O louco de palestra

Posted: 1st outubro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Revista Piauí
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Tipos brasileiros: O louco de palestra
Ele sempre começa com “Eu gostaria de fazer uma colocação”

por Vanessa Barbara

Piauí n. 49
Outubro de 2010

Em dezembro passado, o escritor gaúcho André Czarnobai, o Cardoso, publicou um diário na piauí intitulado “Pasfundo calipígia”. Salvo engano, foi a primeira vez em que se utilizou em letra impressa o termo “louco de palestra”. Imediatamente, a expressão ganhou densidade acadêmica e popularizou-se nos redutos universitários nacionais, encorajando loucos latentes e chamando a atenção da saúde pública para o problema.

O louco de palestra é o sujeito que, durante uma conferência, levanta a mão para perguntar algo absolutamente aleatório. Ou para fazer uma observação longa e sem sentido sobre qualquer coisa que lhe venha à mente. É a alegria dos assistentes enfastiados e o pesadelo dos oradores, que passam o evento inteiro aguardando sua inevitável manifestação, como se dispostos a enfrentar a própria Morte.

Há inúmeras categorias de loucos de palestra, que olhos e ouvidos atentos podem identificar em qualquer manifestação de cunho argumentativo-reflexivo, com a palavra franqueada ao público.

Há o louco clássico: aquele que levanta, faz uma longa explanação sobre qualquer tema, que raramente tangencia o assunto em debate, e termina sem perguntar nada de específico. Seu único objetivo é impressionar intelectualmente a plebe, inclusive o palestrante oficial. Ele sempre pede licença para “fazer uma colocação”.

Há o louco militante, que invariavelmente aproveita para culpar a exploração da classe dominante, mesmo que o tópico do debate seja arraiolo & bordado.

Há o louco desorientado, que não entendeu nada da palestra – e não vem entendendo desde a 2a série, quando a professora lhe comunicou que o Sol é maior que a Terra – e, depois de circunlóquios labirínticos, faz uma pergunta óbvia.

Há o que faz questão de encaixar no discurso a palavra “sub-repticiamente”: é o louco vernaculista.

Uma criteriosa tipificação do objeto de estudo não pode deixar de registrar o louco do complô, que, segundo integrantes do próprio complô, é “aquele que acredita que toda a imprensa se reúne de madrugada com o governo ou a oposição para pegar a mala de dinheiro”.

Ou o louco adulador, que gasta os trinta segundos que lhe foram franqueados para dizer em dez minutos como o palestrante é divino. O louco deleuziano, que não sabe o que fala, mas emprega muito a palavra “rizoma”. E o louco pobre coitado, que pede desculpas por não saber se expressar, o que não o impede de não se expressar durante minutos intermináveis.

Depois de falar “Gostaria de fazer uma colocação”, todos podem usar a expressão “na chave de…”. Como nessa típica colocação: “O jornalismo entendido na chave da sociologia é sem dúvida uma ocupação rizomática, em termos de vir-a-ser.” São poucos os que dizem que algo acontece por causa de outra coisa. É sempre “por conta” da qualquer coisa em questão.

No entender de Cardoso, é raro não haver um louco à espreita quando ele está palestrando (ou painelando, ou debatendo, ou mesmo plateiando). O mais recente de que ele tem lembrança manifestou-se num encontro de blogueiros com editores, em São Paulo. Na ocasião, um camarada que até então ouvia tudo com atenção – mas em silêncio – pediu a palavra. “Em primeiro lugar, queria dizer que não sou blogueiro, não leio blogs, não entendo nada dessas coisas, mas também tenho direito a uma opinião”, afirmou, à guisa de apresentação.

E prosseguiu, o celerado: “Sou médico comunitário, organizo saraus na periferia e quero dizer que discordo de tudo que todo mundo falou aqui. Está todo mundo puxando o saco da Companhia das Letras.”

E disse mais: “O blog da editora está muito feio. Não tem cara de blog. Tem mais cara de site, e além disso acho que ninguém quer ler sobre os bastidores de como são feitos os livros.”

Em poucos minutos, ele invalidou audaciosamente tudo o que havia sido postulado até então. É o louco de palestra majestático, que ouve a conferência com ar de superioridade e acha tudo uma grande e gorda estultice.

***

Um bom louco de palestra é sempre o último a falar, pois passa o tempo todo digerindo o que foi dito. Só então ele pode dar alguma declaração desvinculada do tema, equivocada, mal-intencionada ou apenas incompreensível. Para o jornalista Matinas Suzuki, o tipo contempla com desprezo o que se discute, aguarda pacientemente a sua vez e, então, discorda com virulência. “Me corrijam se eu estiver errado”, ele diz a certa altura, só para parecer democrático. “Concordo com tudo o que vocês disseram, mas ao contrário”, prossegue. Ou ainda: “A minha colocação engloba a do companheiro e vai além”, num típico comentário condescendente de loucos de assembleia.

Há que se distinguir o maluco de palestra do desvairado de assembleia estudantil ou sindical. Nesta última, não há palestrante; todos têm o direito de incluir o nome na lista de oradores e falar, sem a necessidade de se ater forçosamente a um tema.

***

Segundo uma enquete com personagens da época, um dos mais célebres representantes dessa categoria, na década de 70, era o Gilson, um estudante do curso noturno de economia na Universidade de São Paulo. Era um gordinho trotskista que tinha a voz fina e usava um bigode ralo. O outro era o Reinaldinho, da ciências sociais, que, qualquer que fosse o assunto, dava sempre um jeito de encaixar a frase: “O concreto é a síntese de múltiplas determinações.” É verdade. Até Marx sabia disso. Mas repetir o conceito em todas as assembleias da usp dos anos 70 nem Engels aguentaria.

Embora essas duas categorias de louco (palestra vs. assembleia) se diferenciem por motivos óbvios, existe a possibilidade de infiltração de loucos de palestra numa típica assembleia estudantil/sindical. O infiltrado, em regra, é aquele que toma o microfone à revelia de todos e anuncia: “Questão de ordem!”, ainda que a alegação não proceda. Daí em diante, a performance é livre.

São assim os loucos de palestra: audazes, imprevisíveis, implacáveis, destituídos de noção ou sentido. Cardoso também se lembra de um debate em Curitiba, quando “um senhor moreno, grisalho, com uma sacola ecológica atravessada no peito e toda a pinta de quem pratica ioga, anunciou que ‘a internet é como uma vaca mágica, de onde cada um extrai o leite que deseja’”.

Infelizmente, é só isso que ele se lembra daquela longa e bizarra colocação.

Há quem se depare com um louco contemplativo, que é dos mais difíceis de lidar. Sobretudo na primeira mediação de sua vida. Foi o que ocorreu com o escritor e editor Emilio Fraia, que, nervoso e pautado por dezenas de papéis amarelos, conduziu um debate entre o cineasta Hector Babenco e o escritor William Kennedy, no dia 11 de agosto, em São Paulo.

“Primeiro, a moça levantou a mão e disse: ‘Eu tenho uma pergunta’”, contou Emilio Fraia com a pungência de quem luta contra um quadro de estresse pós-traumático. “Então, ela disse não saber por que estava ali. Viu que haveria uma palestra e entrou.” A moça era de Minas, estava há quatro dias num quarto de hotel, sozinha. “Mas gostei muito do que o senhor Kennedy falou, de ter sido recusado por treze editoras antes de publicar. Sou artista plástica.”

Nesse instante, começaram os apupos da plateia: “Pergunta!” Intrépida, ela não fez caso: “Tenho um trabalho baseado em cores e…” Apupos, apupos.

Ao término do arrazoado, Fraia não conseguiu esboçar reação. Ficou vermelho. Paralisado. “Até que a palestra encerrou-se por si só. Foi o fim, nada mais poderia acontecer após aquela intervenção”, relata.

