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Piauí n. 15
Dezembro de 2007

por Vanessa Barbara

Missa em latim provoca protestos de fiéis de 3 anos

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti, diz o padre de costas, voltado para o altar. As palavras chegam miúdas na assembléia. Os fiéis têm os olhos fixos na estola verde sobre o dorso do sacerdote e no seu barrete litúrgico. Ele segue adiante: Introibo ad altare Dei, e sobe um degrau. Alguns fiéis respondem: Ad Deum qui lætificat juventutem meam [Ao Deus que alegra minha juventude], e viram a página do missal. A maioria se mantém calada, de joelhos e olhando para baixo. Outros rezam o terço ou tentam controlar suas crianças. Do altar, o padre prossegue com a oração inicial: Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto. Os fiéis replicam: Sicut erat in principio et nunc et semper et in sæcula sæculorum. Amen. É o começo da missa.

Desde o dia 16 de setembro, pode-se assistir, aos domingos, a uma missa em latim no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. O ofício acontece às 18 horas e segue o rito tridentino, com o padre de costas para os fiéis, guardando distância. No dia do retorno à missa de são Pio V (1504-1572), ou “missa de sempre”, como é chamada pelos tradicionalistas, mais de 400 pessoas compareceram ao mosteiro.

Num domingo de outono, o número de fiéis continua grande. Até que toda a congregação possa comungar, recebendo a hóstia das mãos de dois sacerdotes, passam-se mais de dez minutos. “Voltou de suas catacumbas modernas a missa de são Gregório Magno, de são Bento, de são Pio V e de são Pio X”, rejubila-se o presidente da Associação Cultural Montfort, Orlando Fedeli, num artigo para o jornal da instituição. “Graças ao papa Bento XVI, a nau da Igreja, de novo, foi atada à coluna da hóstia”, comemora. Entre vitrais alemães e paredes de madeira entalhada, o coral gregoriano da Montfort solta o latim no cântico “Gloria in excelsis Deo”, com acompanhamento do portentoso órgão Walcker de 6 mil tubos. Lá fora faz calor, mas os homens vieram de terno. As mulheres usam véus rendados, pretos ou brancos. Laudamus te, benedicimus te, adoramus te, segue o coro, liderado por um insólito japonês.

A essa altura, as crianças já estão cansadas – a missa não chegou nem à metade – e perambulam pela nave da igreja, com seus sapatinhos lustrosos e roupas de domingo. Há uma quantidade incrível de crianças. A terceira fila é ocupada por uma constelação de menininhas: Maria Lúcia, Maria Helena, Maria Cecília, Maria Tereza e Maria Clara, todas nascidas neste século. Cada uma traz uma bolsinha para carregar o véu e o terço, como se estivessem num filme italiano da década de 50. Maria Helena, de 3 anos, muito compenetrada, lê o missal de ponta-cabeça.

Meia hora depois de iniciado o ritual, chega o momento da liturgia da palavra. O mistério se adensa, dado que as passagens bíblicas não constam do missal ordinário. Lidas em latim pelo padre, são incompreensíveis para a maioria dos fiéis. Um garotinho protesta em voz alta, mas também não é compreendido. Ao “Deo gratias” do público, e a mais um cântico do coro, segue-se a leitura do Evangelho. Maria Helena vira a página. Atenta, ouve minutos e mais minutos da vida de Cristo desfiada na língua de Sêneca, até a conclusão: Per evangelica dicta deleantur nostra delicta [Que pelas palavras do Evangelho nos sejam perdoados os pecados], quando todos se sentam. Depois da homilia – pregada em português e, o que é melhor, ao som de um microfone -, o padre convoca a congregação a dizer o creio-em-deus-pai: Credo in unum Deum, Patrem omnipotentem, factorem coeli et terræ. A pequena Maria Helena embarca: “Djubidjubi dju”.

