os a mexer em telas touchscreen e a assistir televisão sem esperar recompensa –– tarefa difícil, pois os macacos não só possuem maior inteligência do que nós, que aceitamos qualquer porcaria, como preferem interagir com a tela e dar socos raivosos em franca manifestação de desagrado à programação.

Ainda assim, os primatas abraçaram a carreira de cineastas. Sem terem recebido noções prévias de foco, enquadramento, contra-plongée, iluminação e roteiro, os membros da equipe ganharam uma caixa vermelha resistente (à prova de chimpanzés) com uma câmera digital dentro. No topo da caixa havia uma tela para que eles pudessem acompanhar o que estava sendo filmado.

O resultado foi um curta experimental claramente influenciado pelo Dogma 95, em que predominam os closes de narinas, a exibição de gengivas, os gritos simiescos e alguns travellings arriscados. Nenhum ser humano foi maltratado durante as filmagens.

Assistir à promissora TV Chimpanzé foi como acompanhar o trabalho da genial tartaruga cineasta do Caribe, que estreou na direção quando um mergulhador perdeu sua câmera subaquática em Aruba, em novembro de 2009. Dois meses depois, a tartaruga marinha encontrou o objeto em Honduras, tentou comê-lo e acidentalmente apertou o botão de gravar.

Ela nadou enroscada ao aparelho e produziu um belíssimo curta oceânico, em que suas próprias nadadeiras são vistas de relance, junto a cardumes de peixes, raios de sol e uma cor de água absurdamente azul. (YouTube: “Sea turtle finds lost camera”.) Nos minutos finais, ela enjoa da atividade, larga a câmera e sai boiando em sua majestosa queloneidade, decerto rumo a Hollywood.

Autores e ideias – Mona Dorf

Posted: 29th outubro 2010 by Vanessa Barbara in Clipping

Entrevista publicada em Autores e Ideias, Mona Dorf, ed. Benvirá, 2010.

Jornalista, tradutora, editora do periódico virtual A Hortaliça e colaboradora da revista piauí. Publicou: O livro amarelo do terminal (CosacNaify), prêmio Jabuti 2009 na categoria reportagem e O verão do Chibo (Alfaguara), com Emilio Fraia, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2008, na categoria escritor estreante.

Como surgiu na sua vida a escrita como expressão? Por que você começou a escrever?

Porque não gosto muito de falar e ganhei uma máquina de escrever. Quando eu era pequena, só podia usar tinta vermelha ou nenhuma tinta (só o sulco da tecla no papel), porque a fita era cara. Mesmo assim, escrevi inúmeros romances mirabolantes sobre times de vôlei e tartarugas detetivescas, alguns ousadamente transparentes.

Comente um pouco seu livro O livro amarelo do terminal. De onde veio a idéia e do que ele trata? 

É uma coletânea de crônicas e reportagens sobre a Rodoviária Tietê, escritas originalmente como trabalho de conclusão de curso de jornalismo, em 2003. Na época, eu queria escrever sobre as ruas de São Paulo, mas precisava de um foco. Então pensei na rodoviária, que não passa de uma grande rua onde as pessoas estão sempre partindo, chegando, trabalhando e tirando um cochilo em cima de suas bengalas, à espera do ônibus. O terminal tem as mesmas contradições da metrópole: a modernização, o movimento repetitivo dei vai-e-vem, a inconstância, a idéia de massas; e, por outro lado, a sensação de não-pertencimento, a vontade de retornar ao lugar de partida, o anacronismo – aquilo que nunca muda.

Você transita bem em ficção e também em não-ficção. Qual a diferença entre as duas escritas? A realidade é tão interessante quanto a ficção?

Em reportagem, aprendemos a escrever de uma forma limpa e direta, e entendemos como encadear as coisas num texto minimamente legível. Em ficção, está tudo liberado – mas é preciso ter um olhar específico, um foco em determinadas coisas que se aprende com o jornalismo. As duas são complementares.

 

ENTREVISTA

Você é repórter da piauí, e trabalha também como revisora para boas editoras. Como essas atividades contribuíram para O livro amarelo do terminal?

Além de revisora, eu sou tradutora da Companhia das Letras e da CosacNaify. Considero os trabalhos de revisão e tradução essenciais pra quem quer escrever porque, a partir deles, você aprende as técnicas dos escritores, o ritmo, as saídas de cada um, as construções. As matérias para a piauí também me ajudam muito. Principalmente porque eu me deparo com uma situação real e tenho que encontrar a melhor forma de descrevê-la.

