Um terno romance a quatro mãos
Posted: 20th junho 2008 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Alfaguara, O Verão do Chibo
O verão do Chibo – Pensar Enlouquece
Posted: 20th junho 2008 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Alfaguara, Inagaki, O Verão do Chibo
Sexta, 20 de Junho de 2008
O verão do Chibo
Que outro livro é lançado com uma promoção na qual você profere a palavra “pudim” na fila de autógrafos, ganha um desconto de 10% na aquisição de 2 mil exemplares e mais um par de pantufas na forma de brotoejas gratinando picles? O prego, como bem afirmou Manoel de Barros, é uma coisa indiscutível. Da mesma maneira, sequer me passa pela cabeça a possibilidade de que existam pessoas incapazes de vislumbrar sentido nas crises de apendicite e desperdiçar a chance de conhecer pessoalmente Vanessa Barbara e Emilio Fraia, gênios bivitelinos que compartilharam as aulas da Nanami na Cásper Líbero, nasceram no ano da graça de 1982 e acabaram de lançar o livro O verão do Chibo.
Emilio e Vanessa, autores profícuos com diversas obras publicadas pela Editora Google, tiveram passagens conturbadas pelas redações da revistas como Trip e Piauí antes de sucumbirem à tentação de buscar escrever o Grande Romance de Formação Ambientado em um Campo de Milho. Isto posto, cabe a mim compartilhar a informação de que esta dupla do barulho, após aprontar altas confusões na Sessão da Tarde gravando covers das guarânias dodecafônicas de Honorio Bustos Domecq, receberá amiguinhos & inimiguinhos para a sessão de autógrafos de O verão do Chibo na quinta, dia 26 de junho, a partir das 19 horas, na Livraria da Vila. Vanessa e Emílio informam ainda que receberão amigos, familiares, penetras e hortifrutigranjeiros para um convescote na Flip 2008, dia 3 de julho, na companhia de Michel Laub e Adriana Lunardi.
Com absoluta exclusividade mundial e após sucessivas e progressivas chantagens emocionais, disponibilizarei, após os indefectíveis cinco asteriscos que dividem os posts deste blog, um trecho de O verão do Chibo, como uma espécie de acepipe caramelizado e coberto com flocos chocantes do livro escrito por Vanessa Barbara e Emilio Fraia.
“Lembro da primeira vez que vi a plantação. O Chibo me trouxe pela mão, me colocou sentado numa pedra. Pediu para eu não sumir de vista, nem sujar a bermuda, e foi com o Bruno para a beira do laguinho apostar corrida de besouro. O sol, alto e mole, castigava o Cabelo que tinha o nariz coberto de pomada. Ele era o juiz e me olhava desconfiado entre um grito e outro da torcida. Tão logo os cascudos cruzaram a linha de chegada (vitória do Chibo sob vaias do Bruno), o Cabelo veio e perguntou se eu sabia o que era uma bolha de sabão. Fiz que não e ele achou graça. Depois me ensinou sua careta favorita, a boca um pouco mais torta, o olho virado, assim, e em pouco tempo eu e o Cabelo tínhamos nosso próprio besouro, que era o mais rápido e desbancou todos os outros do milharal.
“Com o Bruno foi diferente. No início ele mal falou comigo, não me queria por perto. Ou então duvidava que eu pudesse entender o que ele dizia (daí ficava quieto). Depois isso melhorou, mas não muito. Tinham coisas que ele só contava ao Chibo ou em voz alta quando saía entre os pés de milho. O Cabelo também era carta fora, mas a verdade é que ele não dava a mínima: estava ocupado demais com o nosso besouro campeão. O Cabelo era dedicado: adestrava o cascudo Bob falando enrolado. Botava o bicho na parte de cima da mão, prendia uma pata pra ele não fugir e começava a pregar a palavra: bloash-bloblo-bloarshbloblof. Aproximava o rosto para ouvir a resposta e retrucava bloarsh como se estivesse ensinando o besouro a separar as sílabas. No verão em que descobrimos o Bob cochilando debaixo de uma folha, o Cabelo passava as tardes em longos colóquios besourais, levava o mascote para conhecer o Bruno, botava o bicho perto das coisas a fim de ensinar o que eram. Um dia, enfim, parou de segurá-lo pela pata e fez dele o coleóptero mais rápido do milharal. Bob passeava pelos ombros e costas do Cabelo reclamando da vida, o Bob era nosso, o Bob era de nós dois e conquistou todo o mundo (além das competições de triatlo): lembro do Bruno deixando farelo de pão na modesta residência bobiana que ficava num vão da casa da árvore, lembro do estoque de recheios de bolacha que o Chibo e eu juntávamos pra ele, uma pilha em ziguezague de chocolate e morango. Nunca houve um besouro como o Bob. O Bruno e o Chibo viravam dias catando cascudos e testando um por um nas corridas, mas nenhum era tão bom. Além disso, o Bob brilhava no sol, era muito verde e redondo, parecia uma joaninha do submundo. O Cabelo ensinou o Bob a esfregar as patas quando queria comer, treinou o Bob em sessenta centímetros rasos com e sem obstáculos, levantamento de migalhas, natação na poça de cuspe, salto com vara. O Cabelo tornou o Bob sociável: ele ficava paradinho na mão da gente, tomava sol do lado do Bruno, vinha abanando o rabo quando abríamos o pote.