***

Foi no dia 7 de julho de 2007, às nove da manhã, fuso horário do Vaticano, que Bento XVI publicou um motu proprio [por iniciativa própria] que liberou a celebração das missas em latim. O ritual tridentino segue o missal promulgado em 1570 por Pio V, em cumprimento ao mandato que recebera do Concílio de Trento; ficou em vigência exclusiva até a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, nos anos 1960. O Mosteiro de São Bento adotou o motu proprio dois meses depois da sua publicação. Sob o crucifixo barroco de 1777 e o ícone da Virgem de Kasperovo, trazido por russos foragidos da revolução comunista de 1917, os monges passaram a promover a sua própria missa tridentina, com duração de uma hora e quarenta minutos. Nela, o sacerdote não fica “de costas”, como se costuma dizer, mas na posição ad Orientem [para o leste], em direção à Terra Santa. Sacerdote e congregação assumem a mesma posição, de frente para o altar, lugar simbólico de Cristo, versus Deum.

“Vão acabar, sim, as missas-rock, as missas com moçoilas dançantes com vestes diminutas ou transparentes, exibindo-se sensualmente ante o calvário”, prevê Fedeli, o presidente da Montfort, feliz com a resolução papal. “Essas missas com sambas e rocks, cuícas e baterias, essas missas de sacerdotes com rosto pintado como palhaços de circo. Acabou a missa de Oxum do padre Pinto. Acabou a missa com baldes de água jogados sobre os fiéis! Acabou a missa da cristoteca!”, festeja, num artigo intitulado “Christus vincit”. Adeus, padre Marcelo Rossi.

Mas nem todos estão satisfeitos. Na terceira fila, a pequena Maria Lúcia decide que é hora de ir ao banheiro. É retirada às pressas. As irmãzinhas ficam excitadíssimas: “Ih, a Lúcia fez cocô”, repetem. A novidade é tão graúda que, de uma hora para outra, elas não querem mais saber do ritual eucarístico nem das preces finais pela conversão da Rússia (introduzidas na missa tridentina por Pio XI, horrorizado que estava com os bolcheviques). A balbúrdia das menininhas chama a atenção do coral, que vacila. Como forma de manifestar impaciência, as cinco comportadas Marias arrancam os véus e deixam cair as chupetas.

Dando voz à insatisfação dessa parcela da cristandade que não aprova o motu proprio do Santo Papa, um menino de 3 anos aproveita uma pausa e grita: “Cabô?”

(Para os que sonham em celebrar o advento do Senhor na língua de Cícero, frei Guilherme Pinto, O.B.S., informa que “na Vigília de Natal não haverá missa no ritual tridentino”. Ou seja: Missa do Galo, só no vérnaculo mesmo.)

Redemoinho de círculos secretos

Posted: 1st novembro 2007 by Vanessa Barbara in Ficção
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Redemoinho de círculos secretos
Alguém pode começar a morrer muito cedo, e levar dias, horas ou anos para não existir mais

por Vanessa Barbara e Emilio Fraia

Piauí n. 14
Novembro de 2007

 

Lá estão os meninos no corredor de milho onde o tiroteio começa; o Bruno escapa na dianteira com a barriga mole de tanto dar risada, atrás vem o Cabelo, que cai sempre nos mesmos buracos e abre fogo com munição colorida – posso jurar, mesmo de longe, que o bombardeio de balas de goma tomou o campinho e riscou o ar feito serpentina. Meu irmão, o Chibo, ia no banco de trás. Eu estava no do passageiro, de joelhos, com a cabeça para fora.