Usar a técnica literária para narrar fatos reais foi comum no século XIX. Autores como Balzac, Flaubert, depois Zola, só pra ficar nos franceses, trabalhavam assim. Seu estilo é bem detalhista, realista como o deles. São escritores que freqüentam suas estantes? Que outros autores tiveram influência sobre você?

Gustave Flaubert é meu escritor preferido: Bouvard e Pecuchet  e Madame Bovary são os melhores. Além dele, gosto muito de Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, J. D. Salinger. Também gosto de livros mais diferentes como Alice, de Lewis Carroll, Tristram Shandy, de Lawrence Sterne, e Armadilha para Lamartine, de Carlos & Carlos Sussekind.

Quais livros você traduziu?

Traduzi Cabeça tubarão, de um autor contemporâneo chamado Steven Hall, que é incrivelmente bom, Breakdowns, uma graphic novel do Art Spiegelman, nem preciso comentar, e também Três vidas, da Gerturde Stein, que são três contos sobre três mulheres diferentes. Você acaba aprendendo na tradução porque vai construindo o texto com o autor, se depara com as saídas que ele teve, aprende a construir a narrativa. O último romance que traduzi é sobre um personagem esquizofrênico, de um autor jovem chamado John Wray. Ainda não foi publicado.

Que dica você daria para outros jovens jornalistas acostumados com a reportagem do dia a dia, mas desejosos de melhorar a escrita?

O principal mesmo é ler bastante, de livros clássicos até folhetos de astrólogas que trazem a pessoa amada em dez dias. E ir escrevendo sem pressão o que der na telha, com liberdade.

Fora isso, oficinas literárias sempre ajudam, não é?

São interessantes, mas para mim, outras coisas são melhores. Cursos de literatura, de sapateado, astronomia e filmes às vezes ajudam mais.

Como foi escrever a quatro mãos O verão de Chibo, com Emílio Fraia?

Foi uma espécie de jogo que durou dois anos. A gente trocava trechos do livro por email e ia construindo a trama, os personagens, tudo a quatro mãos. No final, tentamos apagar os limites do que era de um e de outro, para resultar um texto e uma história coesos. Foi uma experiência bem interessante que acabou dando certo, depois de muitos percalços.

Como representante de uma nova geração de escritores, você teve uma bela estreia. O que você imagina daqui pra frente, para impulsionar sua carreira?

Meu próximo livro é sobre um menino que perdeu a nuca e se chama O livro negro da cócora. Não! É brincadeira! Ainda não sei o que vou fazer daqui pra frente, mas quero continuar escrevendo tanto crônica como literatura, até ficar bem velhinha.

 

JOGO RÁPIDO

O que você está lendo?

A demanda do Santo Graal, uma edição portuguesa do Heitor Megale. É engraçadíssimo. Recomendo.

O que pretende ler?

A consciência de Zeno, de Ítalo Svevo, que todo mundo me diz pra ler. Pessoas diferentes me dizem que eu vou adorar, que é uma história maravilhosa.

O que você recomenda dos autores estrangeiros que estiveram na Flip?

Rosencrantz e Guildenstein, do Tom Stoppard, e Sandman, do Neil Gaiman. A boa história em quadrinhos não perde em nada pro melhor romance.

Obra ou autor que mudou sua forma de enxergar o mundo

J. D. Salinger. Comecei a ler todos os livros dele em seqüência. Ele tem uma visão peculiar dos personagens, uma forma diferente de apresentá-los e de narrar. Mudou a minha escrita e a minha forma de enxergar o mundo.

Romance do Coração

O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar. Mas eu prefiro Histórias de cronópios e famas.

Literatura indispensável

Toda aquela que você está lendo no ônibus e depois que desce no ponto, não consegue parar e continua a ler andando.

Escritores da nova safra

Antonio Prata, Chico Mattoso, Emilio Fraia e Fabrício Corsaletti.

Da velha guarda

Franz Kafka, Edgar Alan Poe e Miguel de Cervantes.

Gênero predileto

Crônica e romance.

Cronista essencial

Rubem Braga.

Uma descoberta recente

Tia Júlia e o escrevinhador, de Vargas Llosa.

