O Verão do Chibo (2008, Alfaguara)

Posted: 6th junho 2008 by Vanessa Barbara in Livros
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Emilio Fraia e Vanessa Barbara
Ficção/Romance
ISBN: 9788560281510
Lançamento: 06/06/2008
Formato: 15 x 23,4
120 páginas
Preço: R$ 29,90
Editora: Objetiva || Selo: Alfaguara

Ao falar sobre os ritos de passagem da infância para a adolescência, esses dois jovens autores criaram um dos livros mais originais da nova safra brasileira

O verão do Chibo revela a habilidade narrativa de dois autores que já podem ser incluídos entre os mais originais da nova geração de escritores brasileiros.

Obra sutil, muitas vezes cômica, outras vezes emocionante, trata, sobretudo, dos mistérios que cercam o amadurecimento.

No livro, um menino de cerca de sete anos, mergulhado num universo muito particular, descreve suas aventuras nas férias de verão, embrenhado num milharal ao lado de outros amigos. Mas esse é um verão diferente. Pois Chibo, seu irmão mais velho, some misteriosamente, e os outros garotos parecem seguir o mesmo caminho.

Emilio Fraia e Vanessa Barbara contam que trabalharam de forma exaustiva, nesse seu primeiro romance, para mesclar idéias e estilos e conseguir alcançar uma voz narrativa coesa. “Quando duas pessoas escrevem juntas, e não são vaidosas, o resultado é melhor do que quando trabalham separadas.” A frase, do escritor argentino Adolfo Bioy Casares sobre a famosa parceria com Jorge Luis Borges, é usada pela dupla para ilustrar a motivação que os une.

 

 Leia um trecho do livro em PDF

Fim de verão

Posted: 4th junho 2008 by Vanessa Barbara in Clipping
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Vanessa Barbara e Emilio Fraia estréiam literariamente com um louvável romance escrito a quatro mãos

Revista Cult n. 125
Junho de 2008

por Eduardo Sterzi

Revista Diálogos&Debates
ed. 32 – Junho de 2008

por Vanessa Barbara

Projetos aparentemente bobos, mas cheios de provocação, as intervenções do grupo Viajou Sem Passaporte fizeram presença no final dos anos 70. Houve muitas, como a Trajetória do Curativo, a do Paletó e o Trem Fantasma no Parque Ibirapuera…

    

 

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Revista Piauí n. 20
Maio de 2008

por Vanessa Barbara

A volta do site Demonoid.com traz esperança à turma dos bucaneiros.

“A profecia foi cumprida: regozijai-vos e semeai, ó fiéis!”, exclamou Clement Kuo, da Califórnia, num fórum especializado. Depois de cinco meses fora do ar, no dia 11 de abril o site Demonoid.com finalmente voltou à ativa. Ele é um indexador e rastreador público de arquivos de filmes, músicas, jogos e softwares em formato BitTorrent – o protocolo de processamento rápido para download. Ou seja: é dor de cabeça para os defensores da propriedade intelectual na internet, já que a maioria dos arquivos compartilhados pela rede BitTorrent é protegida por leis de copyright.

A coisa funciona assim: um belga generoso de codinome “Pandris” decide compartilhar na internet um documentário raro sobre fotografia. Ele transfere o conteúdo do DVD para o computador e cria um arquivo .torrent, um instrumento que fragmenta o original e organiza suas informações: nome do filme, tamanho, dados de cada bloco, seqüências de bits e, finalmente, o endereço do servidor tracker (o rastreador). É aí que entram sites como o Demonoid. Eles hospedam o link para o arquivo do nosso prestativo belga, permitindo que um brasileiro amante de fotografia se conecte a ele e inicie o download do conteúdo em blocos.

Em geral, o usuário demora dias ou semanas para baixar um filme inteiro, embora alguns afortunados consigam receber vasta quantidade de conteúdo em poucas horas. Para esses, o belga faria um alerta mais ou menos assim: “Tenham paciência, pois minha velocidade de upload (envio) é ridícula, e não posso deixar o computador ligado à noite, já que divido o apartamento com um colega e o PC é muito barulhento.” Aos poucos, centenas de curiosos conseguem baixar os blocos do filme e se tornam semeadores simultâneos, de modo que o belga não precisa mais deixar seu computador ligado – para alívio de seu companheiro de quarto. Assim, os arquivos são obtidos aos pedaços de várias fontes diferentes, ao mesmo tempo.

***

O Demonoid é o segundo maior site de trackers do mundo, perdendo apenas para o sueco The Pirate Bay (Baía dos Piratas), que, por não hospedar o conteú-do e ser apenas um indexador, não tinha problemas com a justiça – até maio do ano passado, quando a polícia sueca invadiu sua sede e apreendeu os computadores. O site ficou fora do ar três dias, e voltou à ativa com sarcásticos comentários em resposta às diversas ameaças de processo. Os administradores do Pirate Bay lembraram que as leis dos Estados Unidos não se aplicam à Suécia, “terra dos vikings, das renas, da aurora boreal e das loiras”. Ainda afirmaram que, “ao contrário de outros países, temos leis sensatas de copyright. Mas também temos ursos polares vagando pelas ruas e atacando as pessoas”. Em abril passado, o Pirate Bay ameaçou inverter a lógica: anunciou que processará a Federação Internacional da Indústria Fonográfica por bloquear o site para os usuários da Dinamarca.