Pela janela avistei o Cabelo que não conseguia alcançar ninguém, ainda mais entre os pés de milho, e novamente o espião búlgaro chegaria à fronteira do país neutro sob uma chuva de masca-masca sabor banana, talvez ferido nas costas, subiria a escada de sisal da casa da árvore e gritaria mulherzinha, mulherzinha. O Cabelo diria que não valeu porquessim, porque a brincadeira já perdeu a graça e os planos de Sua Majestade estavam criptografados, ou a Bulgária não existia de todo (no que decerto teria razão). Seria acometido da mais gorda e suntuosa birra desde os tempos do prezinho, e iria bater nos meninos mais novos. No Chibo não, claro. De todos, o meu irmão era o mais velho, tinha acabado de fazer doze anos, ele era forte, sempre me defendia e – olhei pelo retrovisor. Ele estava quieto: as palavras sumiam de vista feito uma estação fora do ar. Quando o carro parou, saltei com um pé só, e o Chibo, cheio de relâmpagos, nem se mexeu. Ficou lá, distante. Tentei dizer alguma coisa, mas peguei soluço ao bater a porta do carro (e sei que todo mundo ri quando começo uma frase e sou interrompido por um soluço, entrecortado por um susto que me faz perder o equilíbrio), então me calei. Engoli a respiração e fiquei vendo o carro diminuir, diminuir cada vez mais, depois sumir pela borda do milharal.

Na plantação, o Cabelo vinha na direção do Bruno, de banda, como desgovernado. O Bruno acelerou com força (os pulsos firmes), disparou uns restos de mato por cima do ombro – a essa altura eu também corria sem saber direito por quê – e nos cruzamos no ponto médio entre a casa da árvore e a estrada. Ou melhor, quase fui atropelado: ele passou voando por mim e me girou feito uma catraca, levando uma nuvem de poeira e vento sul de mormaço. Eu tossia e soluçava em seqüências alternadas e mal conseguia abrir os olhos quando (o soluço passou) surgiu o Cabelo em alta velocidade e, plof, me derrubou. O chão estava quente, dava para fritar as mãos; aos poucos, a plantação começava a queimar e ficaria pior, mas naquele dia caiu um temporal de machucar as costas, desses que acabam em cinco minutos e deixam um rastro de civilizações e formigas submersas.

Sem parar, o Bruno olhava para o céu com a boca aberta e tentava engolir os pingos. Não percebeu que a terra já escorregava e que as chances de acontecer uma derrapagem eram tantas quanto nosso amontoado de tralhas da casa na árvore, de modo que ele patinou, patinou e perdeu um sapato. Praguejou alguma coisa que não escutei e seguiu correndo de meias. Logo atrás, o Cabelo parou, apanhou o artefato e classificou-o como prova A da Promotoria – mas nem chegou a pedir autorização do juiz para girar o tênis pelo cadarço e arremessá-lo à distância. Plof: uma artilharia de palmilha e cano alto bem na mira do espião búlgaro.

Apesar do ferimento de calibre 35/36 nas costas, o Bruno continuou correndo. Arrastava-se aos tropeços, imaginando sua consagração como herói nacional. A perseguição passaria na tevê em câmera lenta, depois o povo o aclamaria em carro aberto. Ele mostraria aos tataranetos a marca da sola durante um churrasco da família e contaria longas histórias de guerra, talvez até participasse de encontros de veteranos e coisa e tal.

O Bruno chegaria à casa na árvore, de fato, não fosse a intervenção da Grande Poça, a mãe de todas as lamas, que aconteceu de repente bem quando ele olhava para trás. O espião afundou em cheio e caiu de cara. Emergiu daquela massa de lodo um Bruno caramelado e viu que era inútil continuar fugindo. A dois passos, a silhueta do Cabelo já lembrava seu direito de permanecer calado, citava a primeira emenda de cabeça e mostrava as algemas (que sequer existiam). A 2 centímetros, um aro sujo de metal encarava o Bruno, talvez um anel. Ele deu um jeito de guardar o objeto sem que o Cabelo percebesse, em seguida foi detido pelas autoridades e preso na casa da árvore.