Outra recente ocorrência de louco contemplativo deu-se numa palestra da escritora Fred Vargas, no Rio de Janeiro, acerca do caso Cesare Battisti. Um sujeito pediu a palavra e falou vinte minutos sobre a sua militância no Nordeste, nos anos 50, sem pronunciar nem uma vez o nome do Battisti.

Com esse tipo de maluco em vista, o cartunista Laerte Coutinho confessou imaginar o que restaria daquela experiência para o sujeito, o louco propriamente dito. “Acho que tudo se reduz à sua própria intervenção”, filosofou Laerte. E emendou uma teoria: dos debates, o louco de palestra deve se lembrar tão somente da sua performance. “Lembra aquela vez, em Curitiba, quando eu levantei a mão e comparei a internet a uma vaca mágica?”, diria o sujeito, satisfeitíssimo, numa reunião de um hipotético Grupo Unificado de Apoio aos Loucos de Palestra, o GULP.

***

O que poucos sabem é que a origem do louco de palestra remonta à história do pensamento. “Acho que ele surgiu pela primeira vez na Ágora grega: a democracia está cheia de loucos de palestra”, postula o editor Milton Ohata.

Na peça As Nuvens (423 a.C.), o dramaturgo Aristófanes, por exemplo, faz chacota dos sofistas – os loucos de palestra mais insignes da Grécia Clássica. Naquele tempo, já existiam “profetas, quiropráticos, mocinhos cabeludos, poetas ditirâmbicos, astrólogos, charlatões, impostores e muitos outros mais”, diz o texto. Gente que se rendia ao arrebatamento do discurso e à volúpia da articulação, um bando de consumados tratantes, palavrosos e descarados. Tais como Cairefonte, discípulo de Sócrates, que levantou certa vez a mão e perguntou ao mestre qual das duas era a teoria certa: “O mosquito, ao zumbir, se utiliza da boca ou justamente do contrário?”

Na antiga Palestina, talvez durante o Sermão da Montanha, devia haver loucos de palestra prontos para agir. Uma das perguntas lançadas ao Filho de Deus, e omitida dos registros canônicos, teria sido: “E aí, o que está achando de Cafarnaum?”

Especulações à parte, uma coisa é certa: foi um louco de palestra fariseu que abordou o Messias com uma pergunta mal-intencionada, e que recebeu como resposta: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Uma reação divina ao interlocutor maledicente.

O que nos leva ao difícil papel do mediador. É sabido que, diante de um louco de palestra, ele tem poucas opções. Uma é dirigir-se a uma rota de fuga predeterminada, levando os braços ao ar e abandonando o público à própria sorte. A segunda é a solução escolhida por Emilio Fraia: a completa e resignada paralisação, seguida de conclusão precoce do seminário e aceitação da ruína. Numa variante pouco mais elegante, o mediador pode emitir um constrangido “Fica aí a pergunta”, e encerrar a palestra com certo ar de mistério.

A terceira saída é se fingir de louco e ignorar a intervenção por completo. A tática é defendida por oradores calejados como o jornalista Humberto Werneck. Durante um papo sobre seu livro O Santo Sujo, em Belo Horizonte, um rapaz pediu a palavra e não fez pergunta alguma – divagou sobre coisas que ninguém entendeu. “Acho que era doidinho, e não fiz mal em esperar que esvaziasse a piscina verbal. Levou vários minutos. O cara terminou sem ponto de interrogação. Agradeci a participação e fui ao perguntador seguinte”, conta, sem constrangimento.

A quarta e última reação possível é a mais artística e profissional de todas. No domínio dessa técnica estão mediadores experientes como o crítico de arte Alberto Tassinari. Ele diz ter muita paciência quando um louco desses se pronuncia, “pois sempre bate em algum lugar respondível e o diálogo fica tremulando entre sua racionalidade intrínseca e sua irracionalidade que vem de fora, fora de hora e quase inutilizando tudo”.

O professor Samuel Titan Jr., da usp, é do mesmo time. “Meu louco favorito começa pedindo para fazer uma colocação e embarca imediatamente na autopromoção, que pode ser pseudoacadêmica, pseudoliterária ou de fundo ressentido (nas variantes de raça, sexo, classe, opção sexual ou todas as anteriores)”, revela, com a sabedoria advinda da experiência.

Nesses casos, ele recomenda que a única saída para se livrar da situação é “responder alguma coisa que não tenha nada a ver com o que ele disse e que tenha alguma coisa a ver com o que você tinha tentado dizer, tudo isso olhando no olho da criatura e usando cá e lá umas palavras difíceis, que é pra ver se o bicho se intimida – em geral, nem um pouco”.

***

É preciso encarar essas coisas filosoficamente, pondera Titan, que há poucos meses teve que enfrentar um belo exemplar da espécie.

O episódio ocorreu em 25 de março, na Casa do Saber, em São Paulo, num debate sobre ensaísmo. Estavam presentes o arquiteto Guilherme Wisnik, o artista plástico Nuno Ramos, Matinas Suzuki Jr. e, como mediador, Samuel Titan Jr.

A gravação em vídeo do colóquio é uma verdadeira obra-prima tragicômica. Por um feliz acaso, a câmera permanece focada nos quatro palestrantes durante a longa peroração de uma moça da plateia, que deve ter tomado fôlego antes de se levantar. Cada um dos intelectuais supracitados reage à sua maneira, coçando a cabeça, esfregando o nariz, olhando pra cima e tentando desesperadamente manter a compostura diante de ocorrência tão alarmante.

A intervenção se dá em dois tempos. No primeiro, que dura quase cinco minutos corridos, a moça expõe a sua verve: “A minha pergunta é sobre lugares e fronteiras”, inicia, num tom didático que pressupunha prévia reflexão sobre o tópico. “Eu vejo o ensaio como um espírito livre do pensamento expresso na forma escrita. Então acho que ele merecia um lugar de destaque, mas pelo que eu vejo da discussão, do debate entre vocês, há uma questão do lugar e das fronteiras, quando se fala num lugar chamado ‘entre nós’, ou quando se fala no Brasil, no mundo e, indo mais além ainda dessas fronteiras, na própria realidade.”

Dominado por um compreensível reflexo instintivo, Nuno Ramos passa a beber água compulsivamente. Samuel Titan alterna vigorosas coçadas de cabeça a uma distraída extração da pele ao redor das unhas. No coração de todos, a esperança de que a pergunta não tardará. A moça prossegue: “Eu vejo o ensaio como esse espírito livre do pensamento escrito porque ele vai além do pensamento escrito, chegando na realidade, com toda essa liberdade de conexões intertemas, e não só temas intelectuais ou conceituais ou acadêmicos, mas os próprios acontecimentos da realidade.”

Curiosamente, os quatro palestrantes decidem apoiar-se no cotovelo esquerdo, recostam-se nas cadeiras e cruzam os braços, como que tentando se defender da avalanche de conceitos que lhes são atirados impiedosamente.

E a moça vai em frente: “Então vejo uma maneira de resolver esses dilemas, essas questões que foram apresentadas, e me atendo ao que foi debatido entre vocês, que os ensaístas deveriam eles mesmos se colocar como espíritos livres.”

Sublinhe-se que ela faz referência à discussão e promete se ater ao que foi debatido, como se procurasse despistar a audiência. Dito isso, segue em frente: “Criar como que uma onda, o ensaio como uma pedra que cai na água e gera ondas não só daquilo a que ele se propõe, mas indo além. Indo além da própria subjetividade de quem escreve, ou do próprio arsenal de conhecimento acadêmico restrito, então o próprio ensaio brasileiro precisa adotar a postura de quebrar essa fronteira e se colocar como um ponto de convergência de forças que estão presentes no mundo hoje, tanto politicamente, como literariamente, cientificamente, artisticamente.”