O Demonoid é um site mais organizado, que aceita apenas membros indicados e abre novas inscrições periodicamente. Além disso, recomenda uma taxa mínima de upload e se reserva o direito de banir os membros que não colaboram com o compartilhamento. Por hospedar uma quantidade enorme de rastreadores de qualidade, é bastante conceituado. Por exemplo: seu mecanismo de busca registra 47 títulos do selo americano Criterion (que no Brasil está disponível apenas para importação), os três volumes do documentário Contacts, a coleção completa da revista Mad, coleções integrais de gibis de super-heróis, e-books, temporadas de seriados, o software de animação Maya 3D (cuja licença de uso chega a 15 mil reais), o AutoCad 2009 (que custa 5 mil) e muitas outras maravilhas e bobagens.

Por meio de sites como o Demonoid ou de rastreadores como o Mininova, o isoHunt, o EzTv (exclusivo para seriados de televisão) e de softwares como o eMule e o Soulseek, é possível ter acesso tanto à discografia dos Beatles quanto à filmografia completa daquele diretor russo obscuro que gosta de abordar temas eqüinos.

Todas essas formas de compartilhamento usam a tecnologia P2P (peer-to-peer, literalmente par a par). Elas tiveram início com o Napster, em 1999, o primeiro programa de troca intensa de arquivos. Estima-se que, na época, 8 milhões de usuários chegaram a baixar músicas uns dos outros, em trocas diretas mediadas pelo software. O Napster foi fechado em março de 2001, depois de uma batalha judicial travada pela Recording Industry Association of America, Riaa, o sindicato da indústria fonográfica americana, que o acusou de violar as leis do copyright. Imediatamente, dezenas de outros programas surgiram, como o AudioGalaxy e o Kazaa, além do Soulseek, do eMule e do LimeWire.

Criado pelo americano Bram Cohen, o protocolo BitTorrent inovou a lógica do compartilhamento de arquivos, e logo angariou 150 milhões de adeptos. Baseado em rastreadores, é colaborativo e descentralizado: não disponibiliza nenhum arquivo diretamente e, portanto, é mais difícil de ser “desativado”. Além disso, possibilita a troca de arquivos pesados e acelera a velocidade do download conforme a popularidade do conteúdo. Um episódio da série Lost, por exemplo, pode ser baixado no Brasil em menos de uma hora, logo depois da sua exibição nos Estados Unidos, e as legendas são produzidas no mesmo dia por equipes de fãs. A vasta maioria dos filmes, softwares e CDs piratas vendidos pelos camelôs é baixada pelo BitTorrent.

Os problemas do site Demonoid, cujo símbolo é um demônio verde, começaram em junho do ano passado. A Brein, organização holandesa antipirataria, entrou com uma ação contra a empresa e a forçou a tirar os seus servidores dos Países Baixos. Segundo a associação, a questão não é se o site hospeda ou deixa de hospedar os arquivos, e sim o fato de divulgá-los, sem zelar pelo pagamento de direitos autorais.

Com isso, o Demonoid mudou seu domínio para o Canadá. Mas não durou muito tempo: em setembro, saiu do ar devido às pressões da Canadian Recording Industry Association, Cria, a associação da indústria fonográfica do país. Os rastreadores voltaram depois de uns dias, mas o tráfego dos usuários canadenses foi bloqueado. Finalmente, em 9 de novembro, o Demonoid fechou as portas para valer, temendo as ações da Cria. Milhares de downloadores ficaram órfãos. Em janeiro, os rastreadores foram brevemente restabelecidos na Malásia, mas tornaram a desaparecer. Para os membros do Demonoid, foi um longo inverno até 11 de abril. A batalha parecia perdida quando, de surpresa, os rastreadores ressuscitaram, desta vez com num novo administrador e uma nova sede: a Ucrânia.

***

A indústria do entretenimento e os defensores do copyright batalham pela dissolução das redes e sites como o Demonoid porque, para eles, o compartilhamento ilegal de arquivos equivale a roubar uma loja de discos e furtar os próprios autores da obra, produtores e demais envolvidos na feitura de um filme, um seriado ou um CD de música. Enquanto uns tratam o assunto como pirataria, outros o vêem como acesso ao conhecimento.

A batalha é acirrada e os piratas estão vencendo. E fazem barulho: em agosto passado, no retorno do site Suprnova.org, promovido pelos administradores do Pirate Bay, surgiu um manifesto que encheria de orgulho o próprio Capitão Gancho. O texto dizia: “O que quer que vocês afundem, nós construiremos de novo. Quem quer que vocês processem, dez novos piratas serão recrutados. Aonde quer que vocês forem, estaremos na frente. Vocês são o passado e os esquecidos, nós somos a internet e o futuro.”