“Engraçado pensar que o Bob quase não voava. Às vezes ele planava, tranqüilo, mas não gostava muito. Preferia praticar atletismo ou apreciar (antes de dormir) a canção ‘Eu Sou um Bolinho de Arroz’, interpretada pelo Cabelo. O Bob, quando descansava direito, fazia um tempo de seis segundos e oitenta décimos, marca inédita em toda a história da plantação. Os demais concorrentes corriam em círculos, afundavam na terra, saíam voando ou chegavam anos depois, molengos e com cheiro de mofo. Bob atravessava a pista com elegância, batia em falso as asinhas e jogava pra lá e pra cá a carapaça imponente. O Cabelo esperava no fim com uma toalha, eu com cinco tipos diferentes de berros, a gente ficava pulando e gritando enquanto o Bruno e o Chibo olhavam feio para a equipe deles — um amontoado de bichos com a mesma cara de pedra, verão após verão.
“Depois que o Bob morreu de doença nas coronárias, ou problemas abdominais a esclarecer (simplesmente parou e não se mexeu mais), a gente abandonou as corridas porque perdeu a graça. Ainda tentamos cutucar o Bob com um pauzinho, sussurrar bloarsh-boblof com um tom de impaciência (os braços abertos), mas ele tinha ido dormir. Estava cansado. Assim que o Bruno confirmou o passamento do nosso cascudo, confortando o Cabelo com a mão no ombro, observamos um minuto de silêncio. O Chibo não deixou ninguém ficar triste, e o que se viu em seguida foi o funeral mais suntuoso que houve nos lados de cá da árvore toda vermelha: meu irmão fez um discurso comprido, eu virei o meu short do avesso para parecer limpo e o Cabelo cantou ‘Eu Sou um Bolinho de Arroz’, alto e sem chorar, guardando todo o respeito que só as grandes personalidades inspiram. Hasteamos a bandeira e fizemos uma inscrição ao lado da árvore onde o Bob foi enterrado, dentro de uma caixa de chocolates: ‘Aos grandes homens, a pátria reconhecida’.
“Durante o discurso o Chibo falou muitas coisas bonitas, o destino, a pátria, a dura lei das estrelas (e outras que eu não entendi também), mas foi interrompido por um barulho de gafanhotos que crescia e nos cercava. Hoje, quando meu braço ardeu e eu peguei soluço, aconteceu igual. Os gafanhotos. Não dava pra saber de onde vinha o zumbido, vinha de toda parte e de parte alguma. Pensei numa combinação de inimigos; índios, piratas, lagartixas. Ou não é nada disso também, e corri sem saber direito por quê (talvez o Chibo e o Bruno estejam no escuro, do lado de lá, rindo de mim), ou porque eu estivesse exposto e atingido pelas estrelas. Ou perseguido pelo Cara Morto, que não está sozinho, é parte de uma organização invisível; o Cara Morto que manipula as estrelas”.