Depois daquela peroração sem perguntas, Samuel Titan interrompe a moça e faz o que pode para encaminhar o debate. Os palestrantes comentam uma suposta “zona de conforto” no ensaísmo brasileiro, termo que a moça citou a esmo, dentro de um contexto só dela. O debate parece que vai engrenar. Que nada: num momento de deslize do mediador, a moça da plateia leva a melhor e consegue retomar o raciocínio: “Tenho visto coisas riquíssimas”, ela interrompe, e torna a abusar de advérbios: politicamente, literariamente, cientificamente.

É o segundo momento de sua dissertação, quando, em resumo, ela conclui que é preciso cultivar um ensaio “que também se dilui, também luta sub-repticiamente. Tem que haver uma coragem de sair da zona de conforto, quebrar essas fronteiras pra conseguir criar novas fronteiras, realmente fazer diferença na realidade”. Assim é encerrada a sua fala e, com ela, o debate.

De tanto ver Nuno Ramos bebendo água temeu-se que ele pudesse ter uma congestão.

***

A lenda é difusa, mas deve ter ocorrido nos anos 60, durante uma aula do professor Bento Prado Jr., na rua Maria Antônia. Terminada a explanação, em que o docente citou o filósofo Plotino várias vezes, um aluno respeitosamente levantou a mão e disparou: “Com licença, professor. Esse Plotino aí não seria o Platão, não?” Ao que o mestre respondeu: “Não, cretão.”

Como prova de que os tempos mudam, mas os loucos continuam, o escritor Antonio Prata relembra um doido recente da usp. Sua alcunha: Santo Agostinho. “Era um cabeludo, barbudo, meio sujão, sempre chegava com uns jornais que a gente não sabia se estava lendo ou se tinha dormido com eles”, descreve. O sujeito tinha lido uma única coisa na vida: Santo Agostinho. “E não importava qual fosse a aula, não importava quanto tempo ele tivesse que esperar, em alguma hora ele achava a ligação. Não fazia uma pergunta, ele vomitava: “Professor, professor, isso aí que você está falando de – Descartes – Platão – Adorno – neo-liberalismo – assentamento – greve – filtro solar – não tem a ver com aquele conceito do Santo Agostinho?”

É o louco monotemático, de tendência obsessivo-compulsiva.

Vale observar que nem as grandes personalidades estão imunes ao ataque verbal de um desatinado espectador. Conta-se que, durante uma reunião da esquerda latino-americana em Paris, na época das ditaduras militares, um louco de palestra investiu contra o escritor Mario Vargas Llosa. Da plateia, um barbudão levantou e vociferou: Mientras Obregón se moria en la selva por el pueblo peruano, tu, que hacias?

O público silenciou. Sem se abalar, Vargas Llosa respondeu que dava aulas de literatura espanhola numa universidade. E devolveu a pergunta: Y tu, que hacias?

Yo tenía la hepatitis, disse o barbudão.

***

Uma categoria popular é a do louco lírico. “É o cara que, a todo custo, quer ler um poema, um conto, o primeiro capítulo de um romance. Já aconteceu de pegarem o microfone da minha mão e saírem soltando o verbo”, disse o escritor Marcelino Freire. Para ele, os poetas são os piores: estão sempre pedindo a voz.

O cartunista Laerte aprecia em particular o louco superespecialista, que conhece o seu próprio trabalho melhor que você, e aponta incoerências e contradições no que acabou de ser dito. Esse tipo pode trazer proventos vantajosos e é até possível forjar um deles para atuar em sua própria palestra – o sujeito levanta a mão e diz que certamente naquele trecho você fez uma referência velada à noção de witzelsucht tal qual é discutida em Heidegger. Gênio, grande pensador, você emite um “arrã” de modéstia e segue para a próxima pergunta.

Para o crítico Rodrigo Naves, que ministra um curso livre de história da arte em São Paulo, os doidos mais comuns são os carentes, que se põem a falar de seus problemas afetivos, existenciais, mercadológicos. “Tem um oriental que já vi se pronunciar em três ocasiões diferentes”, conta, ele mesmo um ocasional louco de palestra, do tipo agressivo, se bem que em recuperação. Houve uma vez em que Naves se ergueu da cadeira e, indignado com a opinião do palestrante, disse: “Não, não, não, não. Não, não, não”, como só um bom profissional do ramo conseguiria exprimir.

Há um subgênero de louco latente que, no entender do jornalista Elio Gaspari, é aquele que vai para as conferências, ouve tudo com atenção, mas o negócio dele é a comida oferecida ao final do evento. “Conheci um elegantíssimo, nos Estados Unidos, que ia de terno jaquetão. A piada era que um dia ele faria uma pergunta recitando todas as palestras que ouvira”, conta.

O mais recente registro formal de um louco de palestra ocorreu no último dia 10 de agosto, após um bate-papo com os cartunistas Gilbert Shelton e Robert Crumb, em São Paulo.

A intervenção abilolada saiu nas páginas do Estado de S. Paulo, registrada por Jotabê Medeiros: “Um maluco gritou lá de cima do mezanino perguntando qual seria a personalidade morta que Crumb elegeria para tomar uma cerveja consigo.” Crumb retrucou: “Não tomo cerveja com gente morta. Na verdade, nem tomo cerveja.” Em outro momento da noite, o cartunista pediu que um fã dominasse seus ânimos. “‘Shutupfuckoff!’, rosnou, e o menino riu.”

Bem-aventurado é o louco anônimo, o louco voluntário, o que se levanta indômito no meio da palestra e parte rumo à consagração. Amaldiçoadas sejam as perguntas por escrito, as regras contra a manifestação do público, o apupo impaciente, a placa de aplausos obrigatórios, as pessoas que jogam tomates em quem está atrapalhando o andamento da coisa.

Amaldiçoado seja o antropólogo Claude Lévi-Strauss, que no livro Minhas Palavras agradece aos alunos por suas reações “mudas, mas perceptíveis” que lhe permitiram desenvolver o pensamento sem grandes atropelos.

Viva aquele que comparece a palestras apenas para matar o tempo, e que ainda assim não perde a chance de se expressar, pois que é interessado em dividir suas opiniões com os outros seres. Viva a falta de noção, de vergonha e de respeito às autoridades presentes.

Todos têm um louco de palestra dentro de si, esperando para aflorar. Somos apenas reprimidos pelos grilhões da compostura, da sanidade mental e da idade adulta, o que nos impossibilita de protagonizar, em conferências, grandes momentos da história da argumentação humana – como quando, na Flipinha de 2005, um ouvinte de 5 anos de idade levantou a mão e perguntou ao escritor Luis Fernando Veríssimo: “Você gosta de suco de uva?”

Comendador Ronnie Von

Posted: 26th setembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Ronnie Von, 66, é uma figura peculiar. Até pouco tempo atrás, as novas gerações mal sabiam que “Von” se dizia “Fon” e que ele era mais do que um sujeito arrumadinho que abrilhantava as noites da salada promovidas pelas associações de bairro.

Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira foi ídolo da juventude nos anos 60. Descoberto por Agnaldo Rayol, tinha um cabelo chanel de príncipe, os olhos verdes, cantava iê-iê-iê romântico e fora cadete da aeronáutica.

Mais tarde virou psicodélico e compôs o clássico “De Como Meu Herói Flash Gordon Irá Levar-me de Volta a Alfa do Centauro, Meu Verdadeiro Lar”. Foi caindo no esquecimento até 2005, quando começou a apresentar o “Todo Seu” (Gazeta, seg. a sex. às 23h).

Hoje é amplamente reconhecido por suas piscadelas marotas e por se referir à espectadora como “você, bonitinha que está assistindo”, nessa atração de variedades que mescla entrevistas, musicais e gastronomia.

O “Todo Seu” tem uma hora e meia de duração e é voltado para as mulheres, “mas com toque masculino”. Destaca-se pelas afáveis conversas sobre vinho, decoração, comportamento e, sobretudo, pela extrema polidez do anfitrião, que usa a palavra “bumbum”.

