A síndrome do excelente Effenberg

Posted: 27th junho 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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“Então os desbravadores europeus se espalharam para o centro da África e…”, discorreu Galvão Bueno, durante o modorrento confronto entre Inglaterra e Argélia, no último dia 18.

É nos momentos mais soníferos dos jogos mais mornos que os narradores esportivos têm que provar seu valor, entretendo os ouvintes com sua sabedoria aleatória. Naquela ocasião, discutiu-se a estampa florida da bermuda térmica de um dos atletas. Em seguida, Galvão declarou que o melhor em campo era o juiz do Uzbequistão.

Os locutores aproveitam o ensejo para lançar mão de todos os seus recursos de oratória. Uma seleção pode, por exemplo, “assimilar” o gol adversário e efetuar fortes passes “em profundidade vertical” (o popular chutão).

Em transmissões, é comum dizerem que o jogador “primeiro tentou na categoria, depois na raça”, ou seja, primeiro tentou roubar a bola, depois apelou para uma sangrenta voadora. Menciona-se a “desinteligência” do esquema tático para se referir à burrice do técnico, e o “bom humor da torcida” quando esta emite palavrões de fazer corar Edmundo, o saudoso Animal.

Entre as gafes históricas da narração televisiva está uma transmissão da Copa de 74 feita por um pool de comentaristas, entre eles Galvão Bueno. O trio narrava um ataque do time da Bulgária, quando a bola saiu pela linha de fundo e foi tiro de meta para a Suécia. Nesse momento, a câmera deu um close no placar do estádio: “Austrália 0, Alemanha Oriental 0”. Pânico na cabine.

Galvão Bueno não tinha nada a fazer senão continuar: “Vai a Austrália para o ataque e a Alemanha Oriental se defende como pode”, informou, numa locução esquizofrênica em que a Bulgária chutou por cima do gol da Suécia e quem bateu o tiro de meta foi a Austrália. Ambos tinham as mesmas cores de uniforme ­– amarelo de um lado e branco do outro.

Mas o maior tropeço ainda estava por vir. Na Copa de 94, conforme reza a lenda, um locutor colombiano se superou, entrando imediatamente para o cânone. Primeiro disse: “Stefan Effenberg está com a bola, que bom jogador é Stefan Effenberg… excelente Effenberg”.

E, logo em seguida: “Senhores, substituição no time da Alemanha. Entra Stefan Effenberg”. Silêncio incômodo.

Folha de S. Paulo – Ilustríssima
20 de Junho de 2010

As pilhérias literárias de Carlos & Carlos Sussekind

RESUMO O celebrado romance “Armadilha para Lamartine” (1975) é uma original e irônica reelaboração que Carlos Sussekind fez dos exaustivos diários de seu pai, que registram 30 anos de vida privada e política no Brasil. Dois jovens escritores visitam o autor e conhecem os divertidos diários de seu pai, que são a matriz de sua obra.

O escritor Carlos Sussekind na praia de Copacabana.

VANESSA BARBARA
ANDRÉ CONTI
fotos DARYAN DORNELLES

O CARIOCA CARLOS SUSSEKIND DE MENDONÇA FILHO, 76, é uma espécie de saci literário. Entre as traquinagens de sua lavra, a que mais lhe dá orgulho é a da “correspondência machadiana do além”, executada há cinco décadas.

O crítico Augusto Meyer nem era de seu círculo de amigos, mas, na condição de autoridade em Machado de Assis, tornou-se alvo da patuscada. Carlos escolheu, entre as valiosas cartas de Machado herdadas do avô (Lúcio de Mendonça, fundador da Academia Brasileira de Letras), uma que contivesse vagas menções familiares que pudessem passar como relativas a Meyer. Envelopou-a e remeteu-a ao intelectual, endereçada com pena Malet e nanquim, caligrafia rebuscada e o nome: “Joaquim Maria M. de Assis”. A brincadeira consistia em imaginar com que cara ficaria Meyer ao receber, pelo correio, uma carta endereçada a ele do punho de seu ídolo.

Carlos não tinha como saber das repercussões da pilhéria. Ao longo da entrevista concedida à Folha, numa tarde de ventania em Copacabana, o escritor fez revelações e admitiu que as brincadeiras, em sua maioria, tinham como objetivo conquistar teimosas donzelas. Foi o que ele quis com a carta de Machado para Augusto Meyer: impressionar uma moça da família do crítico.

Certa feita, namorava uma jovem marxista quando descobriu, entre os papéis do pai, um cartão manuscrito com os seguintes dizeres: “Desejo-lhe um feliz Natal. Ass.: Luís Carlos Prestes”. Sem vacilar, enviou-o à bem-amada, já que o cartão não trazia data nem o destinatário. Deu certo.

MAQUINAÇÕES Sua maquinação mais bem-sucedida, porém, é “Armadilha para Lamartine”, romance de 1975. A autoria é creditada a “Carlos & Carlos Sussekind”, já que o romancista se baseia no diário do pai, proeminente jurista de mesmo nome. Sussekind Filho adulterou passagens, trocou nomes de pessoas, situações e referências, compondo uma narrativa meio ficcional e meio verdadeira, que se concentra em acontecimentos referentes ao ano de 1955.

A crítica da época foi positiva e o livro ganhou notoriedade entre leitores seletos, que o julgaram extraordinário. No posfácio, o escritor e psicanalista Hélio Pellegrino declara que, “do ponto de vista de sua estrutura, o romance apresenta o rigor e a elegância formal de uma partida de xadrez, jogada por um mestre”. A poeta Ana Cristina Cesar o chama de “livro único na ficção brasileira”. A crítica de literatura Leyla Perrone-Moisés aproxima-o de Machado de Assis, no que diz respeito à temática e ao uso da ironia.
Em seu conteúdo, os fatos narrados na “Armadilha” são quase todos verídicos, por improváveis que sejam, e o mesmo se pode dizer dos demais livros do autor: “Ombros Altos” (de 1960, reeditada em 2003 pela 7Letras), “Que Pensam Vocês que Ele Fez” (Companhia das Letras, 1994) e “O Autor Mente Muito” (Dantes, 2001), este escrito em parceria com o psicanalista Francisco Daudt da Veiga -que afirmou que a “Armadilha” é “a mais fiel das autobiografias, ou seja, tudo é inventado”.