O inusitado das leituras pré-Flip
Posted: 17th junho 2008 by Vanessa Barbara in ClippingTags: Alfaguara, Flip 2008, O Verão do Chibo
Originalidade e ousadia em “O Livro Amarelo…”
Posted: 16th junho 2008 by Vanessa Barbara in ClippingTags: CosacNaify, O Livro Amarelo do Terminal
16/06/2008
Blog da CosacNaify

“Chegou! É um bebê tão bonito e amarelo e ele pia…
Gente, ficou lindo. É o livro mais vistoso desde Manual de refrigeração e ar condicionado (ed. Fulton, 1366 pp., com diagramas de câmaras frigoríficas). O papel, o “sujinho”, tudo ficou tão bonito que dá vontade de comer.
Obrigada! Vocês são demais. Vamos comemorar na plataforma de desembarque n. 82 com bala 7Belo e maisena.
Cubram-se de icterícia.
v.”
[E-mail escrito por Vanessa Barbara à equipe Cosac Naify: reação ao receber o bebê]
“ELA REALMENTE SÓ VIU O LIVRO QUANDO ESTAVA PRONTO. E ADOROU (UFA!)”
Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio comentam a criação do projeto gráfico de O livro amarelo do Terminal, original em forma e conteúdo
Talvez não fosse de se estranhar o desenho gráfico de O livro amarelo do Terminal, reportagem literária sobre a rodoviária do Tietê escrita por Vanessa Barbara, caso nele estivessem fotos de ônibus, rostos de transeuntes, imagens da época de sua construção, em 1982. Seria normal. Mas em absoluto representaria a singularidade narrativa criada pela autora, que opera com habilidade a mescla de estilos aliada a uma incrível profusão de vozes sensivelmente captadas.
Na entrevista a seguir, a diretora de arte da Cosac Naify Elaine Ramos e a designer Maria Carolina Sampaio detalham o projeto gráfico do livro, que recria em traço o texto de Vanessa Barbara.
A cor do nome, o nome da cor e os papéis
“Chegou-se ao título O livro amarelo do Terminal por conta do papel escolhido, que faz referência ao tipo usado em passagens de ônibus e em livros de “páginas amarelas”, em que as pessoas buscam informações.

Internamente, o livro é composto por três tipos de material: na maior parte do miolo, temos o papel amarelo de gramatura menor (APG); em um trecho mais curto, optamos também por um bloco de páginas de papel auto-copiativo, que leva carbono em sua composição, o que recupera a idéia do papel mimeografado (com o manuseio, ficam nele algumas leves manchinhas); por último, um papel roxo (MF), de maior gramatura. Para a capa, optamos por uma cartolina amarela laminada.”
Polifonia gráfica
“Os originais do livro nos chegaram com algumas indicações de onde o texto ganha novas formas, como por exemplo, a separação em colunas; uma nota musical indicando os trechos de canções; algumas palavras escritas em negrito, ou com letra maior. Buscamos, então, criar diferenciações consistentes que atendessem às especificidades do texto.
Praticamente todas as interferências adotadas no projeto gráfico vêm do universo da rodoviária: viagens, logotipos de empresas de viação, pintura dos ônibus, sinalização etc. Usamos também minha coleção pessoal de tíquetes de viagens [por coincidência, Elaine Ramos coleciona há anos bilhetes de viagens, entradas de museus, de eventos etc] e matérias de jornal coletadas pela autora. Mas é importante dizer que todas essas referências foram traduzidas graficamente, e não mimetizadas: evitamos reproduzir simplesmente as imagens ou informações gráficas. A partir daí, procuramos criar uma linguagem própria para o livro.”

Harmonia no caos
“O grande desafio foi achar uma visualidade que traduzisse a polifonia e a estranheza encontradas na narrativa. Na diagramação das páginas, optamos por um espaçamento maior entre as linhas, de forma que a frente não coincidisse com o verso: como o papel (amarelo) é muito transparente, vêem-se as linhas do verso, num movimento de trás pra frente.
Já na divisão geral dos capítulos, ou seja, no macro da edição, há uma organização muito clara. Combinamos formas geométricas, abstratas e racionais, com a sujeira e o acaso do xerox e da transparência. A soma das duas coisas resultou num contraste parecido com o da rodoviária: o caos da movimentação das pessoas, transeuntes em um arcabouço muito claro e funcional, próprio da arquitetura e da sinalização da rodoviária. Estas características dialogam com um dos traços mais fortes do livro: a diversidade de vozes narrativas, o choque entre as diferentes perspectivas, a vitalidade deste ambiente, que é a maior rodoviária do país; esta “cidade de coisas perdidas”, como escreve Vanessa. Se criássemos um projeto gráfico apenas organizado e competente, seria como ver a rodoviária vazia, sem ninguém.”
