Uma catraca para a fama

Posted: 22nd agosto 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Foi por razões acadêmicas que me propus a resenhar o programa “Busão do Brasil” (Band), tendo publicado um livro-reportagem sobre o Terminal Rodoviário do Tietê (O Livro Amarelo do Terminal), e ciente de minha condição de especialista em questões de transporte coletivo.

Nessa atração, o primeiro reality show itinerante da TV brasileira, doze participantes ficarão confinados num ônibus que percorrerá 4 mil quilômetros, com paradas em 16 cidades diferentes. O prêmio é de 1 milhão e será entregue no destino final, São Paulo, em outubro.

A despeito das elevadas expectativas, foi impossível assistir até o fim. As brigas violentas por uma lata de leite condensado, a falta absoluta de graça/interesse e a supremacia da lycra no vestuário dos participantes acabaram impossibilitando a empreitada.

Diante desse revés, apresento aqui minha sugestão para um reality show dentro de um coletivo, que se passaria durante uma viagem do 701-U, Jaçanã – Butantã/USP, onde, a exemplo da atração da Band, “o psicológico fica lá em cima” e “é preciso ser um guerreiro”.

Os participantes do reality serão 38 pessoas sentadas e 74 em pé, que terão que conviver por 2 horas e meia com um fardo de tecidos, uma samambaia e dois travesseiros carregados por uma senhora que, antes de sair, exagerou no perfume.

Durante o programa, o cobrador ficará encarregado de assuntar com as celebridades, fazendo perguntas íntimas, eliminando os que param na porta sem a intenção de descer e anunciando provas-relâmpago, como a do “um passinho pra frente, por gentileza”, que acontece sempre que um novo membro tenta embarcar.

A prova mais temida da atração, porém, ocorre quando alguém cochila e perde o ponto. Ela se chama: “Vai descer no próximo” e é de um suspense insuportável – o pobre coitado tem que se acotovelar entre sacolas de mercado, canos de PVC e uma patrulha de escoteiros, vencer a catraca e se arremessar em direção à saída, quando então descobrirá que é tarde demais e que o programa chegou ao fim: o ônibus pifou e os passageiros ganharam como prêmio uma caminhada noturna pela avenida Guapira.

Aí começa outro reality show, inspirado em “No Limite”.

Discípulos de Bottini

Posted: 15th agosto 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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“Compre! Compre! Compre!”, dizia Ciro Bottini no canal de vendas Shoptime, pedindo “música para quem ligou a tevê neste momento”.

Naquela época, o célebre apresentador aprovava os produtos com o selo de qualidade do dedão e dialogava com a dona de casa, fazendo ele mesmo a pergunta (com voz fina) e respondendo logo em seguida: “Mas, Bottini, dá pra passar as fotos para o computador com essa câmera digital?”.

Era irresistível. Ainda que fosse um multiprocessador de 20 quilos que brilhava no escuro e triturava coturno, dava vontade de ter um em casa.

A moda começou com Luiz Galebe, que, em 1987, fundou o programa “Shop Tour”, na época veiculado só de madrugada. Hoje há dezenas de atrações similares. A mais conhecida é o “BestShop TV” (Gazeta), que chega a ter cinco horários ao longo do dia. (Um deles vai das 22h30 às 6h.)

No catálogo, garbosas máquinas de fazer pão, panelas elétricas de arroz, massageadores e aparadores de pelos. Não há nada mais zen do que assistir ao programa sem um telefone por perto, alternando com o infomercial da escada articulada que pode ser montada em até 14 posições e o aparelho de fitness que dá choque na barriga enquanto você trabalha no escritório.

As apresentadoras são loiras, têm as unhas cintilantes e articulam exageradamente as vogais, como se estivessem falando com um vaso de plantas. Enaltecem os utensílios de cozinha e, não raro, derrubam comida no chão ou deixam queimar a bisteca. Conversam o tempo todo com o sonoplasta e se referem aos vegetais folhosos como “taliças”.
A fim de convencer a dona de casa, proferem frases como: “O alumínio sabe espalhar o calor como ninguém”. Sobre os aparelhos de ginástica, dizem morbidamente que eles “liberam o corpo e a alma”, ao que alguém no sofá de casa faz o sinal da cruz.

Para esses profissionais da persuasão, aparelhos pequenos são “compactos”, estampagem cafona é “alegre” e até um simples prato está equipado com “tecnologia pura”.