Até os mínimos incidentes são confirmados pelo autor, que, portanto, mente muito menos do que se poderia supor. O título de seu próximo romance, se existisse, seria “Não sou quem eu era, não sei quem eu sou”.

OBSESSÃO Todos os livros de Carlos Sussekind, o filho, partem da mesma obsessão: o diário escrito pelo pai, Carlos Sussekind de Mendonça (1899-1968), respeitabilíssimo corregedor de menores do Tribunal de Justiça, autor de obras como “O Sport está Deseducando a Mocidade Brasileira” (1922), “Norma Talmadge e a Expressão das Emoções na Cinematographia Americana” (1923) e “Algumas Suggestões à Educação Sexual dos Brasileiros” (1927). Um sujeito sério, portanto.

Com a mesma diligência que dedicava aos processos despachados em sua “varandola-gabinete” (a varanda de um apartamento em Copacabana), ele manteve, ao longo de 30 anos, um registro ultradetalhado de seu cotidiano, que abarcava temas tão díspares quanto os bloqueios intestinais de seus entes queridos, o preço da carne, a saúde do papa Pio 12, as belas gengivas da nova Miss Brasil, os discursos de Carlos Lacerda no rádio, a queda de Perón, a bomba atômica e a campanha de Juscelino à Presidência.

A herança está guardada até hoje nas estantes de Carlos Sussekind, o filho: aproximadamente 70 volumes em capa dura, preenchidos com caligrafia segura, caprichada e absolutamente sem rasuras. A obra completa tem cerca de 30 mil páginas e é entremeada por prosaicos recortes de jornal, em que figuram as obsessões do jurista. Retratos da atriz Gina Lollobrigida alternam-se a instantâneos do líder comunista Ho Chi Minh e da família na praia.

Nesse épico da vida privada, o dr. Sussekind fala sobre seus hábitos matutinos, suas idas à farmácia, as desavenças familiares e como tem passado a noite. Num dia, diz que a mulher “sofreu as consequências da comida com vinagre que tivemos ontem à noite”. Noutro, relata ter sido “forçado a dar expansão a uma acumulação extraordinária de gases no intestino”. E dá detalhes: “Fi-lo com o mínimo de ruído possível. Mas o Lamartine ouviu, apesar de tudo. E foi certificar-se do que era, imprudência que lhe custou caro ao olfato”. Lamartine é a persona literária do filho.

BONS IMPULSOS O diário é o relato de uma vida sem sobressaltos, metódica e implacável, que parece “não corresponder aos bons impulsos” de quem a descreve. O jurista se ocupa de questões comezinhas e vive sempre com a impressão nítida de haver deslocado alguma costela ou apanhado uma virose fatal: “Quero fixar bem esses detalhes para amanhã auxiliar o meu possível médico assistente, se não a me curar, pelo menos a me passar um atestado de óbito decente.”

O dr. Sussekind fala do seu peso, sempre acima do que gostaria, e dos filmes a que assiste no cinema, como um com Jane Russell, “o maior abacaxi de todos os tempos. Houve, até, vaias. E, para isso, sai um homem de casa, com sua esposa, luta por condução e perde a sua noite, tão digna de melhor emprego!”.

De sua “varandola-gabinete”, ele dá notícias sobre as mais divertidas insignificâncias da rotina, acalentando boas providências tais como: “Verificarei segunda-feira sem falta”, a respeito de uma disparidade de peso nas balanças de farmácia. Ou: “Hoje o dia foi de todo inexpressivo”. E ainda: “Noite besta, portanto”.

É na obsessão pela compulsão paterna que consistem os quatro livros de Carlos Sussekind, romances alegadamente ficcionais que se baseiam em anotações do diário e em patuscadas verídicas. “É muita besteira”, diz, sorrindo.

SANATÓRIO Concentrado nos anos de 1954-55, “Armadilha para Lamartine” relata os acontecimentos reais que levaram à igualmente real internação de Carlos Sussekind, então com 21 anos de idade, no Sanatório Botafogo. Preso no hospício e sem ter o que fazer, o rapaz fingia receber telepaticamente as páginas do diário do pai, identificado no livro como “dr. Espártaco”. Fez sucesso entre os colegas. “Eu tinha que arrumar um jeito de me divertir”, afirma Carlos, relembrando o acontecido.

O triste episódio que resultou em camisa de força aconteceu às 8h da manhã de 30 de junho de 1955. O rapaz passara a noite fora, “no número 418 da Barata Ribeiro”, mas voltou a tempo de tomar café com os pais, “no 326 da Gustavo Sampaio, apto. 901”. Na época, seus melhores amigos eram Alexandre Eulálio -futuro professor de teoria literária na Unicamp- e Joaquim Pedro de Andrade, diretor de “Macunaíma” e expoente do cinema novo. O que ocorreu em seguida continua nítido na memória de Carlos. Num ímpeto irrefreável, ele dirigiu-se à praia do Leme, a poucos quarteirões dali. Sem camisa, ganhou a avenida Atlântica. No calçadão, resolveu tirar o calção. Lá pela altura do Posto 1, já estava inteiramente nu. Caminhou em direção ao mar. Foi censurado pelos banhistas, que atiravam bolas de areia. Um garotinho chegou a oferecer-lhe o calção. Alguém chamou a radiopatrulha.

Na ocasião, Carlos/Lamartine afirmou que havia morrido e que estava felicíssimo, pois isso não lhe custara nada. Alegou depois que era Jesus Cristo e saiu correndo atrás da irmã, querendo atirar-lhe coisas (“Deteve-se, porém, quando chegou a vez de uma jarra mais pesada e mais custosa”). Sua expressão era abobalhada. Só hoje ele entendeu o que realmente houve naquela manhã, há mais de 30 anos. “Eu acreditava estar numa outra dimensão”, explica, com ar divertido.