Cesta básica

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes; Madame Bovary,de Gustave Flauber; Tom Sawyer, de Mark Twain; O coração das trevas, de Joseph Conrad.

Uma frase

Acho muito engraçado uma passagem do romance do Tolstói, quando a Anna Karenina recebe o marido dela na estação de trem e pensa: “Meu Deus! Por que lhe terão crescido tanto as orelhas?”. É a única coisa que ela consegue pensar quando se encontra com ele.

Cinco horas com Raul Gil

Posted: 24th outubro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Conta-se que o iogue Swami Maujgiri Maharaj passou 17 anos em pé, entre 1955 e 1973, escorando-se numa tábua apenas para dormir. Mais ou menos nessa época, o faquir Mastram Bapu plantou-se num lugar, sentado, à beira de uma estrada no vilarejo de Chitra (Índia), por mais de duas décadas.

Em busca de iluminação existencial e de uma compreensão superior do mundo, propus-me a assistir, na íntegra, o Programa Raul Gil deste sábado (SBT, sáb., 14h15 às 19h15).

O programa, com a duração de cinco horas, foi inteiramente dedicado às crianças. Tanto os calouros quanto os jurados eram café-com-leite: segundo apuração interna, a média de idade era de 8,3 anos.

Bloco após bloco, hora após hora, o espectador acompanhou a performance de crianças excessivamente artísticas, daquelas que dizem “eu sou criança”, que sorriem para as câmeras e estão sempre na moda. Entre elas, a assistente de palco Yasmin, que faz sucesso ao repetir errado as falas de Raul Gil – levando o apresentador a usar palavras difíceis de propósito.

A única exceção era Guilherme, um moleque tranquilo que tocava cavaquinho e teve que responder para Yasmin que não, não era casado. Ele não dançou, não fez micagens e não tentou ser espirituoso, limitando-se a tocar seu instrumento. Deu de ombros quando uma das juradas elogiou seu figurino. “A apresentação dele foi ex-ce-len-te”, ressaltou a loirinha de 7 anos, qualificando-o de impecável.

Sua presença, porém, foi logo substituída pela de um papagaio gigante, um cachorro azul, centenas de balões e um minicover do Elvis. Uma cantora gospel entrou para gritar os versos: “Como Zaqueu, quero subir o mais alto que eu puder”. A certa altura, dezenas de artistas felizes ocupavam o palco, pulando, cantando e sacudindo os braços, como se não houvesse tristeza no mundo.

De sua parte, Raul Gil parecia cansado e impaciente, repetindo as mesmas palavras para os calouros-mirins: “potencial”, “sucesso” e “talento” foram as mais usadas, e a expressão “todos são vencedores” apareceu umas boas dez vezes.

“Depois de passarem oito meses conosco [na competição], o máximo que a gente pode fazer por vocês é prestar essa homenagem”, ele diz, num ato falho. O calouro agradece.

No meu tempo

Posted: 17th outubro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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No meu tempo, a televisão era diferente. Para começar, havia a supremacia do dublado – todos os filmes, séries e programas estrangeiros recebiam uma buliçosa versão em sotaque carioca, provavelmente feita pelo mesmo sujeito, que ganhava uma miséria e imitava as vozes de todo o elenco: dos velhos, das moças, das crianças e dos galos.

No meu tempo, havia televisões em preto e branco de cinco polegadas com rádio AM/FM, que só sintonizavam à base de petelecos e mandinga brava. Havia a frequência UHF e um cheiro permanente de queimado saindo de trás do televisor.

Nos idos d’antanho, as antenas eram Plasmatic, tinham a forma triangular e um bombril na ponta. A gente costumava revezar o membro da família encarregado de ficar de pé, ao lado do aparelho, segurando a antena num ângulo específico – o braço esquerdo levemente arqueado, os joelhos dobrados, o pescoço pra trás. Era como nós praticávamos a ioga, naquela época.

As partidas de futebol eram mais proveitosas: todos os jogadores tinham a coloração esverdeada, e cada atleta recebia a marcação cerrada de um habilidoso irmão gêmeo. Nunca dava pra ver a bola e, aparentemente, os 22 elementos em campo usavam a mesma cor de uniforme, rolando a pelota fraternalmente para o mesmo time. Era bonito o futebol no meu tempo.