O Chibo também não estava quando o Bruno falou do homem morto – um corpo do lado de lá do arame, em um lugar da plantação que, contando daquele jeito, parecia muito, muito distante. Não demorou: no meio do milharal, um redemoinho vivo de círculos secretos, entradas e saídas, o Bruno propôs o jogo. Ficou de joelhos e espalhou as folhas do caderno espiral (toda sua cartografia) pelo chão de terra. Calculou distâncias e provisões, pediu para todo mundo girar em torno do próprio eixo a fim de despistar o inimigo e, finalmente, baseado em estudos preliminares sobre a geografia local e o posicionamento das nuvens, apontou o caminho mais estreito, onde as folhas pareciam manchadas de ferrugem. Por ali, disse. Suas orientações vagas e intensas (o oeste correspondia ao norte e o centro estava junto à fronteira leste) passavam ao lado de uma árvore sozinha e muito vermelha, entre uns velhos pés de caqui, por trás de uma elevação onde o corredor se bifurcava em um, dois, três outros. O Cabelo decidiu, de repente, que também tinha visto o presunto, e para provar que não estava mentindo se apressou em ir na frente sem maiores (ou menores) perguntas, abrindo caminho com o braço, colhendo amostras de mato: “Vira à direita ou segue em frente porque dá na mesma”, e protegeu o rosto com a outra mão.

Fizemos silêncio e fomos andando, peteleco aqui e ali para espantar os carunchos que grudavam nas pernas. O Cabelo parecia animado e caminhava rápido: “Agora é traçar linhas coloridas nos mapas do Bruno, fazer a volta, vinte, trinta passos e pronto”. Às vezes ele parava num estalo, olhava para trás e dava alguma ordem a esmo (a gente quase nunca entendia). Na minha frente o Bruno, que lidava bem com aquelas freadas bruscas, continuava quieto – talvez pressentisse uma dor de barriga. Eu apenas seguia, na popa.

O caminho de milho não parecia levar a parte alguma, era cada vez mais espesso e abafado. Olhei para trás e notei que também se fechava por onde a gente tinha passado, mas não disse nada. Nunca dizia. O Cabelo estava todo picado e parecia feliz, parou para coçar a perna e analisar um besouro grudado no ossinho do tornozelo. O Bruno pensou em aproveitar a ocasião e subir nas costas dele, lá no alto gritar “terra à vista”, mas acabou agindo de maneira polida e pediu escadinha. Em dois segundos foi erguido o brunoscópio; por cima do milharal, ele não achou o arame nem nada, mas viu uma clareira à distância de vinte passos a estibordo, onde poderíamos descansar da coceira e analisar os mapas.

Era um pequeno espaço de folhas pisadas, que do alto formava um desenho alienígena (segundo o Cabelo). Sentamos sem vigiar a retaguarda ou saber se o terreno estava minado, apenas desabamos no chão e passamos a nos abanar. O Bruno juntou os joelhos e cantou baixinho. A essa altura, ele já devia ter uma explicação terrível para tudo e ficaria cada vez mais quieto – ele parou de cantar e olhou para a gente, como se fosse a vez do coral. O Cabelo abaixou a cabeça e confessou que, bem, na verdade, não tinha visto o morto, visto, assim, com os olhos, sabe?, tinha apenas ouvido uma história que – o Bruno se levantou, tomando a frente: “Minha vez de guiar”. Consultou o mapa, falou que estávamos no caminho certo e (só para impressionar) tirou do bolso um anel. “Não toquem nisto”, disse, satisfeito com o olhar de espanto dos expedicionários. “Achei na poça semana passada… É uma aliança”, e esperou uns segundos para fins dramáticos, “do cara morto.”