ORIGEM Ao que tudo indica, a origem do surto foi um pensamento que teve, certo dia, enquanto passeava na areia de mãos dadas com a namorada, trançando um caminho entre as cadeiras dos bares da orla. “A gente passava andando e ninguém percebia, o que era bem esquisito”, lembra.
Pouco depois, para piorar, presenciou um diálogo entre seu amigo e o garçom de um boteco, em que ambos repetiam as mesmas palavras de forma desconexa, mas ninguém além dele parecia estranhar. “Aquilo só podia estar acontecendo em outra dimensão, foi a conclusão que eu tirei. A dimensão em que eu estava não era aquela em que as outras pessoas estavam”, justifica.

Foi com o intuito de comprovar essa tese que Carlos, tal como ele percebe hoje, despiu-se em plena praia do Leme -de início, as pessoas não pareciam se importar. Ao entrar no mar, seu objetivo não era exatamente morrer, pois “estava em outra dimensão”. Como resultado da peraltice, o futuro escritor, que nos diários é chamado pelo apelido de Caíco, passou quase dois meses num sanatório e chegou a ser tratado com eletrochoques (“Passava o dia inteiro com dor de cabeça”).

Enquanto isso, um sofrido dr. Sussekind intercala as novidades do noticiário à aritmética das despesas com a internação do filho. Na sua obsessão de descrever tudo, ele não tem como compreender o que se passa com Carlos/Lamartine. O livro se constrói na tensão entre o relato do drama familiar e a repercussão do suicídio de Getulio Vargas, em agosto de 1954, com os discursos radiofônicos de Carlos Lacerda, o que faz da “Armadilha” uma obra-prima do romance político.

Diz-se que uma das agravantes do surto foi, justamente, o fato de Carlos sentir-se aprisionado pela ação opressiva do pai, que impunha um controle absoluto sobre tudo e todos: a família, os colegas, a China comunista. “O mundo, o país e a cidade convergem para a casa, centro que se quer estável no olho do torvelinho”, atesta Leyla Perrone-Moisés, em artigo publicado no “Mais!” em 26/9/1993 e disponível em folha.com/ilustrissima.

ENCANTO & INVENÇÕES Em “O Autor Mente Muito”, Carlos afirma ter feito fama literária como um desses “malucos de carteirinha” que, após um único surto e consequente internação, “passam anos recordando o assunto, como se tivessem feito parte da campanha da Itália na Segunda Guerra”.

No livro, escrito a quatro mãos com seu próprio psicanalista, ele comenta que, após anos de terapia, foi dado como incapaz de distinguir entre ficção e realidade. Resolveu então ceder de vez e misturou à narrativa suas invenções mais encantadoras.

A principal delas é a “suprema leveza” – um circo com bailarinos de papel que é acionado por estática. O brinquedo é montado numa pequena forma de pizza, coberta por um papel-filme, e seus protagonistas são confetes que ele mesmo confeccionou com um furador de papel. Tal qual um feiticeiro, Carlos esfrega a manga da blusa no objeto e, surpresa!, os papeizinhos iniciam uma dança nervosa, colando-se ao plástico e se enganchando sofregamente. A namorada que ganhou o mimo não achou a menor graça. “Casou-se com outro”, ele reclama.

O MICO-PRETO O diário do dr. Sussekind é famoso por suas lacunas, silêncios e omissões. De início, ficava guardado numa prateleira alta, fora do alcance da família: “A barreira dos 30 centímetros foi uma das tantas que, uma vez estabelecidas lá em casa, eram respeitadas com a concordância de todos para preservar a anormalidade da família”, escreve Carlos. Com o tempo, passou a ser lido por todos. Daí os expedientes que o autor usava para desconversar.

Há uma suposta amante de quem ele falava o tempo todo, d. Camila Soares, sob o pretexto de ser uma “amiga espiritual”. Há o seu inacreditável problema com os bondes: a crer nos diários, na volta para casa, os motorneiros estavam sempre trocando o letreiro depois que ele já se sentara, e o resultado era “o bonde tomar um rumo imprevisto, ele ter que saltar no meio do caminho e chegar invariavelmente atrasado ao jantar em família”. Ou seja, uma inventiva desculpa para ocultar seus encontros clandestinos.

Há o assédio das moças com quem travou conhecimento na repartição. Estas viviam lhe oferecendo números de telefone, endereços e locais de encontro, que terminantemente recusava: “E aí está a que perigos se expõe, num dia quieto, um homem de bem”.

O capítulo do mico-preto é assim chamado por ser uma longa passagem do diário que o filho gostaria de descartar, como uma carta de mico, por julgar desagradável. São revelações sobre a vida sexual do dr. Espártaco, trechos em que o jurista fala de sua intimidade com a esposa e a amante. Por causa desse capítulo, publicado em “Que Pensam Vocês que Ele Fez”, Carlos resolveu destruir os três últimos volumes do diário. Está arrependido até hoje. “Como havia isso, essa dúvida de se aquilo era de minha autoria ou de meu pai, aproveitei para manter uma ambiguidade que não se resolveria nunca”, contou em entrevista ao pesquisador Fábio Bortolazzo Pinto.

“Uma coisa ou outra: ou eu tinha forjado aquilo, que seria uma grosseria inqualificável, ou aquilo era a própria verdade e eu a estava revelando. Então ficou essa complicação que eu resolvi muito mal.” Entre os volumes perdidos, estavam as impressões do pai de Carlos sobre o golpe de 64.

IRRELEVÂNCIAS Ao longo de sua carreira, Carlos trabalhou na confecção do dicionário Houaiss, foi tradutor e ilustrador. Hoje, aposentado, passa as tardes digitando as páginas do diário do pai, sem previsão para concluir a tarefa. Coleciona dicionários antigos e é cinéfilo. Adora passear na rua e observar as pessoas.

Carlos escolheu o dia da entrevista à Folha para render-se a uma extravagância permitida por sua nutricionista. Nos últimos meses, um problema renal o obrigou a uma dieta rígida: só pode comer livremente uma vez por semana. Almoçou penne com gorgonzola, pera e “aroma de pimenta”. De sobremesa, um tiramisù pequeno demais. “Não como doce há dois meses”, lamenta, tecendo loas ao sorvete de café choc chip da marca Itália, guloseima de sua predileção.