À tarde, a gente assistia o game-show “SuperMarket” (Band), uma despropositada gincana dentro de um supermercado. Acertávamos a resposta das charadas que o Ricardo Corte Real fazia sobre produtos lácteos, extrato de tomate e desinfetante. Sabíamos de cor em que corredor ficava o pepino em conserva e a maionese gigante. Era durante o “SuperMarket” que a luz de casa começava a falhar, anunciando a hora de ir tomar banho (antes que os vizinhos sugassem toda a energia local).

A televisão de outrora valorizava a rapidez de raciocínio (imagens oscilantes), a incerteza filosófica (o que foi que ele disse?) e a imaginação do espectador, pois nunca dava pra distinguir com clareza o que estava acontecendo (“Olha, mãe, eu acho que tem um Ovni ali atrás do Cid Moreira”).

Com o advento da transmissão em alta resolução, tela de cristal líquido Full HD e som estéreo 5.1, ficou mais chato assistir televisão.

O primo da irmã da avó do Parada

Posted: 10th outubro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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“O meu pai gostava de contar causos. Ele me contô uma vez um causo do surdo, um surdo daqueles não totalmente surdo, daqueles meio surdo”, relata o ator, compositor e cantor Rolando Boldrin. “O tal do caboclo tava na roça tirando mandioca. E meu pai puxou assunto, né.”

Há cinco anos, Boldrin comanda o “Sr. Brasil” (Cultura, qui. às 22h), onde costuma fazer a mesma coisa que o pai fazia: sentar e tirar uns dedos de prosa.

É o programa preferido do meu avô, e uma das maiores audiências da TV no segmento da terceira idade. Trata-se de uma atração de palco – com plateia – focada em ritmos brasileiros como a música caipira, mas que também dá espaço a outras manifestações regionais (prosa, verso, dança e teatro).

Sempre bonachão, Boldrin emenda os números musicais com “causos” variados, como esse, do caboclo meio surdo. A história segue: o homem pergunta como vai a família, mas o matuto não escuta direito e diz que está colhendo mandioca. “E a mulher, como vai?”, indaga o outro. “Tá meio aguada, mas tô comendo mesmo assim…”, responde o caboclo. A plateia vai ao delírio.

Boldrin fala sem parar de um certo Dito Preto, ou Benedicto da Silva, que conheceu em sua cidade natal, São Joaquim da Barra (SP) – terra de outra grande figura das artes, o fotógrafo Renato Parada. “Ele é primo do marido da irmã da minha avó. É um cara totalmente especial, o centro das atenções onde quer que esteja. E o mais incrível de tudo: sem ser chato, sem forçar a barra”, conta. “No último jantar na casa do tio Mauro”, especifica, “ele cantou, declamou poesia, contou piada e passou trote por telefone na filha.”

No programa, Boldrin mistura histórias de Nhô Totico, Noel Rosa, Dominguinhos, João Macacão, Osvaldinho da Cuíca e da cearense dona Jandira, que tem a voz de uma diva negra do jazz. Canta chacoalhando uma caixa de fósforos. Recita poemas sobre gravatas coloridas. Em vez de dizer que alguém morreu, diz que “viajou fora do combinado”.

Entre uma cuíca e outra, uma viola e uma sanfona, não podemos deixar de notar que Boldrin é a cara do protagonista da série britânica “Inspetor Morse”. Só que mais simpático.

E haja comercial de cimentcola, farmácia, antena parabólica e remédio para osteoporose.

O que aprendi com Bob Esponja

Posted: 3rd outubro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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No próximo dia 10/10/10, sábado, às 10h10, uma horda de bailarinos, coreógrafos e patinadores estará no Parque das Bicicletas, em Moema, para homenagear o super-herói Ben 10. O evento da Cartoon Network marcará a estreia da terceira temporada do desenho – em que um garoto ganha um relógio de pulso que se funde ao seu DNA e o permite transformar-se em dez mil espécies diferentes de alienígenas.

Sem nada deverem aos clássicos, os desenhos infantis da nova safra nos trazem inúmeras lições. O mais popular deles, “Bob Esponja Calça Quadrada” (Globo e Nickelodeon), já passou da sétima temporada e alcançou 7,7 milhões de espectadores num só episódio. O morador mais famoso da Fenda do Bikíni, amigo de Lula Molusco e residente num abacaxi laranja de dois quartos, ensina que não se deve tomar sundae de amendoim com cebola para não ficar com bafo.