O Livro Amarelo do Terminal (2008, Cosac Naify)
Posted: 14th junho 2008 by Vanessa Barbara in LivrosTags: CosacNaify, O Livro Amarelo do Terminal

Autor: Vanessa Barbara
Livro-reportagem
Projeto gráfico: Elaine Ramos, Maria Carolina Sampaio
Lançamento: junho de 2008
Formato: 21 x 14
254 páginas
Preço: R$ 48,00
Editora: Cosac Naify
> Compre agora por R$ 48,00 pela loja virtual
A jovem escritora Vanessa Barbara faz sua estreia editorial com um surpreendente livro-reportagem sobre a rodoviária do Tietê, em São Paulo. Primeira obra jornalística no catálogo da Cosac Naify, O livro amarelo do terminal empreende uma viagem singular ao que seria uma “versão condensada do mundo”, como diz João Moreira Salles na orelha da edição. Valendo-se de recursos narrativos variados, que vão da reportagem clássica ao humor nonsense, o olhar arguto da escritora pinça, em meio ao tumulto, os tipos que passam por lá todos os dias – vendedores, crianças, velhinhas, surfistas -, e registra “uma história oral” do lugar a partir dos fragmentos de conversas colhidas ao acaso. Essa polifonia aparece também no projeto gráfico do livro. Suas páginas amarelas, de gramatura mais fina, brincam com a transparência e a sobreposição parcial das letras. Já os capítulos de cunho mais histórico são impressos em papel semelhante ao carbono, como os dos bilhetes de ônibus. O escritor Antonio Prata atesta: “Vanessa Barbara é a melhor escritora que eu conheço.” Agora, é a vez do leitor se surpreender com seu talento.
PRÊMIOS
– 51º Prêmio Jabuti 2009
Categoria: Reportagem
– APCA 2008
Categoria: Literatura/Reportagem
– AIGA 2009
Prêmio: 50 Books/50 Covers
Categoria: Projeto gráfico
Premiados: Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio
Entrevista: Vasto mundo num só lugar
Posted: 14th junho 2008 by Vanessa Barbara in ClippingTags: CosacNaify, O Livro Amarelo do Terminal

O Livro Amarelo do Terminal
Lançado em: junho/2008
Entrevista: Vanessa Barbara
Por Lívia Deorsola
No dia em que se tornar Deus, a mais idosa das escritoras, Vanessa Barbara, 25 anos, quer transformar o Atlântico em uma sopa de letrinhas (foi o que ela disse ao amigo Antonio Prata). Enquanto isso não acontece, ela mesma escreve o que lhe dá “na telha”, como nos conta na entrevista a seguir. Os leitores agradecem: em O livro amarelo do Terminal, lançado pela Cosac Naify – estréia da autora no universo editorial -, Vanessa desvendou a rodoviária do Tietê de um jeito há muito conhecido e pouco praticado – ousou ouvir e escrever as histórias mais simples, e por isso as mais surpreendentes. Com pinçadas precisas numa massa aparentemente amorfa, o livro resulta em uma rica engenhosidade polifônica, composta por vozes que em geral ninguém ouve – nem mesmo a de Marcos, “a voz mais bonita do terminal”, que costumava pilotar a mesa de controle e anunciar criancinhas perdidas.
Habilmente costurada por meio de pesquisa histórica, saudades, humor, literatura, sonhos, manchetes de jornal, desilusões e letras de música, esta narrativa inclassificável flui de forma que podemos vê-la passar diante de nós. E ouvi-la. Este efeito cinematográfico é pontuado pela autora – às vezes uma repórter invisível; outras, a protagonista de quem os funcionários “mais graduados” da Socicam (empresa administradora do terminal) têm medo. Por causa da “imagem”, claro.
Quais os motivos que a fizeram se interessar pelo terminal rodoviário do Tietê?