Uma de suas grandes virtudes no papel de comunicador é saber lidar bem com as dúvidas do espectador. “Isso significa que sou gay?”, perguntou um moço, angustiado. “Significa”, responde Ronnie Von, passando para a próxima questão.

O apresentador é daqueles que não se referem à velhice, mas diz que “está jovem há mais tempo”. Nas entrevistas, costuma declarar que o assédio hoje é maior do que nos tempos de galã.

Ele também usa a palavra “intróito” de forma corriqueira e diz que “este beijo é extensivo a todos”, quando se trata de cumprimentar uma trupe de dançarinos de flamenco. Em vez de declarar: “vamos encher o bandulho”, prefere afirmar que irá dar “um fim digno” a determinada iguaria. Não raro, um convidado recorrente é chamado de “useiro e vezeiro deste humilde programa de tevê”.

Além disso, Ronnie é apaixonado por botânica, apreciador de charutos, acha que o sapato é “fundamental para a feminilidade” e – o melhor – possui o título de Comendador em Biritiba Mirim.

Colecionadores de entulho

Posted: 19th setembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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No dia 7 de setembro, o canal A&E estreou o primeiro reality show de horror da televisão: “Hoarders”, que em português ganhou um título mais genérico: “Obsessivos-compulsivos” (ter. às 22h).

Quem, a julgar pelo título, aguardou ansiosamente a exibição, afofou as almofadas três vezes e preparou-se para ver um programa sobre germofóbicos (ou metódicos, ou repetidores) deve ter sofrido um grande choque. As cenas eram apavorantes.

“Hoarders” ou “colecionistas” são os acumuladores compulsivos de tralhas, pessoas incapazes de se desfazer dos objetos mais inúteis. É gente que junta cadarços puídos, latas vazias, tábuas, jornais, disquetes e até anéis de latas de refrigerante.

Afinal de contas, “quem guarda tem”, dizia a minha tia Lucila. “Ratos”, eu completo. Os dois casos do primeiro episódio são de tragédias domésticas, como o casal que perde a custódia dos filhos por conta da insalubridade do lar e a esposa que fratura o braço e sofre um ataque cardíaco por culpa da tranqueira do marido.

Uma das justificativas mais usadas pelos entulhadores é o valor sentimental, mesmo que seja de uma folha em branco. Durante o programa, um sujeito levou quatro horas para examinar uma caixa em busca de coisas para descartar. Desistiu.

São discípulos modernos dos irmãos Langley e Homer Collyer, que, nos anos 40, acumularam 180 toneladas de lixo (ou 163 toneladas cúbicas) no sobrado onde moravam, no Harlem. Entre os objetos guardados “por precaução” estavam candelabros, carrinhos de bebê enferrujados, máquinas de raios X, pianos de cauda, automóveis, mofo e 3 décadas de todos os jornais de Nova York.

Homer era cego, mas Langley estocava os periódicos na esperança de que um dia pudesse lê-los. Além disso, Homer era paralítico e dependia do irmão para alimentá-lo.

O fim dos Collyer condiz com a sina dos entulhadores da série, embora em nível extremo: impossibilitados de andar pela casa, passaram a cavar túneis por entre o lixo e fazer andaimes sobre as pilhas. Um dia, Langley tropeçou e foi soterrado. Seu corpo foi encontrado a três metros do irmão, que morreu de fome, mas foram necessários 19 dias de trabalho para chegar até ele, retirando as 100 toneladas de lixo que os separavam.

Histórias que vieram para ficar

Posted: 14th setembro 2010 by Vanessa Barbara in Clipping
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Revista Psicanalítica
14 de setembro de 2010

por Eduardo de Almeida

Um livro-reportagem sobre rodoviárias não parece exatamente interessante. Só que, no caso de O livro amarelo do terminal, o preconceito acaba na primeira página. Até porque não se trata de um livro comum – o projeto gráfico, desenvolvido por Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio, da editora Cosac Naify, se destaca pela irreverência: impresso em papéis tão peculiares quanto aqueles dos bilhetes de viagem, fininhos, ele apresenta design sofisticado e intervenções ao longo do texto que propõem uma nova experiência de leitura.

Tampouco falamos de uma rodoviária qualquer, mas do Terminal Tietê, o segundo maior do mundo, que se conecta a milhares de cidades do Brasil e da América do Sul. Para completar, não foi escrito por alguém que telefonou e fez uma entrevista de trinta minutos com o assessor de imprensa, mas pela então estudante de jornalismo Vanessa Barbara, que passou meses visitando o local, conhecendo pessoas, infiltrando-se no espaço físico e espiritual, observando, vivenciando e anotando tudo num bloquinho cor-de-rosa. O resultado é um apanhado interessantíssimo de “causos”, selecionados de algo muito maior, que se confunde com a própria cidade de São Paulo e seus habitantes.

Quando a gente se dá conta, já se foi meio livro e ainda não deu vontade de largar.

Vanessa escreve com humor, ironia e clareza. Soube encontrar a alma da rodoviária naqueles que trabalham ali ou que apenas transitam, que aguardam ansiosamente parentes e amigos, que suam a camisa para comprar uma passagem e celebrar o Natal com a família a mais de três mil quilômetros da capital. Depois, ela cruza isso tudo com trechos de música, literatura e propaganda, enriquecendo a sensação apreendida durante a exploração.

São relatos de amor, luta e persistência, vividos por um povo que não conhecemos a fundo, mas do qual fazemos parte. Em outras palavras, a história do Terminal Rodoviário do Tietê é também a nossa história.

Os capítulos centrais, impressos em folha de papel carbono, são frutos da pesquisa que a autora realizou com mais de sessenta reportagens da época da implementação, além de documentos, entrevistas e muita cultura popular. Atravessam a ditadura militar, resgatam nomes icônicos como Paulo Maluf e Romeu Tuma, dá vontade de rir e de chorar, tudo ao mesmo tempo. É impressionante por diversos motivos: pelos valores astronômicos gastos na construção e reforma, pelo jogo político, pela desordem, pelos conflitos de interesses, pelos debates arquitetônicos, pelas promessas mentirosas, pelo povo ficar sempre em segundo plano. Impressionante também por ter dado certo no final, coisa que nem Nostradamus previa e nem Freud explicaria. Típico de Brasil.

Desde que o livro foi escrito, em 2003, até a publicação, em 2008, muita coisa mudou. Novos capítulos surgiram e outros terminaram, não dá para saber com certeza ou atualizar tantos dados. Assim, o jornalismo-literário adquire aquela onipresença da ficção pura, coisa que não o anula, claro, apenas fornece novos valores. O capítulo seis, por exemplo, torna-se um conto perfeito, sem tirar nem pôr. Difícil dizer o que tem de reportagem. Tudo e nada ao mesmo tempo. Delícia de ler.

Vanessa Barbara provou que, com perspicácia e boa redação, até mesmo um assunto pouco atrativo como a história de uma rodoviária pode se transformar num livro muito bacana, que informa e diverte inclusive os leitores pegos de surpresa, como eu. A obra carrega adjetivos que muitos romancistas vêm procurando, normalmente em vão: inteligência, simplicidade e relevância. Os prêmios recebidos em 2008 e 2009, com destaque para o Jabuti, foram mais do que merecidos. Esse livro amarelo não tem como não agradar.