Entre outras coisas.

Num viés mais educativo, a TV Cultura também faz sua contribuição para o público que ainda mastiga a própria mão: um dos programas mais premiados é “O Mundo Redondo de Olie”, sobre um robô-criança amarelo e roliço. Outros são “Cocoricó”, “Doug”, “Zoboomafoo” (um lêmure falante), “Shaun, o Carneiro” (animação muda) e “Pingu” (falada em pinguinês).

Porém, os maiores sucessos na faixa pré-penico são os musicais “Hi-5” e “Backyardigans”, veiculados pelo Discovery Kids, que ensinam cores, números e a fisiologia dos ominhocos.

Há desenhos infantis para todos os gostos: alguns, como “Clifford, o Gigante Cão Vermelho”, ensinam as crianças a serem amigas e responsáveis, mas nada dispõem sobre caninos mutantes de cor rubra. Outros, como “A Vaca e o Frango”, ensinam a andar de bunda no chão e comprar avós adicionais no mercado de parentes usados.

“Pocoyo” foi concebido para fins puramente pedagógicos, enquanto “Animaniacs”, nem tanto. (Wakko Warner costuma promover um finíssimo recital de música clássica nas axilas.) Se “Peixonauta” é ecologicamente correto, o velho “Tom e Jerry” preconiza a vingança e o hipertabagismo.

Enfim, alguma coisa sempre dá pra aprender com os desenhos. Nem que seja obedecer sem reservas à coreografia de um dinossauro púrpura de 2 metros de altura que tem culotes e dança.

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Piauí n. 49
Outubro de 2010

por Vanessa Barbara

Superlativa concentração de quelônios no Paraná

O caminho de Curitiba a Morretes, no Paraná, pela antiga estrada da Graciosa, é mal sinalizado e tortuoso, como se quisesse espantar os visitantes indesejados. As indicações para a estrada de chão que leva à Fazenda Reserva Romanetto dão uma ideia da complexidade da expedição: na estrada da Ponte Alta s/nº, deve-se entrar numa saída para a chácara de orquídeas Yu Fang, próxima à empresa de celulose CTM, no quilômetro 2 da Graciosa (Reta do Porto). Depois, é preciso perguntar aos moradores “das casinhas da esquerda”, que costumam empunhar vistosos facões, onde fica a reserva. Aí é só virar à direita numa bifurcação antes da ponte e seguir as instruções de uma placa – dobrada em dois, enferrujada e ilegível.

Enfim se chega à Reserva Romanetto, um dos maiores criadouros comerciais de quelônios do Brasil, onde vivem cerca de 2 mil tartarugas dos mais diversos tamanhos (segundo a última contagem, são 1 250 tigres d’água e 700 jabutis). Todas são legalizadas pelo Ibama, microchipadas e alimentadas diariamente por um solitário tratador, Anderson Gonçalves Siqueira, de 26 anos. A reserva, de 50 hectares, está encravada em plena Mata Atlântica e é propriedade do comerciante paulista Ricardo Romanetto, de 47 anos, que há mais de uma década investe na criação de portentosos cágados.

A tigre d’água brasileira (Trachemys dorbignyi) é uma graciosa tartaruga de água doce muito procurada como animal doméstico. O nome deriva de suas listras amarelas, embora alguns atribuam o epíteto à ferocidade do animal, que, ao morder, “só solta quando quiser”. A brutalidade lendária é confirmada por Anderson, que aproveita para fazer chacota dos biólogos que visitam ocasionalmente a reserva e são sempre mordidos no cotovelo por uma ávida cascudinha. O que poucos sabem é que as minúsculas e delicadas tartaruguinhas vendidas nos pet shops podem alcançar um diâmetro de até 35 centímetros e 3 quilos de pura fúria, podendo sobreviver aos seus donos.

Passando entre dois grandes lagos, onde o proprietário tenta estabelecer uma criação comercial de pirarucus, chega-se ao tanque das temidas tigres d’água, que se aglomeram nas beiradas para tomar sol e botar os assuntos em dia. É uma infinidade de cascos verde-amarelos das mais diversas compleições, amontoados ou enfileirados, com pescoços e patas uniformemente esticados, na ânsia de aquecer as mais recônditas dobrinhas. Diante da aproximação de seres humanos, as tartarugas efetuam um mergulho abrupto e sincronizado, emitindo sonoros clops ao cair na água. São todas crescidas e volumosas, lembrando saudáveis calotas de Fusca.