É o que nos resta na madrugada: ver como fazem os apresentadores para vender um inseto de pelúcia “divertido e colorido”, um tocador de MP4 com rádio-relógio e um bafômetro – todos no mesmo lote, numa promoção bombástica de 6 parcelas de 49,99.

Folha de S.Paulo – Ilustríssima
15 de Agosto de 2010

Muito além da sarcoidose

Posted: 8th agosto 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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À exceção dos médicos, ninguém se importa com a questão da verossimilhança na série “House” (Record, qui. à 0h15; Universal Channel, qui. às 22h). Nela, o protagonista age como um detetive, elucidando diagnósticos complexos em seu hospital.

A despeito da respeitável média de casos solucionados, o dr. Gregory House não é o melhor dos médicos para se consultar.

Primeiro porque o sujeito é internado com uma leve coriza e sai de lá com a doença de Creutzfeldt-Jakob, num prognóstico otimista de 45 minutos de vida. Além do mais, não há moléstia neste planeta que lá não se cure com uma boa punção lombar, farta exposição à radioatividade ou um amputamento randômico.

Isso quando não se desmaia de repente e, no hospital, acabam te induzindo ao coma e a uma biópsia cerebral, para então revelarem a sua verdadeira condição de hermafrodita.

O momento mais marcante da série, porém, não envolve a inoculação proposital de malária num paciente, mas a internação do próprio dr. House num hospital psiquiátrico, logo no início desta temporada.

O episódio duplo já começa desolador, exibindo imagens desfocadas da desintoxicação de House. Em seguida, ele sai raivoso do confinamento, alimentando a claustrofobia e a paranoia dos colegas só para ganhar uma partida de basquete.

A uma moça deprimida, pergunta casualmente se ela cortou os pulsos e, ao ser repreendido, diz: “Desculpe, o suicídio é assunto proibido? Droga, acabo de entrar e já quebrei uma regra. Acho que vou me matar”.

Com o tempo, porém, ele desenvolve uma afeição curiosa pelo colega de quarto, Alvie, um ruidoso rapper bipolar, o que culmina com sua participação num show de talentos. Quando Alvie sobe ao palco e esquece o que rima com senil, o dr. House grita, da plateia: “Meu colega de quarto é um imbecil”.

No ritmo, Alvie pergunta a House o que fazer para melhorar. A resposta é certeira: participar de um show de talentos.

De um modo muito mais verossímil do que se poderia esperar, a redenção ali surge em pequenos momentos. Um deles é quando a gordinha tímida dança a macarena. O outro é quando Alvie olha pela janela e vê House partindo, com sua camiseta de carinha feliz.

Rugas de televisão

Posted: 1st agosto 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Muitas vezes, a TV nos faz envelhecer. Aqui em casa, há ocasiões em que permanecemos hipnotizados por horas a fio, sem conseguir desligar o aparelho, presos irremediavelmente num programa qualquer. Quando saímos do transe, é setembro e já temos bisnetos.

A atração pode ser ruim ou enfadonha, não importa. É comum escutar nossos neurônios estalando, fritando, cometendo suicídio. Ainda assim, por alguma razão, continuamos sintonizados.

A categoria de programas desnecessariamente longos inclui reality shows como “American Idol”, que até maio começava às nove da noite e ocupava toda a madrugada de sábado, no canal Sony. Há também os épicos infomerciais de cintas elásticas que se alastram pelos canais numa espécie de loop demente.

Na Record, houve uma edição do “Programa do Gugu” (dom., 16h às 20h) em que se construiu uma casa para uma espectadora. Tudo nos fazia acreditar que o processo era exibido em tempo real, pois o programa deve ter durado umas boas duas horas. Prego a prego.

Nosso novo entorpecente domiciliar é o “Tribunal na TV” (Band, sex., 23h15), programa que faz a reconstituição dramática de crimes polêmicos, sob a narração do jornalista Marcelo Rezende.

No dia 23, o caso era um homicídio por asfixia de gás, estrangulamento e afogamento de uma mulher grávida de 9 meses, perpetrado pelo próprio marido na banheira de hidromassagem. O apresentador, num texto exageradamente emotivo, lança mão de inúmeras pompas narrativas para criar suspense, antecipando as atrocidades que virão e pondo em dúvida o desfecho.