Assim como o diário paterno, o cinema é uma de suas fontes preferidas de irrelevâncias. Embora goste de assistir a todo tipo de filme, Carlos é um prodigioso especialista em atores secundários que o tempo esqueceu. Wendell Cory, por exemplo. “Você sabe quem foi Wendell Cory? Pois então. Assim que ele apareceu na tela, seu nome surgiu nítido em minha memória.” Ele adotou um livro de referência, o “The Movie Stars Story”, de Robyn Karney, que traz os 500 mais notáveis atores de todos os tempos. O critério é o seguinte: quem estiver mencionado no livro não vale. “Então nessas horas sei que estou lúcido, apesar de ninguém mais saber”, afirma.

MUTIRÃO DE COPISTAS O diário do pai se faz presente em cada coisa que Carlos escreveu na vida. Para comemorar seu aniversário de 70 anos, em 2003, ele reuniu os amigos na livraria Dantes, no Leblon, e pediu-lhes que ajudassem a digitalizar as páginas já datilografadas do documento. Cada um recebeu 15 laudas.

No mutirão de 101 copistas, estavam o jornalista e editor Paulo Roberto Pires, o poeta Armando Freitas Filho, a crítica literária Flora Süssekind e o documentarista João Moreira Salles, além da professora na UERJ e pedagoga Ira Maciel, então sua namorada. Durante a entrevista, ele afirmou várias vezes que “adoraria” digitalizar o diário e publicá-lo gratuitamente na internet, mas que, na verdade, não lhe importavam os preciosos panoramas históricos contidos no documento. (Uma de suas filhas pretende dar uso acadêmico aos diários.)

“Danem-se as relevâncias!”, exclama Carlos. “Tudo o que quero é achar graça, quando isso estiver completo, em estabelecer associações curiosas, coisas que só serão possíveis quando tudo estiver transcrito em texto eletrônico”, diz. “Imagine eu pegando a palavra ‘safado’ ao longo de 30 anos, e reparar a mudança de conceito, às coisas e pessoas a que se aplica, construir uma história juntando os dias em que as safadezas foram registradas.” Donde se conclui que, aos 76 anos, Carlos continua um grande galhofeiro. É assim que vai se esquivando de um destino “pior que a morte”: a seriedade.


André Conti, 28, é editor de livros e tradutor. Vanessa Barbara, 28, escritora e crítica de TV da Folha. É autora de “O Livro Amarelo do Terminal” (Cosac Naify) e do romance “O Verão do Chibo” (Alfaguara), com Emilio Fraia. Pág. 4

Em “Roma”, como os romanos

Posted: 20th junho 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Aqui em casa, somos patologicamente suscetíveis a séries de tevê. Os efeitos se mostram mais impactantes quanto mais distante está o seriado da nossa vida real – na época de “Família Soprano”, por exemplo, não demoramos mais que quinze minutos para aderir à Máfia.

Durante meses, tomamos Nescau batido na padaria enquanto discutíamos quem ia virar “capo” e quem ia virar presunto. Nunca foi tão descolado sair à porta de casa em pantufas para apanhar o jornal. Aliás, o episódio em que Bobby Bacala compra um trenzinho de brinquedo nos fez chorar aos soluços, tanto que foi preciso intercalar com um trecho de “Barney e Seus Amigos”, a título de calmante.

Recentemente, passamos a andar de capuz só por causa de outra série, “The Wire”, excelente drama policial que enfoca o tráfico de drogas num subúrbio de Baltimore. Agora, ao avistar um homem da lei dobrando a esquina, gritamos “Five-O!”, que é a gíria usada para se referir aos policiais (em homenagem a “Havaí 5.0”). Montar escutas telefônicas também não nos oferece mais nenhum mistério.

“The Wire”, aliás, tem o melhor final de série de todos os tempos. O caneco de melhor início vai para “Lost”, embora o episódio de abertura da sexta temporada de “House” nos tenha conduzido às lágrimas. A comoção doméstica foi ouvida até pelo porteiro do prédio vizinho, que passa a madrugada assistindo reprises de “Pica-Pau”.

“Monk” nos fez andar na rua encostando o dedo nos postes. Após nove temporadas de “Arquivo-X”, suspeitamos de uma conspiração em plena reunião de condomínio. “Millenium” foi a opção dos dias mais tristes, só porque era uma história trágica e nos dava a sensação de que “havia gente bem pior”. Em nossa fase “24 horas”, só se entrava na cozinha com um chute na porta, na ânsia de torturar os melhores donuts.

O efeito nem sempre é coerente com os propósitos da série: “Columbo” nos fez sentir muito espertos, ainda que amassados, confusos e meio vesgos. “Twin Peaks” nos deixou mais esquisitos. “Em Terapia” provocou silêncios amuados, angustiados, confusos. “Top Chef” deu alguma utilidade à cozinha, recinto menos prestigiado da casa.

Quero só ver quando começarmos “A Sete Palmos”.

Volta, “Walk Talk Show”

Posted: 13th junho 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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“Olá. Posso te conhecer?”, pergunta Robson de Andrade Gonçalves, entrevistador do extinto programa “Walk Talk Show” (TV USP). Com o microfone na mão, seu trabalho era abordar populares que passavam pelo campus da universidade, sem pauta e nem objetivo específico. “Oi. Tudo bom?”, ele insistia, e havia quem respondesse: “Não”.

Isso nunca foi motivo de constrangimento para Robson, codinome Rob Ashtoffen. O programa “que fala, fala, fala, e anda, anda, anda” durou duas temporadas e não tinha nem sombra de roteiro. Num episódio típico, o destemido repórter se aproximava de alguém e perguntava o que lhe desse na telha, seguindo ocasionais sugestões transmitidas via walkie-talkie pelo diretor do programa.