AH1294157733x56831Piauí n. 19
Abril de 2008

por Vanessa Barbara

De maneira trôpega, claudicante e bocó de tudo

Não se sabe ao certo quem deu o primeiro passo tolo da história. Sabe-se, no entanto, que em 1970 o grupo britânico Monty Python apresentou um esquete sobre o Ministério das Caminhadas Tolas, no qual o comediante John Cleese, de terno e chapéu, estendia a perna em 90 graus e ia saltitando rumo ao trabalho, onde recebia em seu gabinete um cidadão que buscava apoio da Coroa para desenvolver uma silly walk – ou seja, uma andada bocó – de sua própria autoria. Há quem diga que a gênese da silly walk (em francês, marche futile; em alemão, sinnlos Gehen; em italiano, passeggiata cretina; em espanhol, paseo estúpido; em latim, passus stultus) remonta a Ricardo III, rei coxo e corcunda que fazia os cães latirem quando passava. Ou ao Corcunda de Notre-Dame, a Chaplin e a Groucho Marx, notáveis criadores de passadas ridículas.

Se a origem é controversa, uma coisa é certa: o Brasil sempre esteve na vanguarda da história. Desde há muito, tem se destacado no setor, com Curupira, Saci-Pererê, Jânio Quadros e Garrincha, entre muitos silly walkers proeminentes. Uma nova prova da expertise pátria foi dada depois do último Carnaval. Quando todos já andavam em linha reta, a nação escreveu em São Paulo um capítulo inovador sobre o tema: promoveu uma caminhada tola organizada – a primeira do mundo.

Foi num domingo, às quatro da tarde, no vão livre do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, na avenida Paulista, que os militantes se concentraram para o aquecimento idiota. Inspirados no comediante do Monty Python, os participantes da 1a Silly Walk Brasil usavam chapéus e traziam guarda-chuvas exagerados. Alguns pretendiam apenas imitar John Cleese, embora aperfeiçoando o giro aéreo da perna esquerda, que, para os mais críticos, não parecia suficientemente tolo. Outros apresentariam criações particulares, como o Homem Descendo a Escada, que exige muito das coxas, e a Cavalgada sem Cavalo, inspirada no filme Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, de 1975. A estudante Elisa Mafra, de 20 anos, declarou que iria fazer um medley de estilos, sem, no entanto, desprezar os grandes clássicos. Pensou numa silly walk lateral, mas “com certeza eu iria cair”.

Como tudo ali era de uma rematada tolice, o percurso da passeata foi entregue, deliberadamente, ao deus-dará. “Para onde a gente for, a gente vai”, declarou o organizador, Tiago Lima de Andrade, de 21 anos. “Vai ter sempre um andarilho mané caminhando em círculo”, previu um participante, justificando a impossibilidade de predefinir trajetos.

O aquecimento demorou mais de vinte minutos. O atleta bobo mais promissor é Marcelo Montserrat Silva, o “Sunshine”, de 15 anos. Ele deu piques extremamente imbecis no meio da multidão, indo e vindo feito um pateta pela calçada, tropeçando de vez em quando e, de súbito, se escondendo atrás do guarda-chuva, em pose misteriosa. Marcelo tem os cabelos compridos, encaracolados, e usa uma cartola por cima do capuz. Para ele, o evento é uma oportunidade de exibir a cartola sem que o fato configure um “insulto à moralidade pública”.

Um dos participantes sugeriu uma silly walk dentro do próprio museu. “Dependendo da sala, a gente grita: ‘Todo mundo fazendo silly walk cubista! Agora, expressionista!'” Com erudição invejável, arrematou: “Natureza morta é tipo zombie walk”, referindo-se ao evento fúnebre-peripatético de origem canadense e várias edições no Brasil, no qual centenas de mortos-vivos se fantasiam de zumbis e avançam pelas ruas aos gritos de Cérebro!, Miolos!.

***

A instantes da largada, um tocador de realejo arregalou os olhos e apurou os ouvidos. O organizador Tiago abriu o guarda-chuva e gritou: “É chegado o momento!” – e disparou na frente. Atrás dele, a massa de aproximadamente vinte silly walkers vai atrás, a andar tolamente pelas calçadas da avenida Paulista. Os destaques foram a revolucionária caminhada lateral (ou de banda) de Elisa Mafra, que optou pela glória e pelo reconhecimento de seus pares em detrimento da própria segurança, e a silly walk altamente flexível (abaixa, levanta, acelera, pára, se esconde com grande mistério) de Marcelo Sunshine, um verdadeiro fundista que liderou a marcha do início ao fim.

Na avenida, os transeuntes andavam de forma pouco tola e fingiam ignorar a massa de gente saltitando, trotando e fazendo força para se comportar como rematados basbaques. Já no primeiro quarteirão, a turma mais militante parou para se abanar, pois, segundo a opinião geral, andar tolamente é muito cansativo. Ainda mais para os seguidores do movimento nerd, cujo único movimento real costuma ser da geladeira para o computador, do computador para a geladeira, conforme os próprios. “Eu às vezes vou para a sala também”, comentou Tiago, ao que Elisa, aventureira, acrescentou: “A sala entra nos meus planos porque o DVD está lá.”

O cansaço foi maior para Joel Dias, de 16 anos, criador da pitoresca silly running (corrida tola), que, embora tenha lhe servido apenas para atravessar o sinal, arrancou aplausos dos que corriam atrás. Mais dois quarteirões e os adeptos da bobajada ambulante estavam acabados. A turma enfim se concentrou em frente ao prédio da Gazeta, onde uma fileira de guardas sérios recusou-se a lhes dar um mínimo de atenção, mantendo o olhar fixo no horizonte. Nos últimos instantes da passeata, Vinícius Schiavini, de 24 anos, também repórter do site Jovem Nerd, ainda inventou o caminhar Silvio Santos, enquanto uma colega sua, praticante do jornalismo participativo, alcançou a consagração com seu passo Sidney Magal. “É totalmente tolo”, admite Vinícius. “E ela usa a mão, o que é raro entre os contemporâneos”, comenta outro paspalho.