Um grupo de atores sui generis assume o papel de cada um dos envolvidos. Com a naturalidade de um filólogo parnasiano, eles dizem coisas como: “O que é um filho, senão o reflexo de um amor?”. Ou: “Ele nunca me inspirou confiança. Ora grosseiro, ora distraído”.

O crime é contado de forma fragmentária, cheia de saltos temporais, talvez com a intenção de manter o espectador mentalmente confuso, sem condições de se defender desligando o aparelho.

Foi o que houve conosco naquela sexta-feira. Ao fim do programa, acordamos do transe televisivo a tempo de botar nossas dentaduras no copo d’água e ir dormir, reclamando de um leve lumbago.

Um beijo para os meus familiares

Posted: 25th julho 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Espremer-se com um grupo de amigos a fim de caber no enquadramento e sorrir para a máquina fotográfica está entre as práticas mais degradantes do ser humano. Não há páreo para as pochetes, o telemarketing, as excursões a Porto Seguro, a podologia com ênfase em micoses, o vestido balonê.

Pior que isso, só os agrupamentos formados em torno de um repórter e uma câmera de TV, em geral na avenida Paulista. É quando o indivíduo perde de vez a noção do ridículo, decidindo espontaneamente que vai fazer “poropopó” vestido de esquilo durante uma passeata em comemoração ao Dia Mundial da Vergonha Alheia.

“O repórter Fulano de Tal está com a colônia alemã em Blumenau, é com você, Fulano”, anuncia o apresentador no intervalo de uma partida da Copa, e corta para um correspondente tentando encaixar o ponto na orelha.

Em questão de segundos, ele dá a deixa para a galera (entre eles, o homem vestido de esquilo), e o que era até então um bate-papo entre cinco senhores pacatos vira uma balbúrdia concentrada diante da tela. Ao que tudo indica, é o momento mais empolgante da vida daqueles alemães – todos tocando fole e com vestes típicas.

É ainda mais triste quando o evento só existe em função das emissoras ali presentes. Alguns câmeras de TV costumam liderar marchas de protesto e dirigem as massas, solicitando que parem, voltem, façam tudo de novo. “Estamos ao vivo”, ele informa, e os populares fazem a festa, com os “urrús” de praxe. “Corta”, ele diz, e todo mundo vai pra casa cuidar de seus afazeres.

Os closes na gente simples do povo, no popular exaltado e na viúva inconsolável deviam ser proibidos por lei. A gracinha final da repórter de tailleur afetando intimidade com o entrevistado podia muito bem dar cadeia, sem direito a sol no pátio.

Gente que acena para as câmeras, olhando de esguelha para ver se a gravação já acabou: três meses de trabalhos forçados. Dançarinas sorrindo e rebolando com vistas a se destacar das demais: Sibéria nelas. Populares indignados querendo aparecer: extração dentária com chave de grifo.

Quanto aos repórteres, a única punição suficientemente rigorosa é o voto de silêncio.

Gordinhos no Pantanal

Posted: 18th julho 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Dos dezoito últimos temas abordados pelo programa “Globo Repórter” (Globo, sex. 22h), 38% pertenciam ao escopo da saúde, práticas alternativas e hipertensão. Outros 33% se referiam à vida selvagem. Há também a categoria “países exóticos” (16%), “psicologia materna”, “Doutores da Alegria” e “Chico Xavier” (os 13% restantes).

No “Câmera Record” (Record, sex. 23h), o programa de documentários da concorrência, o Pantanal apareceu duas vezes nos oito últimos episódios. Substanciais 37% foram devotados à saúde e alimentação. Porém, no dia 9 deste mês, ocorreu na emissora um feito digno de alarde: um especial que unia a vida selvagem às dicas de bem-estar. O título: “O Pantanal que salva vidas”.

Assistir aos dois de uma vez, um após o outro, é um exercício de resistência.

Naquela ocasião, na Globo, o assunto era a Amazônia. Logo de início, a câmera focalizou o repórter camuflado em meio à folhagem. Como era de se esperar, ele caminhou até chegar num ponto, onde mostrou ao espectador uma dicotiledônea com propriedades miraculosas e/ou cicatrizantes. “Por essas bandas é assim”, disse a narração, sempre criativa.