Só na conversa fiada, ele descobriu coisas extraordinárias como a biblioteca do centro acadêmico da USP–São Carlos, que abre inclusive aos domingos, quando “é só chamar ali no portão que eu abro”, segundo a encarregada. É a única instituição acadêmica a ter um cachorro residente, o Bob, e dois morcegos, o Maconha e o LSD, que veem tudo de ponta-cabeça. A bibliotecária-chefe aparece em fotos institucionais mostrando o dedo do meio. Foi ela quem, em 1983, causou tumulto no campus: “Peguei um carrinho de pedreiro, invadi o alojamento e recuperei os livros atrasados”, contou.

Robson costuma aparecer de forma inesperada e, diante da falta de assunto, pergunta coisas como: “Você pretende ter filhos?” ou “Você acha que a criação da sua mãe te influenciou a não ter sonhos?”, este último a um calouro da faculdade sem objetivos de vida. “Não estou me empenhando muito por nada”, o sujeito confessou.

A um professor de astronomia, papeou sobre manchas solares e questionou se o apocalipse estava próximo. A uma moça que pregava anúncios no mural, conseguiu extrair a constatação muito íntima de que “os meus cartazes são bem colados”. Sociabilizou com a moça do hot-dog, com um maluco local e com duas estátuas.

“Não sou um entrevistador, sou uma pessoa que conversa”, declarou. Para o rapaz, o ofício de entrevistar “é que nem boiar na água, né?”.

Robson, talvez o melhor entrevistador da TV, é um insólito estudante de biblioteconomia.

Este ainda não é o meu cachecol

Posted: 6th junho 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Álvaro Garnero, 42 anos, apresentador e multimilionário, já apareceu em rede nacional untado em óleo de oliva e vestindo calça de couro, durante uma luta turca. Já cavalgou no mar da Jamaica, socializou com velhos bérberes do monte Atlas, comeu frutas secas em Damasco, tomou banho com elefantes na Malásia, andou de quadriciclo e pagou os maiores micos da televisão brasileira, sem ligar a mínima.

No sábado passado, foi ao ar o último episódio desta temporada de “50 por 1” (Record), inteiramente dedicada a viagens pelo Brasil. Foi quando o carismático e alaranjado Álvaro Garnero mostrou-se em sua melhor forma,  interagindo com o povo simples e sorrindo mais do que permitia a força humana.

Em São Paulo, aprendeu a rolar de uma escada e ateou fogo no próprio braço, durante um curso para dublês. Em Alagoas, visitou o peixe-boi Aldo. Em Joinville, vestiu colã e tentou acompanhar uma aula de balé. Uma de suas frases mais proferidas nesta temporada: “Você só escuta o pessoal rindo por todos os lados. É um negócio inacreditável”.

Tudo isso pontuado pela participação do narrador, Mario Chamie, poeta e membro da Academia Paulista de Letras. Em off, ele fornece dados históricos sobre as localidades, bem como informações gerais e adendos sarcásticos. A certa altura, reflete: “Quem não é um eterno iniciante nas grandes lições da vida?”.

Corta para Álvaro de cachecol.

No último episódio, em Porto Alegre, o apresentador trocou de adereço cervical três ou quatro vezes. Vestiu coletes modernos e postulou: “Não existe gaúcho sem cavalo”, numa frase que entrará para a história da atração. Álvaro dançou o “copérnico”, nitidamente confuso entre a dupla de cantores Hique e Nico, do Tangos & Tragédias. Emitiu inúmeras vezes seu famoso bordão: “Mas esta ainda não é a minha Porto Alegre”. Bateu com o remo na própria cabeça e caiu sem querer na água, usando um maiô azul de corpo inteiro. Vestiu bombachas. Jogou punhobol e exclamou a clássica: “Gente, vocês não têm noção”, para gáudio dos telespectadores do programa, um dos mais involuntariamente divertidos da tevê aberta.

Por fim, concluiu: “Observar a doma de um potro é um aprendizado. Esta é a minha Porto Alegre”.

Jornal Cruzeiro do Sul
1 de Junho de 2010

por Abner Laurindo

Num local em que passam diariamente cerca de 130 mil pessoas, repórter se lança ao desafio de coletar boas histórias de pessoas anônimas

 

O melodrama das questões vernáculas

Posted: 30th maio 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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A julgar pela nossa teledramaturgia, o uso do subjuntivo é bem difundido entre os brasileiros. Emprega-se com grande espontaneidade o futuro não-composto: em “Ribeirão do tempo”, novela da Record, um senador diz que o filho “não verá” algo acontecer. Ele desabafa: “Não suporto essa sua cara de deboche infindável”, o que soa muito natural. O filho responde: “Pode perder as esperanças, coroa”.

Na trama, xinga-se com pungência, dizendo que Fulano é catastrofista e bobalhão. Os personagens argumentam como num romance de cavalaria, a exemplo da loira que pondera ao namorado: “Sem dúvida, mas o que eu quis ressaltar é que…”. Alguém usa a palavra “inexpugnável” e a mocinha cai de amores.

Quase no mesmo horário, na Rede Globo, um uso acentuado de ênclises que encheria de orgulho o velho gramático Napoleão Mendes de Almeida: “Meta-se com o seu casamento e deixe o meu em paz”, grita uma das mocinhas de “Passione”, no auge do rancor. A atilada utilização pronominal não cessa nem nos momentos mais difíceis, como quando a jovem noiva indecisa pede: “Será que você pode nos deixar a sós?”.

No campo das ofensas, os arroubos léxicos atravessam oceanos (“maledeto!”, “porca miséria!”) e gerações – uma certa personagem é “tinhosa”, o marido traidor é “indecente”. Também é possível pensar em voz alta utilizando-se da seguinte construção: “Eu tenho que tirar essa mulher da minha cabeça”.

Em “Uma rosa com amor”, do SBT, nem as adolescentes fogem à correção, dizendo: “Confesso que sinto um pouco de medo”. Tomados sempre por um ímpeto sintático impecável, os personagens se referem “à pobre da magricelinha da Miriam” e, numa discussão brutal, observam: “por favor, não me enfeze, porque eu posso acabar perdendo as estribeiras”. Conjuga-se muito bem no horário nobre.