Embora os organizadores neguem, a 1a Silly Walk Brasil teve um fundo político. Entre os participantes, todos lamentam o descaso do governo com os silly walkers, principalmente diante do fato de que, na Inglaterra, há um ministério específico para cuidar do assunto. Por que no Brasil não temos um igual? Vinícius Schiavini explica que seria redundância. “Todos já cumprem essa função”, diz, referindo-se à governança cretina e à legislatura descerebrada. “O governo negligencia as silly walks”, protestou Vinícius, que ainda não conseguiu verba da Lei Rouanet. “A gente tentou, mas não é fácil”, completou Yule Barbosa, de 21 anos, estudante de artes plásticas na USP. “Tudo aqui é burocracia. Como é que o país vai pra frente sem uma boa silly walk?”

 

Primeiro livro da parceria dos dois escritores, Seis Problemas para Dom Isidro Parodi ganha nova edição em português

O Estado de São Paulo / Cultura
15 de março de 2008

por Vanessa Barbara e Emilio Fraia

Em uma noite de 1936, na sala de jantar da fazenda dos Bioy, Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares inventaram, juntos, uma família búlgara. A história integraria um folheto publicitário, A Coalhada La Martona: Estudo Dietético Sobre Os Leites Ácidos, encomendado por um tio de Casares. Dono da próspera companhia leiteira La Martona, ele prometera à dupla um pagamento vultoso por página. Bioy e Borges se animaram. Passaram a escrever um texto empolado e divertido sobre as vantagens do produto, com frases do tipo: ”Quem tem saúde tem esperança, e quem tem esperança tem tudo – dizem os árabes, esses musculosos falcões do deserto, mas eles têm por trás da esperança algo que luta por sua saúde: a coalhada.” No folheto, aprendemos que o iogurte aproxima o homem da imortalidade e que, na Bulgária, onde é um alimento apreciado, abundam os centenários. ”O exemplo clássico é dos onze irmãos Petkof”, garantem os autores, ”que chegaram todos aos cem anos, com exceção de María Petkof, morta aos 91”.

Bioy e Borges redigem capítulos sobre os méritos do iogurte entre os bretões, os franceses, os tártaros e os calmucos; inventam receitas para preparar bolos e pães de milho. Ao longo das páginas, vão amontoando dados de forma desconexa, afirmações vazias de conteúdo e tiradas repentinas, sem um contexto que as explique ou justifique. Para simular o discurso científico, incluem citações de supostas autoridades, além de frases bíblicas. O resultado é um texto pouquíssimo comercial e de linguagem rebuscada, que, entre elogios ao leite balcânico e ponderações sobre os benefícios de bacilos e outros micróbios, revela o estilo inconfundível de H. Bustos Domecq: o pedantismo, o humor irônico, a mistura de referências absurdas com citações verdadeiras. Começava assim, em uma noite de 1936, com uma família búlgara numa sala de jantar, uma das mais intensas parcerias da história da literatura.

PÓS-IOGURTE

Honorio Bustos Domecq, o ”terceiro homem” que assinou grande parte das narrativas em colaboração de Bioy e Borges, nasce em 1941, cinco anos depois da experiência com o iogurte. Bustos era o sobrenome de um bisavô de Borges; Domecq, de um bisavô de Bioy. Segundo Borges, ”Domecq não tardou a nos governar com mão de ferro e, para nossa grande alegria, e depois consternação, veio a ser muito diferente de nós, com seus próprios caprichos e chistes”. Para os críticos Michel Lafon e Benoit Peeters, que juntos publicaram Nous est un Autre, uma espécie de investigação sobre a escrita colaborativa, ”a voz de Bustos Domecq era grandiloqüente e extravagante, e não a mera superposição da voz dos autores, mas sua transcendência, nascida de um elo misterioso que só existia no ato da colaboração”. Quatro livros foram escritos sob a alcunha do autor-personagem: Seis Problemas para Dom Isidro Parodi (1942), Duas Fantasias Memoráveis (1946), Crônicas de Bustos Domecq (1967) e Novos Contos de Bustos Domecq (1977).

Esta parceria – que se desdobrou em traduções, organização de antologias, escrita de artigos, prefácios e roteiros de cinema – é a história de uma profunda amizade e, também, de intercâmbios e contaminações mútuas, em um diálogo literário vigoroso. Quando se conheceram, no início da década de 30, Bioy tinha 17 anos e Borges, pouco mais de 30. A partir de então, e por muito tempo, passaram a se encontrar com freqüência para discutir textos, inventar e aperfeiçoar personagens e tramas. Em seu ensaio autobiográfico, Borges escreve que um dos principais acontecimentos de sua vida foi o início desta relação. ”Ao se opor a meu gosto pelo patético, pelo sentencioso e pelo barroco, Bioy fez-me sentir que a discrição e o comedimento são mais convenientes”, anota Borges. ”Eu diria que Bioy foi me levando aos poucos ao classicismo.” Para Bioy, ”toda colaboração com Borges equivalia a anos de trabalho”. O autor de A Invenção de Morel diz que aprendia com o amigo sem nenhum pudor ou restrição: ”Quando duas pessoas escrevem juntas, e não são vaidosas, o resultado é melhor do que quando trabalham separadas”.