***

Todos os anos, nascem na reserva cerca de 8 mil filhotes. Os ovos são depositados em bandejas cheias de areia grossa, numa sala com umidade controlada e temperatura a 29 graus centígrados, onde eclodem num período médio de 72 dias. O processo é mais rápido do que na natureza, onde pode levar até quatro meses. Para quebrar o ovo, a tartaruga usa um dentinho, que cai depois de uma semana de nascimento. Anderson conta que o aproveitamento é de quase 100%, ou seja, é raro que uma tartaruguinha não consiga sobreviver num berçário de luxo com pinta de resort. No período da desova, há dias em que a quantidade de ovos coletados chega a 400.

Se a aproximação humana assusta os quelônios expostos fora d’água, ela também provoca curiosidade subaquática e a expectativa uníssona pela chegada da ração. Após o mergulho apavorado, portanto, o que se vê são centenas de narizes para fora, nadando afobadamente em direção às visitas. A aglomeração é tamanha que chega a fazer barulho: os cascos batendo uns contra os outros emitem clops aterrorizantes.

Felizmente, conseguimos sair ilesos da avalanche quelônia que se prenunciava. Com a ajuda de Anderson, partimos para a área das tartarugas terrestres, os jabutis, estes sim inofensivos répteis de olhar ancestral e alfacinhas penduradas na boca. Todos ali pesavam mais de 10 quilos e podiam servir de banco ao visitante mais distraído.

***

Logo na chegada à arena, Anderson tem que acorrer a um chamado de emergência: o jabuti número 8, que aqui vamos chamar de Moisés, estava virado de ponta-cabeça e esperneava, apavorado, num dos cantos. Os amigos de Moisés não pareciam fazer caso de toda a sua angústia. Anderson retorna o tartarugão à posição normal e diz que há muitos incidentes assim durante o dia. Como os animais só aguentam poucas horas de pernas para cima e geralmente não conseguem se desvirar sozinhos, é preciso haver socorro imediato.

Na fazenda, há ainda uma dezena de ovelhas, contratadas para aparar a grama. Seus estranhos balidos monocórdios, sem nenhum vibrato, se assemelham a uma imitação ruim de ovelha. Também lá residem dois ou três galos relegados à coadjuvação, e duas cadelas que convivem com as tartarugas num regime de paz permanente.

Ao contrário do que possa parecer, a Reserva Romanetto não é aberta a visitações. Só logram o acesso aqueles que realmente se esforçam, implorando de joelhos ao senhor Romanetto, e usando termos técnicos de quelonicultura, a fim de se provarem merecedores de tal honraria. Então, e só então, o feliz agraciado poderá conhecer quelônios tão vetustos que chega a nascer planta a partir de seus cascos. E se der sorte, Anderson falará sobre o sonho das tartarugas albinas, mostrará o saco vitelino de um jabuti recém-nascido e contará que fim levou Bituga, uma tartaruga que nasceu em 2007 e tinha duas cabeças.

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Piauí n. 49
Outubro de 2010

por Vanessa Barbara

Polêmica no 1º Campeonato de Escultura em Melancias

A promotora de eventos Elizabeth Tachibana veio de Curitiba com duas melancias na bagagem e um sonho: sagrar-se campeã brasileira de entalhe em frutas e legumes. A contenda ocorreu na tarde de 13 de setembro, durante a feira de hotelaria e gastronomia Equipotel, no Pavilhão do Anhembi, em São Paulo. Foi o 1o Campeonato Nacional de Escultura em “Melâncias”, como dizia o folheto.

O evento foi idealizado pelo chef tcheco Charlie Carving, único representante no Brasil da escola tailandesa de entalhamento hortifrúti. O estilo opõe-se às escolas filipina, chinesa e japonesa, que defendem a utilização de ferramentas elétricas e a escolha de temas mundanos, como dragões e samurais. Já o entalhe tailandês privilegia a paciência, as armas brancas (facas comuns) e dá preferência a motivos bucólicos.

A competição contava com uma série de regras, nem todas compreensíveis. A primeira dizia que “todo cidadão brasileiro pode participar da competição”. A segunda, que “podem participar da competição também pessoas do exterior”. Beneficiado pela falta de sentido da legislação, o chef cubano Eduardo Díaz Toledo, do Senac do Paraná, pôde se inscrever.