Estatísticas finais de “24 Horas”

Posted: 23rd maio 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Folha de S. Paulo, TV
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Foram oito temporadas de ameaças terroristas à supremacia ianque. Quase duzentas horas – em tempo real – de derramamento de sangue, abuso de autoridade e falta de respeito ao patrimônio público. Chega ao fim amanhã a série 24 horas e, com ela, a saga patriótica do agente Jack Bauer, uma espécie de MacGyver moderno que, para defender a nação, realizou proezas como sequestrar o presidente dos Estados Unidos e abrir a jugular de um desafeto com os dentes.

Às fãs que, a essa altura, ainda cobiçam fervorosamente o protagonista e dariam tudo para participar de um jantar à luz de velas com o moço, saibam que é uma péssima ideia. Segundo nossas estatísticas, são 50% as chances de se ter uma morte trágica, 25% de ser torturada pela máfia chinesa ou assassinos árabes, 37,5% de descobrir que alguém de sua família é terrorista, 12,5% de ser usada como isca, 37,5% de ter seu filho sequestrado e 62,5% de ver um ente querido ser torturado por sua cara-metade. Seu pai também pode sofrer sérias ameaças (duas em cada oito vezes) e seu ex-marido, pior ainda (três fatalidades em oito). A conta fecha em mais de 100% porque tragédias simultâneas podem ocorrer com as mesmas mulheres ­­– a média de desgraças é de 2,87 por pretendente. Há também duas chances em oito de que você enlouquecerá ou ficará catatônica.

Em 24 horas, tampouco compensa ser presidente dos EUA: há uma probabilidade de 44,4% de ser morto ou ficar em coma devido a uma ação terrorista, 22,2% de ter o próprio filho assassinado, 11% de ser apunhalado pela esposa, 22,2% de sofrer uma ação bilionária de divórcio, e só duas chances em nove de deixar o cargo sem nenhum escândalo envolvendo parentes, tráfico de material atômico ou conspiração governamental. Isso quando não se é, por si mesmo, um traidor da nação (dois em nove presidentes demonstraram pendor para a atividade).

Até agora, faltando um episódio para terminar a série, que ao todo possui mais de uma semana corrida de duração, Jack matou 261 pobres-diabos, numa média de 32,6 por dia e 1,72 por hora. Salvou o mundo. Invadiu consulados, cometeu contravenções federais, torturou à larga, estripou um homicida e sacrificou inocentes em nome da pátria. Impossível calcular quantas ONGs em defesa dos direitos humanos foram criadas por conta da série.

Por diferentes motivos, a maioria fatais, ao menos quinze pessoas próximas a Jack Bauer se arrependeram de tê-lo como amigo. Destes, quatro sofreram ação direta do agente (três tiros e um decepamento). Os inimigos não se saíram melhor, já que a taxa é de quase 100% em vilões falecidos pelas mãos do justiceiro. Ou seja: não é uma boa ideia ser colega, namorada e nem parente de Jack Bauer (dos familiares, metade bateram as botas), mas também não compensa virar inimigo. Na dúvida, ao avistá-lo chegando com as compras, mude de calçada.

O Gênesis: Idem, Ibidem

Posted: 2nd maio 2010 by Vanessa Barbara in Ficção
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Revista Pesquisa/Fapesp
ed. 171 – Maio de 2010

por Vanessa Barbara

No princípio, Deus criou o céu e a terra. Foi no tempo de Sua iniciação científica, e devo dizer que o pré–projeto já parecia fadado ao fracasso. Como assim, “haja luz”? Francamente, Iaweh. Onde fica a metodologia? O referencial teórico? E a amostra de controle? Se não citar Antonio Severino, sinto muito — não me interessa se Você é o criador da ABNT.

Era evidente que o Senhor, a despeito de ser aquele que é, não havia lido a bibliografia obrigatória (GAUTAMA, 563 d.C.; VISHNU, 1254 a.C.; ALLAH, 570 d.C.; OLORUM, 1845 d.C.; e DARWIN, 1859). Se o tivesse feito, saberia que isso tudo já foi experimentado e devidamente descartado nos melhores círculos acadêmicos. Tomemos como exemplo o cronograma de trabalho, de risíveis sete dias — no último Ele ainda queria descansar às custas da Fapesp. No plano de marketing pessoal, chegou a declarar à imprensa que, ao apreciar sua obra, “viu que era bom”, ignorando assim toda e qualquer noção de objetividade inerente ao ofício.

A verdade é que o Universo foi apenas um mal-entendido no formulário de concessão de bolsas de pesquisa desta instituição. Deus, que é obviamente um iniciante, achou que precisava de toda essa parafernália planetária para criar um “universo significativo de amostragem”. E deu no que deu. Hoje ele tem claras dificuldades para manejar seus experimentos com um bilhão de chineses, sobretudo quando se trata de testes duplo-cegos — fica difícil driblar a onisciência.

No segundo dia, o Todo-Poderoso disse: “Que a terra verdeje de verdura”, e foi muito engraçado. No terceiro dia, fez os dois luzeiros maiores: o grande luzeiro como poder do dia e o pequeno luzeiro como poder da noite. Na quinta-feira, fervilhou a água de seres vivos e aproveitou para passar um café. Dali a pouco foi a vez de moldar os animais terrestres (ref. hipopótamo). No sexto dia, o que era pra ser uma pesquisa inútil, porém inofensiva, tornou-se um pesadelo para as agências governamentais que a financiavam. Deus criou o homem à sua imagem e, não contente, removeu uma costela do ser mencionado e a mergulhou, só por diversão, num amontoado de lama — exatamente como fez aquele sujeito com a orelha no lombo do rato. Então soprou. Sabe-se lá por que, o experimento deu certo: dali saiu uma mulher, instruída para ser fecunda, multiplicar-se e subjugar os outros animais que rastejam sobre a terra.