ECOS DE ECOS

Em Seis Problemas para Dom Isidro Parodi, que a Globo lança este mês em uma edição que inclui Duas Fantasias Memoráveis (tradução de Maria Paula Gurgel Pinheiro), pode-se dizer que Borges e Bioy (ou seja, Bustos Domecq) criam relatos policiais clássicos, nada de narrativas realistas ou psicológicas – ”mera verossimilhança sem invenção”. Nesse esquema de colaboração, Bioy e Borges discutiam a trama, norteados por uma série de regras: oralidade triunfante, propostas alternadas, exigência mútua, direito permanente de veto, prioridade ao jogo e ao prazer. Isidro Parodi, ”um quarentão, sentencioso, obeso e de olhos singularmente sábios”, encarna o limite e a paródia da idéia clássica do detetive imóvel, representação pura da inteligência analítica. No livro, tudo é resolvido a partir de uma seqüência lógica de hipóteses e deduções. A estrutura é simples: os envolvidos no crime acorrem à cela de Parodi, preso por um crime que não cometeu, e se põem a relatar os acontecimentos. Esses discursos escondem os indícios necessários para a resolução do caso, e não é raro que a reescritura, a paródia, o plágio e a tradução estejam entre os motivos ocultos do crime. Nada mais conveniente em uma escrita em dupla, observa Lafon, do que falar de si mesma.

As obras individuais de Bioy e Borges também estão repletas de temas que tangenciam e fazem ecoar a idéia do duo literário. Relatos como O Outro e Tema do Traidor e do Herói (Borges) ou A Trama Celeste e A Invenção de Morel (Casares) amplificam as questões do ”duplo” e das ”realidades paralelas”. No epílogo de suas obras em colaboração, depois de citar The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, de Stevenson, Borges diz: ”A arte da colaboração literária é a de executar o milagre inverso: fazer com que dois sejam um.” Um outro texto, Pierre Menard, a história do homem que reescreveu de maneira idêntica, linha por linha, o Quixote, encabeça o ataque à idéia de criação literária original, considerada por Borges um dos mais graves enganos. A reescritura, a paródia e o plágio são parte das estratégias de Borges para dissolver a idéia de autoria. O crítico Daniel Balderston escreve que Borges formulou em várias ocasiões sua idéia de que a criação literária é em grande parte algo impessoal, por ser cada escritor arquétipo de todos os escritores. ”Talvez, para Borges, a colaboração seja uma forma de superar o ”eu” e a idéia ególatra de que uma obra está possuída por seu autor”, argumenta Balderston. ”Para ele, somos todo o passado, somos nosso sangue, somos a gente que vimos morrer, os livros, somos gratamente os outros.”

TOM E JERRY DO THRILLER

É muito freqüente, no entanto, que os duos literários sejam ignorados ou menosprezados pela crítica, que costuma reduzi-los a circunstâncias determinadas: anos de aprendizagem, exercícios de estilo ou tarefas sob encomenda. Em muitas entrevistas, Bioy e Borges chegaram a considerar ”menores” as obras de Domecq. Em seu ensaio autobiográfico, no entanto, Borges afirma que alguns textos de Bustos Domecq são melhores do que tudo o que ele publicou sob o próprio nome e quase tão bons quanto aquilo que Bioy escreveu sozinho. Sobre The Wrecker, livro cuja autoria Stevenson dividiu com seu enteado, Borges diz: ”Esta novela é a melhor de Stevenson, mas permaneceu ignorada. Ninguém se aventura a elogiar páginas de duvidosa paternidade”.

Para Lafon e Peeters, os críticos costumam nivelar as obras em colaboração, atribuindo a verve literária às piruetas de dois acrobatas. Bioy e Borges suscitam, assim, as mesmas comparações que outros duos literários: são o Tom e Jerry do thriller, o Bouvard e Pécuchet do suspense, o Batman e Robin do crime, quando não o Fred Astaire e Ginger Rogers do romance. Como se essas comparações acabassem por alimentar uma condescendência divertida e dispensassem a análise verdadeira dos textos.

É MEU!, É MEU!

Os casos de parceria na literatura obedecem aos mais diversos princípios. Os inseparáveis irmãos Goncourt, por exemplo, escreviam um diário juntos e encarnaram o máximo da fusão literária, estética, afetiva e psicológica, muito além da escrita em dupla. Jules e Edmond inclusive dividiam as amantes. Já Alexandre Dumas e Auguste Maquet foram parceiros durante sete anos e produziram, juntos, 17 romances. Não haveria nenhum problema na colaboração, se Dumas não assinasse sozinho todos os livros. Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo e A Rainha Margot foram alguns dos romances dessa parceria.