Segundo o edital, não seriam permitidos dispositivos de motor, como facas elétricas, motosserras e furadeiras. E todos deveriam trazer sua respectiva melancia – máximo de duas peças –, regra que foi levianamente quebrada pela organização do concurso, que dispôs, na entrada, uma pilha de lustrosas cucurbitáceas à disposição dos competidores.

Com duas melancias acondicionadas numa mala de rodinhas, Elizabeth achou errado e protestou, invocando o trabalho que tivera ao transportar sua matéria-prima desde o Paraná. Alheio a tudo e a todos, o paulistano Mitsuo Inaba limpava meticulosamente as quarenta banquetas e as duas compridas mesas de trabalho com seu indefectível pano multiuso. Depois, lustrou e alinhou simetricamente os instrumentos de cutelaria, entre os quais se encontravam boleadores, descascadores, facas tailandesas, facas retas, facas “carvadas”, floreadores, agulhas, borrifadores de antioxidante, formões, palitos de churrasco, alicates e estiletes. Nas maletas dos participantes também havia sachês de ketchup e mostarda, cola tipo Super Bonder e durex.

Enquanto isso, o goianiense Geovanio Carvalho tentava criar vínculos com a fruta que lhe cabia, abraçando-a com ternura. O colega Dogival Alves Freire, de Brasília, analisava a consistência de sua redonda. Já a campineira Suzana Ishizaki apalpava discretamente o umbigo de sua “melância”, na tentativa de conhecê-la melhor.

No total, eram nove participantes, todos com jaquetões brancos de chef. Às duas e cinco da tarde, começou o torneio. O primeiro a apunhalar sua matéria bruta foi Eduardo Díaz, o cubano especialista em cisnes de tomate, leques de pepino, flores de batata, patos de nabo e buquês de alho-poró.

Quem logo assumiu a dianteira foi o paulistano José Adriano Cordeiro, que descascou o hemisfério ocidental de sua musa esférica com poucos e bons talhos. O mais calmo era Mitsuo, que analisava um esboço do desenho pretendido: uma abelha (feita com a casca da fruta) polinizando uma flor branca sobre um recheio de melancia. Um trabalho em diversos níveis, portanto.

Passada meia hora, José já havia burilado uma flor funda, de interior avermelhado. Dogival revelou um pendor especial para a finalização de pétalas, enquanto Shigemi Matsumoto, de Jundiaí, destacou-se por trabalhar o topo de sua melancia, a menor entre as presentes. Com o tempo, uma flor foi surgindo de dentro da fruta, de modo que só faltou à artista tocá-la com um cinzel e pedir: “Parla!”

***

Pouco antes das três da tarde, acabou a luz no recinto. Ainda havia iluminação parcial numa das bancadas e foi para lá que todos transferiram suas melancias. Lá fora, os visitantes da feira acompanhavam a movimentação grudados no vidro, tentando entender por que diabos havia nove pessoas de branco cavucando melancias no escuro.

Em dez minutos a energia voltou e, às 15h40, o primeiro escultor deu por concluída sua arte. Era José, que talhou uma extensa flor em dégradé. Dez minutos depois, Geovanio também terminou, satisfeito: “Eu sou apaixonado pela minha obra”, confessou, apreciando-a por uns minutos. Ambos os trabalhos tinham técnica semelhante e consistiam em flores profundas e coloridas, sendo que a de Geovanio trazia um detalhe de borboleta em casca verde. “Estou gostando também de pássaros”, ressaltou, explicando o redirecionamento temático.

Encerradas as três horas de competição, os juízes se reuniram para deliberar. Avaliaram quesitos como concepção (limpeza, regularidade, nitidez e energia de corte), dificuldade (quantidade de motivos, plasticidade), desenvoltura, técnica, impressão artística e pluralidade de temas.

Ao analisarem a obra de Eduardo Díaz, porém, a situação ficou tensa. Ele era responsável pela criação mais original do recinto: um barco talhado no interior da melancia, com vasta matéria-prima do miolo. As demais esculturas tinham maior ênfase na superfície da fruta, no jogo entre casca, parte branca e miolo. Eduardo Díaz era um insider.