Trechos (ou aperitivos):

“A rodoviária do Tietê é uma cidade de coisas perdidas. ‘O caça-níqueis está aqui há dois anos’, informou a funcionária, mostrando uma lista que enumerava o esquecimento de espingardas (duas), motocicletas (duas), um banco de kombi, uma máquina de serrar azulejos, camas, muletas, motores de moto, pneus, dentaduras e uma mão mecânica. ‘Às vezes vem gente procurando amigos desaparecidos. Mostram a foto e perguntam se já encontraram’, conta Andréia, que trabalha no setor de Achados e Perdidos.” (p. 11)

“– Moça, onde é que eu faço inscrição para ir pro Iraque?
– … Desculpe?
– Pro Iraque. Eu quero ir pra guerra, buscar o meu filho.
– Ahn… senhora, nós não oferecemos esse tipo de serviço.
E a mulher foi embora, bastante brava com a incompetência das atendentes. Ora, que disparate. Como, não sabe responder a pergunta? I-N-F-O-R-M-A-Ç-Õ-E-S – é o que está escrito na placa.” (p. 37)

“Escreveu todas as instruções mais uma vez. Agora, em minúcias. ‘Ir até a rampa tal, comprar um bilhete de integração, entrar no metrô com destino a…’ Ele saiu com o papelzinho estendido na palma da mão, como se fosse uma bússola. No final do dia, antes de voltar para casa, ainda passou no balcão, agradeceu pelas informações e comprou um pão de queijo para Rosângela.” (p. 45)

“Certo dia, ele sentiu cheiro de fumaça e viu uma luz forte vinda de dentro de um dos armários Malex. Chamou um segurança e eles passaram algum tempo pensando, tentaram imaginar o que havia ali, concluíram que era muito suspeito e decidiram abrir o armário. Lá dentro, havia nada menos que uma vela acesa. ‘U-m-a-v-e-l-a-a-ce-sa! Pode?’
– Daí o segurança foi lá e fez ‘fuuuu’: apagou a vela. Então veio a mulher dona da vela e fez o maior fuzuê.” (p. 93)


Eduardo de Almeida é publicitário, crítico e historiador da arte. Autor do site www.artefazparte.com.

Tevê tormento

Posted: 12th setembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Desde o início do ano, os resignados passageiros do 508-L (Aclimação – Term. Princesa Isabel) vêm acompanhando a vida de gente como Alcino, Domênico e Valvênio, insignes personagens de novelas da Globo.

Em São Paulo, já são 300 ônibus com televisões da Bus Mídia, que exibem uma programação em loop com resumos de novelas, notícias frias, propagandas e receitas, tudo fornecido pela emissora carioca.

Uma das táticas da empresa – que disputa o mercado com a BusTV e a TVO, além da TV Minuto, do metrô – é instalar monitores em pontos estratégicos dos coletivos, a fim de evitar a dispersão dos passageiros, que, cruz-credo!, podem querer olhar pela janela ou puxar assunto com o cobrador.

Além disso, a frota é composta só por veículos com piso baixo total, o que proporciona “um ganho de espaço significativo em relação aos demais ônibus, permitindo acomodar 15% a mais de passageiros. Isso significa mais pessoas expostas à sua mensagem”. Os tais coletivos são como trens de carga em que a maioria viaja de pé e as janelas ficam lá no alto, fora do alcance do pulmão médio do brasileiro. Assim fica mais difícil oxigenar o cérebro, presume-se.

Se considerarmos que a média de permanência por viagem é de 45 minutos e que “a audiência é garantida”, pois não há para onde fugir, temos um público compulsório de 255 mil pessoas por dia.

É gente que vai chegar em casa sabendo que “Jardel fica desesperado ao se deparar com Clotilde” (novela das seis), que “Help diz que vai revelar a identidade de Victor Valentim” (das sete) e que “Fred usa Candê para difamar Bete para Agostina” (das oito). Gente que sabe toda a biografia de Ariclenes, Sinval e Berilo, e que não se espantou quando Maureen contou a Deodora que Nelinha era sua irmã.

São passageiros atônitos, hipnotizados, presos no trânsito e prensados entre um senhor rotundo e uma moça que dorme em pé, numa situação em que só o que resta é assistir pela nona vez uma receita de brigadeiro trufado.

Se é lícito infligir a civis inocentes tamanho suplício, que ao menos o governo forneça um controle remoto por passageiro, a fim de que possamos trocar de canal, desligar a tevê ou acelerar a viagem.

Já sei! As Cruzadas

Posted: 5th setembro 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Entra em cena a atriz Giovanna Antonelli com uma malha preta. De olho no teleprompt, ela desata a falar sobre a realidade rural mexicana e a condição da mulher no início do século. Ou sobre a imigração argelina em países francófonos.

Está para começar o “Cine Conhecimento”, do canal Futura (seg-sáb 0h30, dom., 1h30), um programa deslocado no tempo e no espaço das grades de programação.

Primeiro, porque é veiculado de madrugada, naquele horário em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz. Segundo, porque a programação é imprevisível e comporta longas-metragens dos mais disparatados: entre os títulos já exibidos estão “Gosto de Cereja” (Kiarostami), “Fausto” (Svankmajer) e “George Washington Dormiu Aqui” (Keighley).

Há espaço tanto para as produções de Cingapura quanto para comédias colorizadas da década de 40, ou musicais em que Debbie Reynolds usa uma touca de natação, interpretando uma bola de futebol.

A grande graça do programa, porém, não são os filmes em si, mas os comentários proferidos pelas apresentadoras, que não se limitam a dar a sinopse, mas também detalham “as dimensões históricas, políticas e estéticas das obras e dos contextos que elas retratam”.

Na época em que foi lançado, em 1997, junto com a emissora, o “Cine Conhecimento” era mais didático e trazia curiosas interpretações marxistas acerca de filmes tolos. Hoje, infelizmente, os comentários são mais contidos.

Ainda assim, o texto pode ganhar ares surreais. Sobre “Fausto”, Leandra Leal afirma que “o mundo não se basta na razão e no conhecimento”. Sobre “Anel de Fogo”, Giovanna Antonelli destaca a gravidade dos incêndios nas matas. Em “O Mundo Perdido”, o diretor “trata com complexidade os elementos antagônicos aos personagens, como os homens-macaco”.

A grande diversão dos espectadores é adivinhar, com o filme já começado, quais foram os tópicos abordados na introdução e que raios a película acrescentaria de edificante aos que têm sede de saber. “Mercantilismo!”, arrisca um. “Choque entre gerações”, tenta outro. “Já sei! As Cruzadas”, conclui um terceiro, embora se trate de um filme mudo com temática marciana.

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Piauí n. 48
Setembro de 2010

por Vanessa Barbara e André Conti

Ascensão, glória e traição da banda que imortalizou Birigui

Nos primeiros meses de 1992, dois fenômenos brasileiros do pop rock se consolidaram. De um lado, a MTV Brasil, lançada no início da década, virou mania entre os jovens. De outro, a banda de thrash metal Sepultura, nascida em Belo Horizonte oito anos antes, estourava no exterior e, num ensurdecedor ricochete transoceânico, influenciava novas bandas Brasil afora. De uma hora para outra, qualquer pivete que dedilhasse a escala de dó maior na pianola de brinquedo queria fazer um videoclipe para anunciar, em estrídula e desafinada voz, que sabia cantar em inglês e era questão de tempo até arrebentar no exterior.

“A gente achava isso ridículo”, lembrou o paulistano Paulo D’Amaro, 42 anos, cuja marca de nascença no peito lhe valeu o apelido de Paulo Mancha. “Os produtores pegavam uns moleques da Zona Leste que não sabiam nem falar the book is on the table e achavam que iam conquistar o mundo.” Esse estado de coisas o deixava consternado.

Certa noite, comia panetone na cozinha de casa quando teve o estalo de Mazzaropi. Virou-se para o amigo Paulo Bife e anunciou: o negócio era fundar uma banda que cantasse em caipirês para fazer sucesso no interior. “Uma espécie de bairrismo positivo”, explicou ao amigo.

A ideia foi corajosamente aceita. Nascia o Tubaína do Demônio, de inspiração caipira-metal-pauleira, cuja fama no hinter-underground paulista se espalhou em função dos versos que declaravam amor açodado aos burgos mais recônditos e pitorescos das terras bandeirantes. Na obra de Mancha, Bife et alii, elogios grandíloquos são feitos a cidades como Jaú, Marília, Piracicaba, Jundiaí, Embu, Sorocaba, Catanduva, Cabreúva, Boituva, Presidente Prudente, Cajuru e Birigui, sendo reservada a esta última um lugar de honra.