Outro tipo de colaboração foi encarnado por Jules Verne e seu editor, Jules Hetzel. Verne era um autor inexperiente e fazia um papel quase submisso diante das exigências do chefe. O escritor chegava a implorar pela atenção do editor, dizendo que não poderia terminar o livro sem a presença dele. Também Colette e seu marido Willy mantiveram uma parceria literária. Durante dez anos, ela escreveu e ele assinou. Willy mantinha a esposa no anonimato e embolsava seus direitos autorais pela série da personagem Claudine, que fez muito sucesso na época. Mais feliz foi a parceria conjugal entre Julio Cortázar e Carol Dunlop, que escreveram juntos Os Autonautas da Cosmopista. O livro, um relato de uma viagem de carro pela auto-estrada Paris-Marselha, é uma mistura de fragmentos de manuais, diálogos, desenhos e fotografias, sem distinção de autoria. Para eles, a colaboração era uma maneira de lutar contra a morte e de celebrar o amor, a alegria compartilhada e a cumplicidade do instante. Mesmo Gustave Flaubert, o anti-colaborador por excelência, chegou a escrever um livro (nunca publicado) em parceria com o amigo Maxime Du Camp. Era o diário de uma viagem ao oeste da França, que inicialmente seria escrito ao longo da jornada – o que não deu certo, pois estamos falando do preciosista Flaubert. O livro teria doze capítulos: a Flaubert cabiam os ímpares e a Du Camp, os pares. O curioso é que algumas das passagens mais flaubertianas são da autoria de Du Camp. Misturas assim também aconteciam com Borges e Bioy. ”Quando alguém quer saber se essa ou aquela brincadeira ou epíteto saiu de meu lado da mesa ou do lado de Bioy, sinceramente não sei dizer”, confessa Borges. ”Toda colaboração é misteriosa.”

A parceria entre Borges e Bioy é, sobretudo, uma história de amizade. Na página que abre Ficções, dividem a cena um espelho e Bioy Casares. O conto é Tlõn, Uqbar, Orbis Tertius e nele Borges escreve: ”Do fundo remoto do corredor, o espelho nos espreitava. (…) Então Bioy Casares lembrou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens.” Eles descobrem, juntos, que os espelhos têm algo de monstruoso. Nenhuma trama de Borges e Bioy é tão fantástica quanto Borges e Bioy.


Emilio Fraia e Vanessa Barbara são jornalistas, escrevem para a revista Piauí e, juntos, lançam este semestre seu primeiro livro, O Verão do Chibo (Alfaguara)

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,borges-e-bioy-ficcao-de-cano-duplo,140977,0.htm

História bem triste

Posted: 13th janeiro 2008 by Vanessa Barbara in Ficção
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Revista da Folha n. 800
13 de Janeiro de 2008

O palhaço subiu no Lauzane/178L e apareceu no corredor do ônibus com aqueles sapatões, jogou a pasta de couro no banco dos idosos e remexeu os bolsos em busca de uns trocados. Achou apenas uma interminável fila de lenços coloridos. O palhaço, que se recusara a pegar carona num fusca com outros doze colegas, teve que passar por baixo. Praguejou alguma coisa, cansado, e encostou a cabeça no vidro. O dia no escritório tinha sido difícil. O palhaço olhava pela janela e pensava no encarregado do trem-fantasma, que se afogara na tina dos elefantes porque não conseguia assustar ninguém.


VANESSA BARBARA, 25, é repórter da revista “Piauí” e editora do periódico “A Hortaliça”

Tudo por 1,99

Posted: 3rd dezembro 2007 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 15
Dezembro de 2007

por Vanessa Barbara

Em quatro dias de evento, não sobrou um só esguicho de metal

O moderno escorredor de enlatados da Plick Novidades é “ideal para comprimir e espremer dentro de sua própria lata produtos como o atum, extraindo assim o óleo ou salmoura indesejável”. Além de espremer e comprimir, o engenhoso design do escorredor Plick faz dele um produto flex, isto é, permite usá-lo também como peneira. A engenhoca é feita de poliestireno 100% atóxico e está disponível na cor branca. Preço sugerido no varejo: módicos 1,99. Por igual valor, você, consumidor final, levará um pacote de palhas de aço UsiBem, um pregador multiuso Zeek, uma pasta desengraxante Fuzetto ou, por que não?, um par de escovas de dente “pai e filho” com o escudo do seu time do coração – mesmo que ele seja o Coritiba ou o Atlético Paranaense, versões também disponíveis para venda.

Em sua 15ª edição, a “Feira 1,99 Brasil” ofereceu essas e outras maravilhas do varejo popular a lojistas, distribuidores e revendedores, a preços de atacado. Para fazer a feira era preciso ter CNPJ e disposição para comprar lotes fechados – por exemplo, 200 papa-bolinhas (extirpador de bolinhas de roupas) ou 480 mata-moscas. O evento ocorreu no amplo Pavilhão Vermelho do Expo Center Norte, centro de exposições na Vila Guilherme, em São Paulo, e contou com 160 expositores. Em apenas quatro dias, o público deu fim, entre outras mercadorias, a todo o estoque de esguichos de metal e porta-CDs em forma de porquinho.

“Se isso chega na minha loja, não pára nem um dia”, observa um comerciante, indicando uma lousa mágica (para desenho) em meio a um amontoado de brinquedos de plástico. “A lousa e o cubo mágico”, completa, enquanto seu sócio fecha um pedido de 25 bolsas de náilon. Os dois têm uma loja de 1,99 em Feira de Santana, na Bahia. Estão visitando o maior stand do evento, o da distribuidora Issam. Abrindo caminho entre a massa de clientes, apanham alguns produtos, perscrutam, fazem perguntas, devolvem às prateleiras. Entre os itens esgotados, está um relógio de pulso verde da marca Hua Qian.