Inflexíveis, os juízes elogiaram sua noção de profundidade, mas disseram que o trabalho “teria ficado esteticamente melhor numa abóbora”. Grande ofensa. Armou-se uma confusão. O artista discordou, disse que deviam examinar a técnica e não o material, e falou que não se importava com o fato de a melancia ter sementes que se evidenciavam num trabalho como aquele. “É uma crítica construtiva!”, apelou uma das juízas. Díaz se afastou, irritado. Era como se dissessem a Rodin que O Pensador ficaria melhor em plástico bolha, e não em bronze. No fim, o artista incompreendido levou uma menção honrosa pela “noção de tridimensionalidade em frutas”, que ficou mais parecendo um prêmio de consolação pelo infeliz comentário da abóbora.

O campeão da noite foi Milton Nisti, um chef de 47 anos, de Santos, que usa aparelho dentário e trouxe dois tipos de óculos para enxergar. Milton esculpiu um rosto de mulher com cabelo de casca verde, nariz à Karl Malden e flores entalhadas ao redor.

Antes mesmo de poder gozar dos privilégios de ser campeão brasileiro, Milton foi ofuscado por um acontecimento ainda mais importante para a comunidade: Charlie Carving resolveu esculpir em melancias o rosto dos presidenciáveis e comunicou sua decisão à imprensa. Fôssemos juízes, diríamos, com óbvio intuito construtivo, que a ideia talvez se materializasse melhor em bananas.

O quintal do meu avô

Posted: 1st outubro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas
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Revista Mais – Pão de Açúcar
Outubro de 2010

por Vanessa Barbara

Aos 8 anos, meu avô ficou bêbado de tanto tomar água. O incidente se deu por conta de uma aposta para ver quem bebia mais, pois, nessa idade, são essas as coisas que importam. Valente, meu avô tomou quase uma moringa inteira – quinze copos d’água – e venceu a disputa, embora tenha saído vomitando nos braços do povo. “Naquele dia eu apanhei bastante”, ele lembra, com um sorriso gabola.

Até os 12 anos, em 1945, Paulo de Moraes viveu em Ourinhos, no interior de São Paulo, onde havia constantes guerras de uva e brigas de pedrada. Uma de suas mais célebres histórias, recontada no romance O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008), diz respeito à escolha do líder da turma – formada por Craiton, Zé Minduim, Valter Gordinho, meu avô e o Oscar.

“O Zé Minduim chegou com uma câmera fotográfica invisível e a respiração toda estranha. Disse que ia tirar um retrato, eu fiz pose, e ele tacou uma torneira na minha cabeça”, conta. Era uma vida difícil para Paulo, o mais magrinho do grupo e o único que não conseguia enxergar por cima do milharal. Mas ele era o mais esperto e, certa vez, chegou a ganhar numa aposta dez caixas de palito de fósforo – o que fez dele uma espécie de magnata local, pelo menos até a mania de incêndio passar.

Por essas e outras é que meu avô acabou virando o “Menorzinho”, narrador do meu primeiro romance (em parceria com o escritor Emilio Fraia). Passamos horas conversando sobre o Flash Gordon, o futebol de botão, as surras, o rio Paranapanema, Tarzan contra o mundo (1942), os passeios pelo trilho do trem, o aprendizado de cambalhotas com os palhaços do circo, Roy Rogers, A Deusa de Joba (1936) e o dia em que comeu três marias-moles de uma vez.

Minhas histórias preferidas têm como protagonista o Valter Gordinho, que, dizem, só andava com a turma porque o tio dele era rico e lhe enchia de presentes. Não há um episódio em que o roliço petiz não se meta em alguma enrascada. Sempre incentivado pela turma, Valter Gordinho foi atacado por marimbondos, tomou chineladas antológicas, pulou de um andaime, passou semanas com febre, perdeu misteriosamente os suspensórios e, durante um furto de pombos, ficou entalado no forro de um galinheiro.

Há algumas semanas, aos 76 anos, meu avô sofreu um AVC e ficou com o lado direito paralisado e a fala comprometida. Ninguém parece desconfiar, mas eu sei que ele vem planejando uma mirabolante fuga do hospital, com direito a guerra de goiaba, fratura exposta, carrinho de rolimã e a ajuda de quem quiser participar (exceto o Valter Gordinho).

Na época do meu avô, “o quintal de casa ia embora”.