A rodoviária foi escolhida por representar São Paulo quase tão bem quanto a própria rua, por trazer histórias singulares que ilustram algumas contradições da metrópole: a modernização, o movimento repetitivo das pessoas que vão-e-vêm mecanicamente, a inconstância, a idéia de massas; e, por outro lado, a sensação de não-pertencimento, a vontade de retornar ao lugar de partida, o anacronismo dos personagens, a permanência – aquilo que nunca muda. “Tietê” vem do tupi: “té é té”, um rio que se mostra “muito fundo e corrente” e corta a cidade.
Você optou por um tipo de abordagem jornalística que dá voz aos que tradicionalmente não a têm: motoristas de ônibus, faxineiras, migrantes, atendentes, vendedores, camelôs. Quando pensou em escrever sobre o Tietê, estava especialmente preocupada em ressaltar isso?
O livro amarelo foi um projeto experimental de conclusão do curso de jornalismo. De início, era pra ser um livro de crônicas – classificado como livro-reportagem por causa da ausência do campo “Outros” no formulário de inscrição. Aos poucos, foi virando outra coisa e eu fui falando com quem conversava comigo, sem distinção.
Poderia nos contar um pouco sobre as abordagens às pessoas? Como eram feitas? Você imediatamente esclarecia a que viera, ou procurava puxar conversa, e então surgia um fio a ser puxado?
Sempre me apresentava e contava o que estava fazendo – embora algumas pessoas puxassem conversa do nada, sem se importar. Em geral eu me apresentava, puxava uma cadeira e era isso: pergunta daqui, pergunta dali, e no fim elas iam falando o que queriam (sobre frango com quiabo, carrapatinhos, miçangas). No segundo ano da faculdade, fiz uma monografia sobre inclusão digital (!) e aprendi um método de sociologia chamado “história oral”, que busca entrevistas abertas sem questionários prévios e sem tempo de duração, deixando o entrevistado o mais confortável possível. O legal é que as pessoas começam a falar das coisas que lhes são realmente importantes, ou pelo menos do que eles querem, e não do que eu acho que deveriam responder.
No livro estão histórias de vida, pura fruição literária, árdua pesquisa jornalística, dados institucionais e até mesmo letras de música da época em que o terminal foi construído. Como foi orquestrar tantos recortes para que fosse montado um panorama da rodoviária do Tietê?
O mais difícil foi encontrar o material – levei semanas para ter acesso às matérias antigas dos jornais em bibliotecas municipais, arquivo do Estado, arquivos pagos, centros de documentação etc. Parece mais simples do que é. De qualquer forma, a pesquisa é a minha parte preferida, e eu adorei ler as matérias antigas. Deu pra sentir o que acontecia na época, e era uma coisa tão absurda que exigia letras de músicas à altura.
Há diversos trechos em que você apenas descreve o que vê; ou seja, a observação foi um método importante. Tem o costume de olhar muito as pessoas a sua volta? Qual é o truque para que ninguém se incomode com isso? (Durante suas visitas ao terminal, alguém teve medo de você?)
Era para ser um livro de crônicas, ou seja, só as minhas observações. Mas não seria o suficiente… Ninguém teve medo de mim porque eu tenho uma inofensiva cara de 15 anos, mas às vezes as pessoas ficavam desconfiadas e demoravam mais para falar.
Num dos episódios, você chega a acompanhar o socorro a um funcionário do terminal. Foi um dia de sorte (para você, claro)?
Não! Foi um atendimento comum, nada grave, e foi bem tranqüilo. Talvez um dos méritos do livro seja justamente o de não ter presenciado nenhum acontecimento suntuoso, embora todas as histórias ali sejam impressionantes.
Ao buscar incansavelmente informações sobre a administração do terminal, você se deparou com respostas que contrariam a lógica da “informação pública e transparente”. Esperava por tanta dificuldade em obter dados?
Pensei que seria tão fácil quanto fazer uma reportagem na rua. O engraçado é que os seguranças e os funcionários do terminal (FTs) não davam a menor bola, mas os funcionários mais graduados ficavam apavorados com essa coisa da “imagem” da empresa. Parecia que, se eu fosse de algum veículo imaginário de imprensa, eles me tratariam com um pouco mais de respeito. Aí criei A Hortaliça, que hoje é um dos periódicos mais respeitados da mídia nacional e interplanetária.
O projeto gráfico de O livro amarelo do Terminal é dos mais originais e capta exatamente o espírito polifônico presente na narrativa.
Chegou a dar algum palpite no desenho do livro? Qual foi a sensação de ver seus relatos neste formato?