O evento se realiza duas vezes por ano, em março e outubro. Ao contrário de outros segmentos do comércio e da indústria, que se contentam com feiras anuais, o setor de 1,99, cujo giro de mercadorias é bem mais veloz que o das lojas tradicionais, exige que se façam feiras semestrais para acompanhar o movimento dos estoques. A de março é uma prévia do Dia das Mães, e em outubro se consolidam as encomendas para as festas de fim de ano. Donde a profusão de bolas douradas, laços natalinos, lâmpadas pisca-pisca e Papais Noéis de papel.

Ao entrar no enorme paraíso das bugigangas, o visitante recebe um mapa para se localizar, mas não é o suficiente. Melhor seria um GPS. A feira é um labirinto de potes de plástico e brinquedos semidescartáveis. O ambiente é claustrofóbico e, vez por outra, surreal. Subitamente, duas moças de patins passam voando, ambas com orelhas do Mickey – promoters de alguma loja que vende produtos licenciados da Disney. A maioria dos stands é apertada e entupida de gente. Em alguns há distribuição de brindes, como minitrenas e incensos de benjoim, estratégia não adotada no stand da Fini Guloseimas, cujo modus operandi se assemelha ao da CIA ou do MI-6, a agência onde trabalha James Bond: repórteres são sumariamente expulsos, pois é proibido anotar. Aos afortunados de cotovelos robustos, que conseguem passar à frente das massas, várias são as recompensas. (Algumas vendas são de varejo.) Por 1,99 você pode comprar um funcional amassador de papinha, também no stand da Plick. Por 1,99 você compra um frango de borracha, uma saboneteira com ventosas, um incenso sabor melão, um livro evangélico e um pacote de unhas postiças. Por 1,99 você leva para casa os mais diversos instrumentos de cutelaria e, se der sorte, ainda recebe uma bala de troco. (Conseguir o troco certo de 1 centavo é mais difícil do que descobrir os segredos da Fini Guloseimas.)

Há cerca de 25 mil lojas de 1,99 espalhadas pelo território nacional, com estantes abarrotadas de quinquilharia e poeira (o pó é intrínseco ao segmento). Elas movimentam 8 bilhões de reais ao ano. Há pouca informação sobre a gênese desse tipo de comércio popular, mas sabe-se que, no Brasil, uma das primeiras lojas de 1,99 foi criada há mais de doze anos em Balneário Camboriú, Santa Catarina, pelo empresário argentino Hugo Martignone. Hoje o estabelecimento se chama Super 1,99 e segue a tendência atual: em vez de “Tudo por 1,99”, os letreiros dizem “A partir de 1,99”.

De fato, embora os produtos de 1,99 ainda representem o carro-chefe do negócio, na maioria dos estabelecimentos os preços oscilam entre 1 real e 10 reais. A feira oferece incontáveis itens nessa faixa. Muitos expositores não tinham uma única quinquilharia a menos de 1,99. “Aqui, só cartão de Natal”, diz o vendedor da Grafon’s, fabricante de artigos de papelaria. “A única pessoa que eu conheci aqui que só vende artigos de 1,99 é uma chinesa, dona de uma loja de flores de plástico.”

Para as festas de fim de ano, que sempre incluem libações várias e celebrações pantagruélicas, o setor também oferece alimentos a granel, tais como pão de cachorro-quente, biscoitos de polvilho, amendoim confeitado e balas de goma em forma de dentadura. Isso sem falar nos cosméticos, indispensáveis ao festeiro formoso e úteis para fazer bonito no amigo-oculto. Um alentado pote de creme (verde) para mãos e pés, de marca indefinida, pode ser adquirido pelos lojistas a menos de 1 real e revendido a 1,99. Nas farmácias, um similar de marca custa, por baixo, 8 reais. E note-se: nem é feito de sebo de carneiro.

A coisa está à solta

Posted: 3rd dezembro 2007 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 15
Dezembro de 2007

por Vanessa Barbara

“Me deram um brinquedinho”, diz Wagner Souza Amorim, de 25 anos, funcionário do SAO (sem til) Parking, estacionamento do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. De cinco meses para cá, ele faz a ronda montado num patinete motorizado de 27 mil reais, o Segway, que desliza suavemente pelo piso. Wagner dirige o mimo com peito estufado e porte altivo. Entre duas fileiras de automóveis, breca com destreza para abordar uma funcionária. Faz manobras radicais inclinando o tronco para a frente e desenha curvas arrojadas jogando o corpo para os lados. Sobe as rampas do edifício-garagem e avança com a imponência de um cisne.Acha a geringonça utilíssima para cobrir a área; afinal, são 50 mil metros quadrados, distribuídos em cinco andares.