Como exemplo, tome-se Bauru vs. Big Mac, um dos hits do grupo. Ela provavelmente registra a única ocorrência do adjetivo “paiero” na Música Popular Brasileira. Trata-se de uma gíria paulistana que quer dizer “loroteiro”. A letra, composta por Bife e Mancha, diz:

Não aguento mais americano paiero
Contando mentira pro mundo inteiro
Povinho metido e muito picareta
Acham que são os donos do planeta.

O Eu lírico segue enumerando as estultices dos ianques, como o embuste dos irmãos Wright e a crença de que a nossa capital é Buenos Aires. A canção tem dois trocadilhos geniais. O primeiro, nos versos:

Se um Big Mac os faz felizes
É porque não conhecem Bauru…
Jaú, Itu, Embu, Jarinu,
Arandu, Baguaçu, Cajuru, Piraju.

O segundo calembur se agiganta qual um Borba Gato para novamente azucrinar os americanos:

Acham que já viram tudo o que é grandeza
Porque não conhecem Itu.

E assim segue a letra, salpicando rimas ao sabor de um mapa rodoviário.

***

A musa inspiradora da banda, aquela que sinceramente lhe fala ao músculo cardíaco, entretanto, não é nenhuma dessas cidades. Nem é a Marília de “Jesus mecânico de Marília / envenenou minha Brasília”, tampouco a Itanhaém de Vem, neném, pra Itanhaém. É Birigui, a capital nacional do calçado infantil, a 500 quilômetros de São Paulo. “Birigui salvou a música, salvou a banda”, conta Mancha, completando, com sentimento: “É um lugar mágico.”

Explica-se: Bife e ele estavam imersos nas angústias parturientes da primeira letra da dupla – O diabo é português, inspirada na lendária figura de Roberto Leal, o demônio luso e loiro de A dança do tiro liro –, quando empacaram no verso “Minha alma eu perdi”. Como prosseguir Era um beco sem saída. Ficaram num silêncio espesso como as brumas de agosto no Mandaqui. Mancha arriscou: “Devia ter ficado…” Foi o que bastou para os dois emendarem “…em Birigui!”. A partir de então, todas as músicas do Tubaína faziam ao menos uma menção ao município.

Embora não sejam nativos da autocognominada Cidade Pérola, os integrantes da banda têm uma história de consagração em Birigui. “A gente nunca foi merda nenhuma em lugar algum, mas em Birigui a gente era celebridade”, orgulha-se Mancha.

Em dezembro de 1997, fizeram o primeiro show na cidade. Vieram 2 mil pessoas, que se espremeram na praça Doutor Gama, logradouro onde, assinale-se, os moradores esconderam uma cápsula do tempo, a ser aberta em dezembro de 2011. (O conteúdo do tesouro é desconhecido. “Está lá, escondida num cantinho da praça”, informou o músico. “Aliás, tem que avisar porque senão eles podem se esquecer de abrir.”) Mancha não tem dúvidas em dizer que aquele foi um dos shows mais legais da banda. Compara o frenesi biriguiense à eletricidade produzida por uma estrela pop internacional que, vez por outra, rebola numa dessas Copacabanas da vida. “A gente virou pop star.”

Na esteira do sucesso biriguiense, o Tubaína do Demônio passou a ser requisitado para shows no interior paulista, todos patrocinados pelo Sesc. “Teve um ano em que tocamos em todas as etapas do Campeonato Paulista de Biribol!” – modalidade desportiva criada nos anos 50 e oficializada em 1968 pelo advogado Dario Miguel Pedro, o qual julgou que era hora de sistematizar, de uma vez por todas, as regras do vôlei dentro de piscina. Por uma dessas coincidências que só o padre Anchieta explicaria, o doutor Miguel Pedro era de Birigui, razão pela qual o novo esporte passou a se chamar biribol. É o que ensina Mancha, e a informação, espantosamente, procede. A obra do Tubaína faz repetidas e pertinentes alusões ao esporte, como se pode verificar no verso: “É gratificante jogar o biribol”.

Voltar para Birigui seria certamente finalista num campeonato para escolher a música mais nostálgica de todo o vasto cancioneiro paulista. Lançada em 1993, foi gravada só em agosto de 1997, e imediatamente galgou as paradas de sucesso, virando hit na região de Araçatuba e arredores. A letra fala de um Homo biriguiensis que foi morar na capital.

Mas nesta cidade não encontro tubaína
E todo santo dia é barulho de buzina.

Em seu exílio, prossegue o desabafo da sofrida alma biriguiense:

A saudade vem, nunca ameniza
E a Rádio Pérola aqui não sintoniza.

Depois de elencar outras tantas melancolias da metrópole, o bom homem decide:

Mas aqui não fico nem mais um segundo
Vou pra Birigui que é o melhor lugar do mundo, yeah!

Wando não gravou, mas provavelmente porque é mineiro de Cajuri.

***

Em 2001, para prestigiar o Bandeirante Esporte Clube, time biriguiense, a banda fez um show antes da partida final da Copa do Interior de futebol do estado de São Paulo. Foi no Estádio Municipal Pedro Marin Berbel, o popular “Pedrão”. Um defeito na bateria eletrônica, que cismava em desandar, obrigou os músicos a tocarem 32 vezes a Marcha do Leão da Noroeste, levando a torcida ao delírio. O time foi campeão e o resto é História com agá maiúsculo.

Uma História, é triste registrar, que não é feita só de lauréis e apoteoses. O início das vacas magras correspondeu ao advento de cinco rapazes de Guarulhos. Em 1995, o Brasil tomou conhecimento dos Mamonas Assassinas, banda de rock debochado que em pouco mais de um ano venderia 2,3 milhões de cópias do CD homônimo, o único que gravariam em estúdio. “A gente conheceu os Mamonas em 1993, quando eles ainda eram a Banda Utopia e viram o nosso show no Aeroanta”, contou Paulo Mancha.

O músico achou as letras cômicas do Mamonas suspeitamente parecidas com as dele. Havia referências em comum, tanto nas letras como nas performances. O Tubaína, por exemplo, também descrevera gente que ia para o litoral fazer farofa a bordo de uma Brasília. Como o sucesso ofusca tudo – em certo momento, os Mamonas Assassinas chegaram a vender 50 mil discos por dia –, “a gente é que começou a parecer cópia deles”, recordou Mancha. Ele entrou em depressão por seis meses e até hoje não ouviu o disco dos rivais. “É uma coisa emocional, não racional”, concede. “Eu sei que eles não me copiaram de propósito e também sei que eram bons músicos, bem melhores do que a gente, além de terem um faro comercial que a gente não tinha. Eles foram naquilo que é sucesso – falar palavrão, piada sexista. Nosso humor é mais debochado, menos escancarado, não tinha como virar popular.”

É dessa época a abreviação do nome da banda. Tubaína do Demônio lembrava Mamonas Assassinas. Ficou Tubaína mesmo. A banda também sofreu uma reformulação. Desavenças afastaram Paulo Bife, substituído – como não? – por Américo Cebola. Aos dois se juntou Wagner Kawata, engenheiro civil cuja função era operar os botões de play e pause da bateria eletrônica. Kawata fora colega de Mancha na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Em meados dos anos 90, Kawata mudou-se para o Japão, e a cidade onde se estabeleceu foi devastada por um furacão. “Aí a gente espalhou que não tinha sido furacão coisa nenhuma, era ele que tinha destruído tudo”, conta Mancha. Assim nasceu a canção Engenheiro doido, cujo refrão ricamente rima “que a todos mata” com “Wagner Kawata”. Procurado pela reportagem, Kawata, hoje um renomado profissional, não quis dar declarações, limitando-se a exclamar: “Nozes! Ainda existe essa música?!”