É tudo mérito dos editores, especialmente da Elaine Ramos e da Maria Carolina Sampaio. Ficou lindo e perfeito para o texto, é exatamente do jeito que eu queria – o mais incrível é que eu não dei nenhum pitaco. E você pode colar seus comprovantes de bagagem na capa! [Conheça detalhes do projeto gráfico]
Se aqui cabem classificações, sua escrita está identificada com o jornalismo literário. Aqui temos Joseph Mitchell [O segredo de Joe Gould], Gay Talese [Honrados Mafiosos], chegando até o escracho do gonzo journalism, com Hunter S. Thompson. Enxerga algo destas experiências literárias no que você escreve?
Gosto muito desses autores e li todos na época de estudante (para o trabalho também li Hemingway, Orwell, Dickens, Capote, John dos Passos, João do Rio, Rubem Braga, Veríssimo e Will Eisner), mas seria muita pretensão me comparar a eles… só achei que era a oportunidade de fazer alguma coisa diferente e escrever como me desse na telha.
Ao saber de sua idade, todos se admiram: “25 anos e já autora de livros de qualidade”. A constatação te ocupa alguma reflexão?
É que eu tenho cara de 15, RG de 25 e espírito de 80. Sou a mais idosa das escritoras.
Livro editado, histórias contadas. Como se sente hoje ao passar pelo terminal rodoviário do Tietê?
Eu lembro de cada linha. Em “O narrador”, Walter Benjamin disse que todo dia recebemos as novidades do universo, mas somos pobres em histórias notáveis. O mais surpreendente de viajar dentro da rodoviária é descobrir que existem pessoas por lá – e não só estatísticas, notícias sobre a movimentação dos passageiros no feriado ou declarações de telejornal. Durante o trabalho, lembrei de um livro do Rubem Braga sobre a Segunda Guerra em que ele diz: “Encontramos no meio do caminho o general Cordeiro de Farias, que está deixando crescer um bigode, e vamos a uma central de tiro”. Ele fala de um soldado que veio de Monte Aprazível e estava terminando o liceu, de outro que é filho do proprietário das Perfumarias Carneiro, do sargento Domingos Leite que é da Rua Goitacases, 1726 e vai se casar no inverno e daquele que mandou uma carta pra casa “fazendo um enorme lero-lero sentimental do começo ao fim, disse que está morrendo de saudades, viver sem ti é uma desgraça, eu não sei como agüento esta separação, é uma agonia medonha, choro pensando em ti, e no fim de tudo isso meteu um P.S. – ‘manda me contar o resultado do jogo do Bangu'”.
Enfim, a rodoviária é feita de pessoas, todas com uma história triste, uma fala solene, uma observação absurda.
O Verão do Chibo (2008, Alfaguara)
Posted: 6th junho 2008 by Vanessa Barbara in LivrosTags: Alfaguara, O Verão do Chibo


Emilio Fraia e Vanessa Barbara
Ficção/Romance
ISBN: 9788560281510
Lançamento: 06/06/2008
Formato: 15 x 23,4
120 páginas
Preço: R$ 29,90
Editora: Objetiva || Selo: Alfaguara
Ao falar sobre os ritos de passagem da infância para a adolescência, esses dois jovens autores criaram um dos livros mais originais da nova safra brasileira
O verão do Chibo revela a habilidade narrativa de dois autores que já podem ser incluídos entre os mais originais da nova geração de escritores brasileiros.
Obra sutil, muitas vezes cômica, outras vezes emocionante, trata, sobretudo, dos mistérios que cercam o amadurecimento.
No livro, um menino de cerca de sete anos, mergulhado num universo muito particular, descreve suas aventuras nas férias de verão, embrenhado num milharal ao lado de outros amigos. Mas esse é um verão diferente. Pois Chibo, seu irmão mais velho, some misteriosamente, e os outros garotos parecem seguir o mesmo caminho.
Emilio Fraia e Vanessa Barbara contam que trabalharam de forma exaustiva, nesse seu primeiro romance, para mesclar idéias e estilos e conseguir alcançar uma voz narrativa coesa. “Quando duas pessoas escrevem juntas, e não são vaidosas, o resultado é melhor do que quando trabalham separadas.” A frase, do escritor argentino Adolfo Bioy Casares sobre a famosa parceria com Jorge Luis Borges, é usada pela dupla para ilustrar a motivação que os une.