O Segway, ou a “Coisa” (seu inventor lhe deu originalmente o nome de It), é uma espécie de patinete elétrico de alta tecnologia, movido a bateria recarregável. O projeto é simples: duas rodas, um guidão e uma plataforma para os pés. Lançada em dezembro de 2001 pelo americano Dean Kamen, a Coisa ganhou imediatamente o posto de invenção do milênio, concedido pela imprensa especializada em objetos de desejo do mundo do consumo. Seria assim como um iPod da locomoção humana. A Coisa é mesmo esperta. O pulo do gato é um sistema inovador de estabilização dinâmica: o auto-equilíbrio do condutor. O patinete não tem acelerador nem freio, pois é controlado pelo movimento do corpo. Na base onde se apóiam os pés, há um conjunto de cinco giroscópios e microprocessadores que reproduzem o senso de equilíbrio do labirinto. Assim, acelera-se projetando o tronco para a frente e freia-se jogando-o para trás. Os sensores detectam qualquer retraimento ou inclinação do motorista e respondem na forma de movimento.

“Ganhamos em agilidade”, explica o diretor operacional e financeiro do SAO Parking, João Carlos da Silva, o Jota Silva, de 58 anos. O Segway foi escolhido para substituir as motos, que eram muito poluentes e ruidosas. “E ele entrou com o elemento-surpresa”, acrescenta, “porque agora os vigias se aproximam sem fazer barulho.” Os patinetes são alugados de uma empresa de Cotia, a Segway Brasil, que fornece dois aparelhos e cinco baterias elétricas a um custo de 1 800 reais mensais por unidade. Os Segways fazem até 20 quilômetros por hora (o que não é lá grande Coisa) e têm autonomia de aproximadamente oito horas. De acordo com o fabricante, multiplicam por cinco a área de cobertura de um vigilante.

Segundo Jota Silva, o treinamento na auto-escola do Segway dura cerca de quarenta minutos. Para o usuário, o segredo é alcançar a própria estabilidade em cima do aparelho, que, ao ser ligado, pára em pé sozinho, o que por si só já é uma sensação. O vigia Wagner levou meia hora para pegar o jeito, e confirma: é mole. Tornou-se um experiente piloto, capaz até de dar rodopios sem sair do lugar. “Uma vez caí numa segunda-feira, voltando do fim de semana”, justifica o diligente funcionário, alegando que os folguedos dominicais haviam prejudicado seu equilíbrio. A Coisa, com justiça, é conhecida por ser quase à prova de quedas.

Quase. Em junho de 2003, ao tentar montar num Segway, o presidente americano George W. Bush tomou um tombo diante das câmeras. O acidente ocorreu na propriedade de verão da família, no estado do Maine. O supremo dignitário não seguiu o manual, que aconselha o principiante a usar capacete e chamar um amigo para segurá-lo: “Se você tentar andar pela primeira vez sem um apoio, corre grande risco de se machucar e provavelmente não se divertirá muito”. Rindo da cara do perigo, Bush não usou capacete, não chamou um amigo e, ao que tudo indica, deve ter se esquecido de ligar o aparelho. Este, por sua vez, não acionou o sistema de auto-equilíbrio e arremessou pelos ares o líder do mundo livre. Kim Jong Il, o ditador da Coréia do Norte, também é fã ardoroso do Segway. Com a doce brisa de Pyongyang acariciando-lhe os cabelos espetados, vive a flanar pelos corredores de mármore de seus palácios a bordo de um patinete. Não consta que já tenha caído.

Jota Silva confessa que já caiu três vezes. Com os Segways do estacionamento de Congonhas, até agora ninguém chegou a se machucar gravemente e não houve atropelamentos, mas a Associação Brasileira de Pedestres (sediada em São Paulo) já protestou contra os Segways usados nas calçadas pelos seguranças da Faap, a Fundação Armando Alvares Penteado. Segundo o fabricante, o produto é destinado a circular em áreas de pedestres. Nos Estados Unidos, ele está autorizado a trafegar nas calçadas de 42 estados, embora com restrições. Inglaterra, Japão e Hong Kong baniram o tráfego nas calçadas, alegando que é proibida a circulação de veículos motorizados no espaço destinado a pedestres. Cidades como São Francisco adotaram a mesma regra.

No Brasil ainda não há legislação específica sobre patinetes. Não importa. Dentro ou fora da lei, no estacionamento de Congonhas o Segway é muito popular. “A Preta Gil encheu o saco e conseguiu dar uma volta no G5”, conta Jota Silva, referindo-se ao último andar do estacionamento. A cantora já havia experimentado a Coisa nos Estados Unidos. Gostou tanto que, ao reencontrá-la no Brasil, insistiu até dobrar o segurança.

É proibido emprestar a Coisa a curiosos. Afinal, ela tem mais o que fazer: mantém-se em ronda permanente para vigiar o estacionamento, leva e traz recados entre os funcionários e acompanha clientes de olhar ansioso que vagam pelos corredores atrás de carros que não sabem onde enfiaram. O SAO Parking adotou “o mais avançado meio de locomoção da história” para achar automóveis perdidos. Toda hora aparece gente que alugou um carro e não faz a mínima idéia da cor e da marca do dito-cujo. Segundo o condutor oficial Wagner Amorim, são pelo menos dez carros perdidos por dia. “O problema é que na etiqueta da chave a locadora não especifica o modelo do carro, então fica difícil achar”, diz Jota Silva. É a proverbial agulha no palheiro: um carro afogado entre 3 350 similares. Servicinho talhado para a Coisa.

Revista Diálogos&Debates
ed. 30 – Dezembro de 2007

por Vanessa Barbara

Para os adolescentes, relógios de pulso já vão em boa hora