***

O próximo capítulo da saga tubainense, decerto o mais jururu, tem como locus Birigui, o que é crudelíssimo. Assim como aconteceu na relação de Dublin com James Joyce, a cidade que a banda cantara em versos pungentes os abandonou. Para início de conversa, com exceção do Sesc, todo mundo lhes deu o cano, inclusive a prefeitura. “Os caras chegaram a cancelar show sem avisar a gente”, lamenta-se Mancha. “Cansamos de levar calote de Birigui e ficamos extremamente putos com a cidade. Todo mundo quer roubar o Tubaína.”

A gota d’água foi a adoção de Birigui pelos humoristas Paulo Bonfá e Marco Bianchi, apresentadores do programa Rockgol de Domingo, da MTV. Segundo Mancha, o Tubaína mandou um CD para a produção do programa, que o adotou como trilha de fundo. Aos poucos, o charme da cidade foi se impondo, e os apresentadores passaram a incluir Birigui, “a Massachusetts brasileira”, nos seus comentários. De súbito, Birigui viu-se cortejada por gente mais famosa e decidiu dar as costas a quem sempre a prestigiara. O município se tornou (mais ou menos) célebre em todo o território nacional. Mas pouca gente sabe que a palavra “birigui” vem do tupi-guarani e significa “mosca que sempre vem”, já que mosquitos hematófagos de dimensões reduzidas empesteiam a região (até hoje).

Não satisfeitos em dar calote nos músicos, os biriguienses deitaram por terra os bravos homens do Tubaína, substituídos no altar da devoção popular pelos apresentadores da MTV. Para cúmulo do desencanto, em janeiro de 2005, Paulo Bonfá recebeu um convite oficial da cidade para desfilar em carro de bombeiros. Na ocasião, recebeu do prefeito a chave da cidade. “Eu juro, cara!”, vocifera Mancha, compreensivelmente indignado.

Procurado pela reportagem, Paulo Bonfá se fechou em copas e, talvez, tenha se abespinhado com as perguntas: declarou que não tinha “interesse em ajudar pessoas desconhecidas a se promover às minhas custas”. Sugeriu que escrevêssemos sobre temas de maior relevância.

Menos mal que um vereador de Birigui, que fez a Câmara Municipal aprovar uma moção de agradecimento à banda, em reconhecimento ao fato inequívoco de que, sem ela, o programa Rockgol jamais teria colocado o município no mapa artístico nacional. “Mas a chave da cidade não deram”, objeta Mancha. “Ou seja, a gente não entra mais em Birigui. Se quiserem nos rever, mandem o Bonfá abrir a porta.”

Quem saiu perdendo, indubitavelmente, foi Birigui: versos recentes do Tubaína não mencionam mais a cidade; foi substituída pelo bairro paulistano da Mooca.

***

O Tubaína passou os últimos anos em banho-maria devido à agenda atribulada dos seus integrantes. Na atual formação, a banda é composta por Américo Cebola (Américo de Almeida Filho, nos registros civis), 47 anos, professor de engenharia da UniSant’Anna; Galvão Chucruts (Ricardo Galvão), 23 anos, engenheiro e professor de rockabilly no The Clock Rock Bar; Felício Imprevisto (Luiz Felício Finotti), 46, técnico em informática; e Paulo Mancha, que cursou engenharia química, mas mudou de ideia e hoje é jornalista.

Mancha foi editor nas revistas Superinteressante, Galileu, Quatro Rodas e Época, na qual escrevia sobre ciência. Teve passagens insólitas pelos periódicos Náutica e Offshore. Recebeu menções honrosas no Prêmio Abril de Jornalismo e, em 1993, foi agraciado com o Prêmio Volvo de Segurança no Trânsito por uma reportagem sobre a falta de educação do brasileiro ao volante. Nos últimos tempos, abrilhantou a redação das revistas Terra, Próxima Viagem, Aviação em Revista, Viajar pelo Mundo e agora é editor-chefe das publicações Viajar (de turismo) e Voar (de aviação), atividade que conjuga com a de comentarista de futebol americano para o canal BandSports.

Essa última função causou espécie nos fãs mais extremados e ideológicos da banda. O autor da candente Bauru vs. Big Mac, o libelo paroquialista contra a empáfia americana, teria se rendido ao império ianque? Dezoito anos atrás, entre as inúmeras peculiaridades norte-americanas a serem espezinhadas, a canção incluía exatamente o futebol que se joga por lá:

Uma brincadeira de mão
Um monte de marmanjos se dando porrada
Correndo atrás de uma bola amassada.

Em defesa própria, Mancha alega que passou a gostar do esporte depois que compreendeu as regras. “Posso odiar os americanos, mas adoro esse jogo”, diz, sem pedir desculpas pela heterodoxia. Acrescente-se que poucos se dedicaram a decifrar todas as camadas significativas de Bauru vs Big Mac. A canção decerto critica o egocentrismo ianque, mas foram raros os que perceberam que o Tubaína também faz um comentário acrimonioso a respeito daqueles que, tão presos ao próprio umbigo quanto os americanos, embarcaram na sugestão de que Birigui é o centro do mundo. Nisso, que poderia ser chamado de megalomania caipira – uma das grandes especialidades do Tubaína – residiria a sátira mordaz do grupo.

Tome-se, a título de exemplo, uma canção polêmica, De Queluz eu não passo, manifesto anticarioca que em 1994 rendeu ao compositor uma ameaça de morte pelo telefone. Na letra, um sujeito apaixonado diz que faria tudo pela amada:

Por você eu subo as montanhas de Campos do Jordão
Por você eu nado de Cananéia a São Sebastião.

Tudo, valei-nos o padre Manuel da Nóbrega, menos socializar com “essa moçada ishperta” – leia-se, os cariocas. A balada termina com um cândido:

Oh, baby
Por você tudo eu faço
Mas de Queluz eu não passo!

(Para quem faltou a essa aula de geografia: na Via Dutra, Queluz é o derradeiro bastião Paulista antes da fronteira com o Rio.)

***

Arrumar um baterista é o principal obstáculo à continuação da banda. Também seria bom descolar um canto para tocar. E talvez retomar o patrocínio da Iwamoto Produtos Alimentícios, fabricante das pipocas Gasparzinho, que a cada show fornecia 300 pacotes do produto para distribuir à buliçosa plateia.

Até 2007, o Tubaína se apresentava mensalmente no Dinossauros Rock Bar, no bairro paulistano de Pinheiros. Na época, tinham um baterista de carne e osso, Felício Imprevisto, assim alcunhado por faltar seguidamente a compromissos devido a “um imprevisto”. Pararam de tocar justamente por isso: era impossível compor novas canções sem um baterista que comparecesse aos ensaios. “O baterista que não é chato, toca razoavelmente bem e está disponível é como o dragão na garagem do Carl Sagan: não existe”, ensina Mancha.

Mancha continua a ser o pilar da banda, o Domingos Jorge Velho a desfraldar a heroica bandeira das treze listras em plagas inóspitas. Até os últimos dias, era ele quem marcava as apresentações, divulgava o grupo e arcava com o prejuízo. Num determinado momento, chegou a tirar do próprio bolso 1 500 reais por show. Era uma produção grandiosa, que exigia palco, cortinas, figurino, camarim e cotonetes gigantes. Como apresentar o Rap do Império Romano sem uma toga de César? Trata-se de uma canção histórica, que narra a “parada que começou com a bronca de dois manos”, leia-se, Rômulo e Remo. Roma vira Império e, certo dia, acontece o pior: “Eles empataram César na escada da quebrada.” Ao perceber o fim, o Imperador se vira para Brutus e exclama a questão imorredoura: “Até tu, que era meu truta?”