Por exemplo: os índios são chamados de “guardiões de toda a sabedoria”, a floresta é “cheia de mistérios” e a chuva “chega sem avisar”. Depois de um intervalo comercial, também sem avisar, o foco passou para a Nova Zelândia, do que se conclui que deve ter havido um saudável aproveitamento de material.

Nesse tipo de programa, a figura do repórter só serve para fazer gracinhas, apontar-e-mostrar zebras na paisagem e ter experiências antropologicamente desastrosas.

Enquanto isso, na Record, o tom era parecido, mas menos previsível. Um sujeito decidiu comer uma aranha e disse que tinha “gosto de caju”. Um pantaneiro descalço aceitou usar sapatos. Há um close ousado num tatu fedido.

Com vistas a contribuir para a fertilidade da imaginação dos produtores, aí vai uma lista de novos temas para os programas: aftas. O mecanismo das roldanas. Aqualoucos. Pelota basca. Tartarugas brutais. Gota. Extraterrestres. Metafísica aplicada. Código Morse. Ou partam logo para um especial sobre gordinhos hipertensos no Pantanal lendo Chico Xavier e domando zebus.

Detetives pouco selvagens

Posted: 11th julho 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Ele tem medo de germes, agulha, leite, morte, cogumelos, altura, multidões, elevadores, coisas redondas, lençóis e filhotes (nessa ordem). Também evita o contato com liquidificadores e abelhas – e com abelhas em liquidificadores.

Adrian Monk, o detetive menos destemido de San Francisco, finalmente desvendou seu principal caso, após oito temporadas tentando descobrir quem matou a esposa Trudy, na série “Monk”.

Nesse período, mesmo sendo dependente de lencinhos de limpeza e sofrendo de um severo transtorno obsessivo-compulsivo, ele conseguiu resolver 125 crimes. Venceu os meliantes mais durões e encarou sérias ameaças, embora tivesse pânico de joaninhas. (“Tem natureza nas minhas mãos!”, ele grita, após se sujar com terra.)

Adrian Monk é a prova televisiva de que as limitações pessoais podem ser contornadas e até transformadas em qualidades – “é um dom e uma maldição”, afirma. Ele costuma dizer: “Você vai me agradecer mais tarde”, enquanto desinfeta uma evidência ou alinha os pés do cadáver.

Monk usa sua patológica fixação pelos detalhes para identificar o que ele chama de “peças fora do lugar” na cena do crime. “Esta sala é um pesadelo do feng-shui!”, reclama. Para ele, tudo precisa fazer sentido. Por mais que, na vida cotidiana, essas minúcias quase o tornem incapaz, são elas que lhe dão vantagem durante a investigação, convertendo suas fraquezas em forças.

Outro grande exemplo desse paradoxo é o detetive Columbo, da série homônima, a quem ninguém dá a mínima porque é vesgo, malvestido, descabelado e confuso. É justamente esse o seu método de solucionar crimes: aproveitando-se da arrogância alheia.

Quanto mais poderoso o assassino, mais superior ele se sente e, assim, tenta didaticamente trazer o pobre detetive à luz. É aí que Columbo, prestes a sair da sala e agradecer pelas informações – para alívio do suspeito -, diz: “Só mais uma perguntinha”. E desmonta o caso.

Em suma, ambos são “o oposto do Batman”, têm olho de vidro ou podem surtar diante de inofensivas gaitas, mas, no final, levam a melhor. Com todas as peças do homicídio encaixadas, Monk pode, enfim, descansar. “A menos que eu esteja errado, o que, você sabe, eu não estou…”

Campeões de audiência

Posted: 4th julho 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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A cada programa de TV que vai ao ar, dúzias de projetos sem nexo ou possibilidade de audiência são rejeitados. Pois a série “Campeões de Audiência” (Canal Brasil) aposta justamente nesse rico filão. Em treze episódios, o ator e diretor Michel Melamed desenvolve 26 ideias que canal nenhum, em plena e sã consciência, teria coragem de produzir. “São programas com temas tão estapafúrdios que nem traço no Ibope tentarão”, explica.

Se algumas dessas ideias são pretensiosas, outras mereciam ir imediatamente para o horário nobre. Como o “Game do Fodido”, em que dois pobres-diabos disputam para ver quem é o mais desafortunado. “Eu mesmo não almocei”, observa Melamed, gabando-se. Um dos concorrentes é mudo, tem pontes de safena, tifo, tumor, lepra e nome no SPC. O outro é cego, tem asma, arteriosclerose, tétano, tuberculose e tentou o suicídio oito vezes. Como se não bastasse, é judeu, negro e índio. Acirrada, a disputa seria resolvida nos detalhes (“Uma diarreia! Piolho! Unha encravada!”).