A seguir, passou a redigir o relatório de sua monografia, que começava assim porque Deus é prolixo: “Adotaremos o método intrínseco, estético e hermenêutico em sentido restrito (existencial-ontológico) e em sentido amplo (de interpretação inespecífica), partindo da exegese textual para a conclusão sobre o todo do Universo, método que se ajudará com o retórico-estilístico e o comparativista, todos se relacionando com o psicológico, o social e o histórico-cultural”. Percebam a utilização do plural majestático, que nesse caso é plenamente adequada. Além disso, vê-se que o Magnânimo estava confuso em todos os sentidos (tanto ontológicos quanto sintáticos). Há limites para a onipotência, e eles são as normas regulamentares para a apresentação de monografias.

Em todo caso, a hipótese inicial do Alfa/Ômega era simples: “Não vai dar certo”, escreveu, citando AVICENA, 1033 (que tentou transformar pão em ouro), e os partidários da busca pelo moto-perpétuo. A título de curiosidade, o Criador inseriu uma variante maléfica na redoma de testes: a serpente. O resultado dessa empreitada empírica pode ser resumido na seguinte resposta, transcrita pelo próprio Velho a partir de uma entrevista qualitativa com foco em história oral: “Não sei onde está Abel. Acaso sou guarda de meu irmão?”.

Abandonou-se, com isso, toda e qualquer metodologia razoável. Resignado, Ele decidiu radicalizar em nome da ciên­cia. Ora, apesar do que dizem, o Deus do Velho Testamento não é vingativo; é apenas um camarada curioso e interessado em estripulias empíricas. Planejou o dilúvio, por exemplo, para ver no que dava. Mandou um sujeito matar o próprio filho num teste de psicologia comportamental. Inventou um experimento quantitativo com nuvens de gafanhotos e mais meia dúzia de pragas que assustaram o faraó a valer. Enfim, fez o que bem queria, movido pela sede de saber.

Uma de suas maiores cobaias foi Jó, um mero aluno da graduação que sempre fora íntegro e reto, temia a Ele e se afastava do mal. O teste começou como um estudo sério, mas logo descambou para uma aposta inconsequente entre o Longânimo e um certo pesquisador diabólico. Visto que a vida de Jó era perfeita, o tal pesquisador disse ao Senhor que assim era fácil ter um assistente, e duvidou que Jó continuasse fiel caso caísse em desgraça. Seguro de sua popularidade, Deus deu carta branca ao rival para fazer o que quisesse com o pobre rapaz, que, aliás, nada tinha nada a ver com isso — leu toda a bibliografia optativa, cursou as aulas de estatística, sabia redigir os formulários etc. Aquilo não era justo. Pois o Tinhoso matou-lhe todos os bois, os servos, os camelos e os filhos, provocou um incêndio, cravou-o de feridas e ficou esperando. Jó hesitou, mas no final se manteve leal ao mestre, que aproveitou a ocasião para pedir-lhe um fichamento.

A história não seria tão trágica se Deus fosse uma entidade menos avoada. Enquanto escrevia a monografia propriamente dita, deixou seus objetos de pesquisa fugirem do controle. Em poucos milênios, enquanto Ele estava distraído, um camarada atacou o outro com um atum congelado, uma velhinha decidiu viver com onze cisnes em seu apartamento de 25 metros quadrados, uma universidade criou a disciplina “História do Cocô” e um glutão tentou comer o próprio peso em pipocas. Quando Deus terminou de escrever o Abstract, por fim, ergueu sua Santa cabeça e viu que estava tudo fora dos eixos. Havia demorado muitas eras para entender os padrões de citação bibliográfica relativos a verbetes de enciclopédia — também tinha certa dificuldade em ordenar alfabeticamente os autores SCHWARCZ, SCHARZ e SCHNITZLER. Lá embaixo, o caos reinava, livre de qualquer tentativa de controle científico.

Foi quando Ele teve uma grande ideia que lhe garantiu o ingresso no Doutorado e salvou (literalmente) a humanidade. Rascunhou o último capítulo de sua tese, intitulado: “O Apocalipse”, ou “A vindima das nações”. O objetivo era dar prosseguimento aos estudos de PESTE, 666; FOME, 2012; GUERRA, 2012; e MAGOG et al., 2082, pondo fim ao ciclo experimental sem, no entanto, cair no pessimismo. Aparentemente orientado pelo pesquisador citado na história acima (BESTA, 2012), ele redigiu: “Ficarão de fora [do céu] os cães, os mágicos, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos os que amam ou praticam a mentira”.

Foi assim que, com cavalos, trombetas e a danação eterna dos pobres mágicos, Deus fechou em grande estilo sua pesquisa “Criação do Mundo — Aspectos Pitorescos da Trajetória do Ser Humano sob a Ótica do Senhor de Todos os Exércitos”. Ganhou um glorioso dez — glorioso mesmo.


Link para o artigo original: http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=6395&bd=2&pg=1&lg=

A colecionadora de soluções caseiras

Posted: 1st maio 2010 by Vanessa Barbara in Crônicas, Revista Piauí
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Maio de 2010

por Vanessa Barbara

O ideal era fazer cinco refeições diárias, mas o dentista recomendava escovar os dentes o mínimo de vezes ao dia, a fim de preservar o esmalte. “E agora?”, perguntou-se Dolores

Tudo começou com o conselho que veio com um biscoito chinês: “Para tirar manchas de molho shoyu, é só esfregar nabo no tecido. A mancha sai na hora.” Naquele instante, sentada à mesa da cozinha diante de restos de yakissoba, Dolores teve uma epifania. Nabo e molho shoyu, mas que ideia engenhosa. Por que não podia ser tudo assim, simples e barato?

Sem demora, foi à banca e requisitou ao jornaleiro o maior número de revistas femininas que pudesse carregar. Pediu tudo emprestado, anunciando que anotaria as partes importantes e que devolveria o material sem danos ao proprietário. Dolores estava à cata de dicas – de qualquer procedência ou funcionalidade, fossem de beleza ou de mecânica automotiva. Pretendia se tornar uma especialista em improvisações mambembes.