Mancha desistiu de viver do Tubaína. “Quando lancei o primeiro CD, ainda tinha esperança de virar músico profissional, mas aí descobri como o mundo das gravadoras é nojento e decidi que aquilo não era pra mim”, diz. Chegou a participar de reuniões com grandes selos, mas os executivos queriam transformar a banda numa cópia dos Mamonas Assassinas. Diziam coisas como: “Vamos botar um vocalista bonitinho”, “Eu quero que vocês cantem essas músicas todas com sotaque nordestino”, “Botem mais palavrão nas letras.”

A saída foi desistir do estrelato e continuar a compor canções que incluem a palavra “queijadinha”, ou épicos como Deus e o diabo em Sorocaba, sobre uma partida de gol a gol entre o Criador e o Coisa-Ruim, que se cruzam em plena Vila Hortênsia.

É com essa verve, e com tremebundo amor à Terra de Piratininga, que o Tubaína prepara a sua volta. O show de reestreia será, é claro, em São Paulo, mais uma vez no Dinossauros Rock Bar, no dia 29 de outubro, às 22h22 em ponto. Estará presente até o baterista Luiz Felício Imprevisto (salvo se lhe ocorrer um imprevisto).

O Verão do Chibo – Canto dos Livros

Posted: 30th agosto 2010 by Vanessa Barbara in Clipping
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Canto dos Livros
30 de Agosto de 2010

por Rodrigo Casarin

Viram que contei no último post sobre minha ida à Bienal do Livro de São Paulo e falei dos livros que comprei? Pois bem, o primeiro que escolhi para ler foi O Verão do Chibo. Excelente opção. Leitura rápida, gostosa, que flui facilmente. Suas 120 páginas podem muito bem combinar com uma tranquila tarde passada numa rede, por exemplo.

Resumidamente, o livro narra a história de uma criança de férias, que percebe que as coisas já não são mais como eram antes. Muitos dos seus amigos não querem mais se divertir com as antigas brincadeiras. Os mistérios que os instigavam agora não parecem mais tão interessantes. O universo lúdico que criaram parece abandonado. E, o mais importante, seu irmão mais velho, o Chibo, não é mais a mesma companhia de outrora.

Mais do que uma boa leitura, O Verão do Chibo é uma excelente reflexão sobre o crescimento. A emoção presente nas passagens narradas e nos pensamentos da criança é de deixar o leitor, no mínimo, comovido.

O romance foi escrito a quatro mãos, duas de Emilio Fraia e duas de Vanessa Bárbara, uma das minhas escritoras preferidas dentre aquelas (e aqueles) que são considerados a nova safra da literatura nacional, e que já teve livro analisado e até deu entrevista aqui para o Canto dos Livros.

Os suricatos: poder e cobiça

Posted: 29th agosto 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Se Fredo e Vito Corleone coçassem as costas com os pés; se Carmela Soprano comesse larvas de insetos; se Ray Liotta fosse o chefe da máfia de Kalahari e se Donnie Brasco tivesse o focinho pontiagudo, poderiam ser os protagonistas de “No reino dos suricatos”, série do Animal Planet que tragicamente parou de ser exibida no país.

Produzida pela Oxford Scientific Films, a novela estreou em 2005, misturando gravações de câmeras ocultas com uma narração essencialmente dramática. Para quem está por fora, suricatos são mamíferos de 30 centímetros de altura, da família dos mangustos.

A abertura da série tem um quê de “Maria do Bairro”: apresenta os personagens como “a rebelde Tosca”, “o intrépido Mitch”, “o pequeno e corajoso Shakespeare”, “o encrenqueiro Houdini” e “o vilão Hannibal”, todos eles animaizinhos ansiosos e alertas.

Ao longo da saga, o clã dos Whisker tem seu Michael Corleone, que no caso é uma suricata fêmea chamada Flower. A semelhança é clara: o especial “No reino dos suricatos: O começo” é praticamente uma refilmagem de “O poderoso chefão”, só que com suricatos. Em 75 minutos, mostra a ascensão e queda da matriarca guerreira, com direito a amores proibidos, expulsão da família e posterior redenção.

O filme parte do nascimento de Flower, “a escolhida”, e passa pela trágica morte de sua irmã Petal, numa cena de suspense que nada fica devendo aos grandes mestres do gênero. Introduz o andarilho Youssarian, galã da novela e membro do clã inimigo. “Uma coisa é preciso reconhecer: Youssarian é completamente sem noção”, diz o narrador, acerca das conquistas amorosas do efusivo mangusto. Pois ele tem um irmão, o lépido Zaphod, que acaba faturando a mocinha – visto que é justo, reto e polido. O antropomorfismo é tolo, mas isso não faz a menor diferença.

Como nos melhores filmes de gângsteres, os Whisker têm que disputar seu território com a família Tattaglia dos suricatos: os mesquinhos Lazuli, que são parentes do novo amor da heroína. A essa altura, quase ouvimos os heróis dizerem algo como: “Flower, você é minha irmã e eu te amo. Mas nunca fique contra a família de novo. Nunca”.

Então eles mordem as próprias patas e saem para caçar minhocas.

Perfil no blog Casmurros

Posted: 26th agosto 2010 by Vanessa Barbara in Clipping

Blog Casmurros
26 de agosto de 2010


Qual foi o primeiro livro que você leu e que teve impacto sobre você?
Foi uma coletânea de contos dos Irmãos Grimm, uma série de livrinhos de bolso bem pequenos e com as letras minúsculas, que traziam histórias atrozes como a das irmãs “Olhinho, Doisolhinhos, Trêsolhinhos”, que tinham cada qual a quantidade de globos oculares que apregoavam. Lembro de uns contos sobre uma moura demoníaca que ficava nua em cima de uma árvore segurando uma abóbora (?), do menino teimoso que morreu e seu bracinho ainda tentava sair da terra, e, enfim, de uns contos de fadas que envolviam salvar princesas mediante a execução de tarefas sem sentido, tipo matar uma cobra de três cabeças e pegar um ovo dentro do mar.

Alguma vez você considerou a hipótese de não ser escritora?
Claro! Eu quis ser caixa de supermercado (botões que abrem gavetas!!), secretária (adoro ordem alfabética), dançarina, astronauta, antropóloga, poeta e jogadora de vôlei. Entre outras coisas. Até hoje ainda finjo ser várias coisas, como tradutora, repórter, cronista e revisora de legendas de filmes em polonês.

Na sua opinião, todas as histórias já foram escritas ou ainda é possível criar novas histórias? Há novas formas de contar histórias?
A história sobre a menina que morreu de tanto beber água ainda não foi escrita. E a do homem que não tinha nuca (se bem que o Saramago…). Sempre há novas formas de contar histórias já conhecidas. A minha piada preferida, por exemplo, é a seguinte: “Era uma vez um porquinho que tinha uma perna só. Ele foi se coçar e caiu.” Numa das mais recentes versões, o referido suíno foi tratar do eczema, encontra dificuldades no consultório por questões de carência do plano de saúde, resolve lutar pelos direitos dos deficientes, se apaixona por um quilo de presunto etc.

No que você está trabalhando agora?
Estou trabalhando numa graphic novel (HQ) chamada “A Máquina de Goldberg”, em parceria com o Fido Nesti, que será publicada pela Companhia das Letras. Terminei um infantil chamado “Endrigo, o Escavador de Umbigos”, em parceria com o Andrés Sandoval, que sairá pela editora 34. E, por fim, estou escrevendo um romance, em parceria comigo mesma, chamado “Noites de Alface”.

Quem são os seus escritores favoritos com mais de quarenta anos?
Eles podem ter muito mais de 40 anos? Eu gosto de Gustave Flaubert, Jorge Luís Borges, Marcel Proust, Franz Kafka, Lewis Carroll, Lawrence Sterne, Júlio Cortázar, J.D. Salinger, Edgar Allan Poe; de Rubem Braga, de Carlos Drummond de Andrade, de Luis Fernando Verissimo, dos jornalistas literários (Michell, Talese), de HQ (Will Eisner, Fone Bone, Spiegelman).

*Ilustração: Nathália Lippo.