Há programas que certamente enriqueceriam nossas tardes: “Joelho TV” faz do salgado de presunto e queijo uma estrela. “Aqua Mondo” exibe uma degustação de águas com celebridades. “TV TV” é um debate aberto ao público num sofá no Largo da Carioca.

“Favela Planet”, por sua vez, é um especial de viagens dedicado às periferias. “Agora a gente vai pegar o bondinho e encontrar o Guedes”, ele anuncia, no Morro de Santa Marta, cujos principais pontos turísticos são a laje do Michael Jackson e a imagem da santa. “Quais são as opções de estadia por aqui?”, ele consulta um morador, com o guia na mão.

Já o programa “Os Melhores Açougues, Arames Farpados e Solos de Bateria do Mundo” é exatamente o que diz o título. “Celebrity Sono TV” entrevista atores como Rodrigo Santoro, que dá um boa-noite literal à câmera e passa cerca de 6 minutos dormindo em rede nacional.

“As Mais Belas Lágrimas do Mundo” passa a receita do kit choro: cebola, cânfora, colírio e cuspe. O convidado Matheus Nachtergaele é pedido para interagir com um pneu e se emocionar. “Eu pensei em começar dizendo: ó, pneu, quanto você já rodou. Mas depois eu percebi que você é novo”, diz, inconsolável. E chora.

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Piauí n. 46
Julho de 2010

por Vanessa Barbara

Duelo de mentes em visita noturna ao aquário

“Quando eu era menor, queria ser paleontólogo”, diz Andrei, de 5 anos. Naquela época, ele era tolo e ingênuo. “Hoje eu quero ser biólogo marinho”, anuncia, diante de vinte pessoas e um atento cardume de ciclídeos.

Com seu conhecimento enciclopédico adquirido via Google e documentários do Discovery Channel, Andrei foi a grande atração daquele sábado à noite no Aquário de São Paulo, localizado no bairro do Ipiranga, não longe do riacho que?- dizem?- ouviu d. Pedro i declarar a nossa independência ou morte. O aquário abriu as portas para passeios noturnos há um ano e meio. Na noite em questão, os funcionários recebiam um grupo fechado de 100 visitantes que se dividiram em cinco turmas de vinte pessoas, cada qual com seu monitor.

À encarregada do grupo de Andrei?- Fernanda, aluna do penúltimo ano de biologia?-, coube a tarefa mais difícil da noite: responder às dúvidas do curioso petiz. Durante a chamada oral, Andrei fez perguntas sobre classificação taxonômica, principais predadores lacustres, dimorfismo dos ciclídeos, coloração das rãs Xenopus e até acasalamento písceo. “Esse menino é muito precoce”, constata uma visitante, logo antes de se dar início ao percurso de aproximadamente 75 minutos.

A monitora confessa: “Meu Deus, estou tomando um banho! Eu vou levar você para a minha faculdade, Andrei!” Cogitou-se a hipótese de o menino ministrar uma aula magna para a turba ignara de universitários, em troca do que ele seria agraciado com o título de doutor honoris causa, o que talvez provocasse muito berro e gritaria entre os pares da pré-escola.

O passeio começou com a distribuição de minilanternas aos visitantes. Em seguida, um a um, os grupos penetraram nos mistérios do museu. Mistérios que já se faziam presentes na primeira seção visitada?- a dos mamíferos -, pois, a despeito do nome, o Aquário de São Paulo não abriga apenas peixes e animais aquáticos entre os seus 3 mil hóspedes. Há, por exemplo, um filhote de lontra neotropical, um bando de macacos bugios, um tamanduá-mirim de nome Lipe, um lobo-marinho bastante sociável e inúmeros tucanos-toco.

Foram eles os primeiros a receber o público, às 20 horas em ponto, já que possuem hábitos diurnos e precisam dormir cedo. Logo de início, uma decepção: “Aqui temos o lobo-marinho”, anunciou Fernanda diante de um monte de pedras e folhas e um tanque de água absolutamente vazio. “Ele está deitadinho no canto, ali em cima”, ela tentou apontar. Os feixes de luz bem que arriscaram uma varredura, mas nada se viu além de uma sombra indistinta. Talvez secretamente entediado, Andrei aproveitou para informar aos leigos que, na África, o predador do lobo-marinho é o tubarão-branco.