Viajou sem passaporte
Posted: 2nd junho 2008 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista Diálogos&DebatesTags: política, protestos, sociedade, Viajou sem passaporte
Revista Diálogos&Debates
ed. 32 – Junho de 2008
por Vanessa Barbara
Projetos aparentemente bobos, mas cheios de provocação, as intervenções do grupo Viajou Sem Passaporte fizeram presença no final dos anos 70. Houve muitas, como a Trajetória do Curativo, a do Paletó e o Trem Fantasma no Parque Ibirapuera…
O triunfo (provisório) da pirataria
Posted: 1st maio 2008 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauíTags: demonoid, pirataria, Pirate Bay, sociedade, tecnologia

Revista Piauí n. 20
Maio de 2008
por Vanessa Barbara
A volta do site Demonoid.com traz esperança à turma dos bucaneiros.
“A profecia foi cumprida: regozijai-vos e semeai, ó fiéis!”, exclamou Clement Kuo, da Califórnia, num fórum especializado. Depois de cinco meses fora do ar, no dia 11 de abril o site Demonoid.com finalmente voltou à ativa. Ele é um indexador e rastreador público de arquivos de filmes, músicas, jogos e softwares em formato BitTorrent – o protocolo de processamento rápido para download. Ou seja: é dor de cabeça para os defensores da propriedade intelectual na internet, já que a maioria dos arquivos compartilhados pela rede BitTorrent é protegida por leis de copyright.
A coisa funciona assim: um belga generoso de codinome “Pandris” decide compartilhar na internet um documentário raro sobre fotografia. Ele transfere o conteúdo do DVD para o computador e cria um arquivo .torrent, um instrumento que fragmenta o original e organiza suas informações: nome do filme, tamanho, dados de cada bloco, seqüências de bits e, finalmente, o endereço do servidor tracker (o rastreador). É aí que entram sites como o Demonoid. Eles hospedam o link para o arquivo do nosso prestativo belga, permitindo que um brasileiro amante de fotografia se conecte a ele e inicie o download do conteúdo em blocos.
Em geral, o usuário demora dias ou semanas para baixar um filme inteiro, embora alguns afortunados consigam receber vasta quantidade de conteúdo em poucas horas. Para esses, o belga faria um alerta mais ou menos assim: “Tenham paciência, pois minha velocidade de upload (envio) é ridícula, e não posso deixar o computador ligado à noite, já que divido o apartamento com um colega e o PC é muito barulhento.” Aos poucos, centenas de curiosos conseguem baixar os blocos do filme e se tornam semeadores simultâneos, de modo que o belga não precisa mais deixar seu computador ligado – para alívio de seu companheiro de quarto. Assim, os arquivos são obtidos aos pedaços de várias fontes diferentes, ao mesmo tempo.
***
O Demonoid é o segundo maior site de trackers do mundo, perdendo apenas para o sueco The Pirate Bay (Baía dos Piratas), que, por não hospedar o conteú-do e ser apenas um indexador, não tinha problemas com a justiça – até maio do ano passado, quando a polícia sueca invadiu sua sede e apreendeu os computadores. O site ficou fora do ar três dias, e voltou à ativa com sarcásticos comentários em resposta às diversas ameaças de processo. Os administradores do Pirate Bay lembraram que as leis dos Estados Unidos não se aplicam à Suécia, “terra dos vikings, das renas, da aurora boreal e das loiras”. Ainda afirmaram que, “ao contrário de outros países, temos leis sensatas de copyright. Mas também temos ursos polares vagando pelas ruas e atacando as pessoas”. Em abril passado, o Pirate Bay ameaçou inverter a lógica: anunciou que processará a Federação Internacional da Indústria Fonográfica por bloquear o site para os usuários da Dinamarca.
O Demonoid é um site mais organizado, que aceita apenas membros indicados e abre novas inscrições periodicamente. Além disso, recomenda uma taxa mínima de upload e se reserva o direito de banir os membros que não colaboram com o compartilhamento. Por hospedar uma quantidade enorme de rastreadores de qualidade, é bastante conceituado. Por exemplo: seu mecanismo de busca registra 47 títulos do selo americano Criterion (que no Brasil está disponível apenas para importação), os três volumes do documentário Contacts, a coleção completa da revista Mad, coleções integrais de gibis de super-heróis, e-books, temporadas de seriados, o software de animação Maya 3D (cuja licença de uso chega a 15 mil reais), o AutoCad 2009 (que custa 5 mil) e muitas outras maravilhas e bobagens.