Começou por lavar os cabelos diariamente com uma solução de água gelada e vinagre, a fim de conferir maior brilho às mechas. O cheiro de vinagre, porém, atraiu um batalhão de moscas, que, por sua vez, foram espantadas com a colocação estratégica de vasos de manjericão pela casa. Dolores entrou então num círculo virtuoso: com as moscas mortas, fez adubo para o manjericão. Com o manjericão, aproveitou para efetuar gargarejos relaxantes. Mas como continuasse a usar a solução de água com vinagre para enxaguar os cabelos, tudo quadruplicou: as moscas, os gargarejos e os vasos de manjericão.

Dolores passou a seguir todos os macetes sem fazer distinção se o consigliere era um profissional da área ou um astrólogo amador que gostava de dar pitacos. Uma nutricionista lhe indicou a dieta de Atkins, por exemplo, mas ela acabou preferindo a sugestão de uma vizinha meio surda – a dieta do alfabeto – só por estar na moda. E, além do mais, porque uma revista postulou que “os cientistas descobriram que se ater ao plano de dieta é muito mais importante do que o plano em si”.

Assim, Dolores começou o mês se alimentando de aipo, acelga, ameixa e açaí. No dia seguinte, comeu basicamente bolo. Depois, carne cozida com cebola e carqueja, cordeiro com calda de cereja, caqui e coco. Veio o dia de doce de damasco, doninha e Danone. Passou um dia inteiro à base de inhame. No dia do K, só pôde ingerir montanhas de kibe (em licença poética), kiwi e kebab, de que ela aliás não gostava. Resolveu persistir até que, depois de um jantar com vagem, vatapá e vôngole, foi ficando sem opções. No W, ainda conseguiu recorrer aos waffles, e, no Y, às iguarias japonesas com sorvetes Yopa. Mas e no Z? Não era época de zebras.

***

Havia o problema dos conselhos autoexcludentes. Na revista Magra e Feliz e em outras 742 fontes insuspeitas, especialistas afirmaram que o ideal era fazer cinco refeições diárias, respeitando a lei das pequenas porções. Isso para quem desejasse emagrecer de forma saudável. Já o dentista de Dolores lhe recomendara escovar os dentes umas poucas vezes ao dia, a fim de preservar o esmalte – ou seja, melhor seria comer tudo de uma vez, numa louca tarde de setembro. “E agora?”, ela pensou, sem achar uma saída.

Por via das dúvidas, decidiu hipnotizar-se, repetindo o seguinte mantra: “Eu estou a um passo de me tornar mais e mais magra.” Empastelou a comida de alho (que ajuda a baixar o colesterol), energizou-se com suco de cereja batido com maçã (que contém anti-inflamatórios e antioxidantes), usou hashis em todas as refeições (para comer menos) e deu uma mordida a cada dez minutos na barra de cereal, conforme o preconizado.

Dolores também comprou o livro Dicas Secretas, da Seleções do Reader’s Digest, a bíblia definitiva que prometia revelar os segredos de mecânicos, construtores, advogados, contadores, vendedores de automóveis e demais especialistas que trabalham com fatos ocultos, por trás das engrenagens do sistema. O livro lhe assegurava “o maior número possível de segredos que não apenas garantirão os seus interesses como também o farão sentir-se um gênio”.

Alguns exemplos: “Afaste a febre do feno com mel”, “Evite hematomas com cebola” e “Combata a caspa com enxaguante bucal”. Ao ler o volume, que é uma espécie de manual de autoajuda para acabar com todos os manuais de autoajuda, não descobriu nenhum segredo escandaloso (tipo: “Câncer: é só passar pasta de dente”), mas obteve 1 503 dicas genéricas para ter sucesso em nossa estada transitória pelo planeta.

Como continuasse gordota, mas agora melancólica, Dolores começou a batucar, já que as pesquisas demonstravam que “batucar em grupo é uma ótima forma de aliviar o estresse”. Um estudo comparou a composição química do sangue de cinquenta pessoas e concluiu que as que estavam batucando tinham níveis muito mais baixos de cortisol do que as que estavam apenas assistindo ao espetáculo. Passou a mastigar mirtilos (para melhorar a visão) e a carregar na bolsa uma série de objetos curiosos: um frasco com borrifador de vinagre branco e um pote com bicarbonato de sódio, para neutralizar picadas de abelha e vespa.

No capítulo sobre bem-estar, descobriu que espetos de churrasco que pegam fogo são um drama quase insolúvel para o ser humano. “Os espetos de metal parecem um aperfeiçoamento – até a hora de virar os churrasquinhos. Aí, a cada vez que você gira o espeto, a comida gira junto. Os espetos achatados trouxeram mais esperanças, mas os apreciadores de comida árabe que tentam fazer kebabs em casa logo percebem que as cebolas, pimentões e especialmente os cogumelos muitas vezes se partem quando você tenta enfiá-los”, afirma o redator, repleto de angústia.

***

Dolores aprendeu a evitar coágulos no pulmão, a tomar óleo de peixe contra as artrites, a assar o frango de bruços e a reconhecer os múltiplos benefícios do funcho e da água estupidamente gelada. Descobriu que tabletes para limpeza de dentaduras servem também para lustrar o vaso sanitário. Virou especialista em bricolagem e cultivo de cebolas em apartamentos. Comprou um tomateiro, quinze frascos de ginkgo biloba e improvisou uma joelheira de jardinagem, apesar de não ter jardim.

Primeiro, foi a favor das promoções do tipo dois por um (“São imperdíveis”, dizia o livro). Depois, contra (“Tenha discernimento”, ponderava a mesma obra, mais adiante). No prefácio, uma explicação do editor para os conselhos paradoxais: “Este é um mundo cada vez mais confuso”. Dolores também aprendeu a economizar, doando seus bens em vida – como economizar estando morta? – e escolhendo um tecido para forrar o sofá que lhe caísse bem, feito um vestido. “Vai ficar lindo você sentado nele”, anunciou o redator do livro, ainda confuso em termos de gramática.

Certo dia, Dolores deixou cair ovos no chão e decidiu usar uma de suas dicas de limpeza: polvilhou uma generosa quantidade de sal sobre o aglomerado, esperou cerca de cinco minutos e só o que conseguiu foi uma massa cremosa e decididamente nojenta de ovo cru temperado. Que ela veio a aproveitar para fazer uma máscara hidratante de ação adstringente.