Surge então a estrela animal da noite: o bonachão Tapajós, que nada em círculos e come escarola. É um peixe-boi de 113 quilos e 2 metros de comprimento, o primeiro exemplar do mundo a ser exibido em cativeiro. Tapajós reside num tanque de 1 milhão de litros de água, o principal do aquário, e divide a moradia com bagres, jaús, tambaquis e pirarucus. A temperatura é mantida entre 25 e 27 graus, como na Amazônia.

Para gáudio de Fernanda, Andrei, embora soubesse que o peixe-boi é um mamífero, desconhecia certos aspectos do pirarucu. “O pessoal da Amazônia usa a língua dele como ralador porque é áspera e rala mandioca e queijo… as meninas usam as escamas para lixar a unha”, contou, satisfeita por poder ensinar alguma coisinha ao menino. Ele ouviu com atenção, mas deixou claro que sabia, desde muito, que os pirarucus comem piranhas, o que deslustrou um pouco a alegria da moça. E também não pareceu se espantar com a existência do peixe-gato, um tipo que tem bigodes parecidos com o dos felinos.

***

Decerto em conluio com o lobo-marinho, a pequena lontra também se recolheu a seus aposentos e não deu o ar da graça. A atitude foi imitada pelos bugios. Mas Andrei estava em missão científica e nada susteria sua empolgação. O tamanduá-mirim lhe pareceu uma maravilha, apesar de ele não conseguir enxergá-lo muito bem. Fernanda fremiu de prazer antecipado ao perguntar: “Alguém quer adivinhar o que o tamanduá toma para substituir o leite da mamãe?” Ah, Andrei não sabia, não! Sem demora, ela revelou: “Da-no-ni-nho! Com frutas! Batido no liquidificador!”

Quando era, digamos, menos maduro, Andrei gostava era de dinossauros. Aos poucos foi se apaixonando pelos peixes, a ponto de obrigar a mãe a peregrinar por todos os aquários do estado. A família mora em São José dos Campos, a 91 quilômetros da capital paulista. No dia da visita noturna, Andrei havia acordado no hotel às seis da manhã e arrastara a mãe e a avó para o zoológico e o Zôo Safari. Além do Aquário de São Paulo, ele já visitou o de Santos, o de Santo André, o de Ubatuba, o do Guarujá e o de Aparecida. Seu preferido é um do Japão, país que ainda não teve oportunidade de conhecer; por enquanto, contenta-se em explorar o remoto aquário via internet.

Andrei seguiu trocando considerações com a monitora por entre tanques de lambaris, tubarões, jacarés, piranhas, pinguins e garbosas tartarugas. Discordou veementemente da alegação de que a píton seria a maior cobra do mundo, desbancando até mesmo a sucuri: “Não é! Eu já ouvi falar de uma maior! É a cobra-grande!” Quando Fernanda admitiu que nunca tinha ouvido falar de cobra-grande, imediatamente espalhou-se o boato de que Andrei acabara de descobrir uma nova espécie. Todavia, até cientistas grandes falham?- e dessa vez o pequeno estava errado. A píton era mesmo a maior cobra do mundo; a candidata de Andrei vinha em segundo lugar.”Cobra-grande” era apenas um outro nome para a sucuri.

Ciente de que percalços fazem parte da vida do pesquisador, Andrei não esmoreceu e continuou a responder corretamente às perguntas da monitora. Sim, o cascudo come sujeira, as tilápias são ciclídeos, alguns tubarões são ovovivíparos, e, se as tartarugas às vezes engolem sacos plásticos, é porque os confundem com águas-vivas.

Ele achou por bem informar que seu peixe preferido era o baiacu e perguntou se a monitora já ouvira falar de “arraia-pintada”. Sim, ela conhecia. E peixe-lua? E salamandra gigante? E peixe-arqueiro? Recebendo finalmente uma resposta negativa, o rapaz explicou: “O arqueiro é um peixe que cospe água e derruba os outros de longe.” Ponto para Andrei, que, a propósito, já comeu tatu.

O passeio terminou com um jantar oferecido pelo museu. Não foi servido nenhum tipo de peixe.