Por meio de sites como o Demonoid ou de rastreadores como o Mininova, o isoHunt, o EzTv (exclusivo para seriados de televisão) e de softwares como o eMule e o Soulseek, é possível ter acesso tanto à discografia dos Beatles quanto à filmografia completa daquele diretor russo obscuro que gosta de abordar temas eqüinos.
Todas essas formas de compartilhamento usam a tecnologia P2P (peer-to-peer, literalmente par a par). Elas tiveram início com o Napster, em 1999, o primeiro programa de troca intensa de arquivos. Estima-se que, na época, 8 milhões de usuários chegaram a baixar músicas uns dos outros, em trocas diretas mediadas pelo software. O Napster foi fechado em março de 2001, depois de uma batalha judicial travada pela Recording Industry Association of America, Riaa, o sindicato da indústria fonográfica americana, que o acusou de violar as leis do copyright. Imediatamente, dezenas de outros programas surgiram, como o AudioGalaxy e o Kazaa, além do Soulseek, do eMule e do LimeWire.
Criado pelo americano Bram Cohen, o protocolo BitTorrent inovou a lógica do compartilhamento de arquivos, e logo angariou 150 milhões de adeptos. Baseado em rastreadores, é colaborativo e descentralizado: não disponibiliza nenhum arquivo diretamente e, portanto, é mais difícil de ser “desativado”. Além disso, possibilita a troca de arquivos pesados e acelera a velocidade do download conforme a popularidade do conteúdo. Um episódio da série Lost, por exemplo, pode ser baixado no Brasil em menos de uma hora, logo depois da sua exibição nos Estados Unidos, e as legendas são produzidas no mesmo dia por equipes de fãs. A vasta maioria dos filmes, softwares e CDs piratas vendidos pelos camelôs é baixada pelo BitTorrent.
Os problemas do site Demonoid, cujo símbolo é um demônio verde, começaram em junho do ano passado. A Brein, organização holandesa antipirataria, entrou com uma ação contra a empresa e a forçou a tirar os seus servidores dos Países Baixos. Segundo a associação, a questão não é se o site hospeda ou deixa de hospedar os arquivos, e sim o fato de divulgá-los, sem zelar pelo pagamento de direitos autorais.
Com isso, o Demonoid mudou seu domínio para o Canadá. Mas não durou muito tempo: em setembro, saiu do ar devido às pressões da Canadian Recording Industry Association, Cria, a associação da indústria fonográfica do país. Os rastreadores voltaram depois de uns dias, mas o tráfego dos usuários canadenses foi bloqueado. Finalmente, em 9 de novembro, o Demonoid fechou as portas para valer, temendo as ações da Cria. Milhares de downloadores ficaram órfãos. Em janeiro, os rastreadores foram brevemente restabelecidos na Malásia, mas tornaram a desaparecer. Para os membros do Demonoid, foi um longo inverno até 11 de abril. A batalha parecia perdida quando, de surpresa, os rastreadores ressuscitaram, desta vez com num novo administrador e uma nova sede: a Ucrânia.
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A indústria do entretenimento e os defensores do copyright batalham pela dissolução das redes e sites como o Demonoid porque, para eles, o compartilhamento ilegal de arquivos equivale a roubar uma loja de discos e furtar os próprios autores da obra, produtores e demais envolvidos na feitura de um filme, um seriado ou um CD de música. Enquanto uns tratam o assunto como pirataria, outros o vêem como acesso ao conhecimento.
A batalha é acirrada e os piratas estão vencendo. E fazem barulho: em agosto passado, no retorno do site Suprnova.org, promovido pelos administradores do Pirate Bay, surgiu um manifesto que encheria de orgulho o próprio Capitão Gancho. O texto dizia: “O que quer que vocês afundem, nós construiremos de novo. Quem quer que vocês processem, dez novos piratas serão recrutados. Aonde quer que vocês forem, estaremos na frente. Vocês são o passado e os esquecidos, nós somos a internet e o futuro.”