De cócoras, tragado por um sol imenso, o Bruno remexia as folhas secas do chão. Quando me viu, levantou rápido e fingiu estar interessadíssimo em um graveto sem nenhuma graça. Com as mãos cheias de pedras, o Cabelo apareceu. Distribuiu a artilharia e se afastou. A gente brincava de acertar pedras nas lagartixas da árvore, mas, por medo, nojo ou piedade, o Cabelo só assistia, ensaiando caretas a cada tiro. Não tardou para que um golpe dividisse ao meio uma das lagartixas. O Cabelo apertou os olhos, virou o rosto.As duas partes do bichinho despencaram tronco abaixo. Fiquei olhando para o vazio que separava a cabeça – os olhos estavam muito vivos ainda – e o rabo. Com um pauzinho, o Bruno cutucou a lagartixa: “Será que um homem demora assim para morrer?” Pensei no Chibo, em todo aquele silêncio do banco de trás, e que sim, alguém pode começar a morrer muito cedo (e levar dias, horas ou anos para não existir mais).

 

[trecho de O Verão do Chibo, Alfaguara, 2008)

Almanaque secreto da filosofia e do esporte

Posted: 3rd setembro 2007 by Vanessa Barbara in Ficção
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Revista Pesquisa/Fapesp
Ficção

Edição Impressa 139 – Setembro 2007

© Luana Geiger


Por Marcos Barbará

parte um: Filósofos-não-tão-filósofos

Polículo era um cidadão fidalgo e refinado, mesmo nos dias de chuva. Foi o primeiro antigo a amarrar as sandálias nas pernas, ainda que tenha amarrado as sandálias umas nas outras e pisado nos cadarços.

O grande momento da vida de Flatão (319-265 a.C.) foi quando o grande legislador Sólon, constipado, chamou Platão de Flatão, alçando este último à fama repentina e criando a efêmera escola Flatônica.

Brotágoras de Mileto acreditava que era sofista e, mesmo tendo nascido em 1981, fazia questão de pegar todos os dias o coletivo 701-U Jaçanã–Butantã/USP vestido como um ateniense orgulhoso, proclamando em voz alta: “A experiência ensina que para triunfar no mundo não é mister justiça e retidão, mas prudência e habilidade”, ao mesmo tempo que murmurava palavras incompreensíveis, alternadas com  “Sócrates” e “maldito barbudo”.

Monógoras descobriu que a matéria era formada de pequenas partes, que por sua vez eram formadas por partes menores ainda, e assim por diante. A menor de todas as partes ele chamou de “minhoca”. Decidiu apresentar sua descoberta na feira de ciências de sua escola ptolomaica, mas perdeu o prêmio máximo para Demócrito, que copiou totalmente seu trabalho, mas mudou o nome das pequenas partes para “átomos” e distribuiu balinhas de coco aos visitantes.

Hermeto era, provavelmente, a pessoa mais sábia de toda Tebas. Porém, sua tremenda dificuldade em ficar mais do que trinta segundos em uma sauna causou grande isolamento social, especialmente porque ele nunca conseguia ouvir uma piada de Xerxes até o final.

Penóprates (447-398 a.C.) era orador, mas seu sonho era ser técnico em informática.

Érmio de Platéia foi grande atleta em seu tempo, sobretudo nas provas de soletrar, as que mais agradavam os deuses na época. O célebre embate entre Érmio e Eustáquio de Átila foi interrompido por falta de segurança após Érmio soletrar “Mãe Edite, sua calvície molestou o otomano!”, em vez de “Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!”, e em seguida alegar falha no sistema de som, causando tumulto de grandes proporções.

parte dois: Atletas não-tão-atletas

Jogos Olímpicos, 76 a.C.

“Os corredores já partiram! A torcida entra em delírio! Mas que competição, patrícios e patrícias! Aquiles, o favorito, tomou a dianteira, mas… espere um segundo! Ele parece demorar uma infinidade de tempo a correr o primeiro metro, como se o movimento fosse de algum modo impossível!”
Na tribuna da plebe, Zenão divaga: “Não acredito que comprei bilhete para isto”.

Estocolmo, 1912

Sob um frio de -5°ßC, o húngaro Fèrènc Çzabosz enfrenta o dinamarquês Zork Zjork pela disputa do ouro no joquempô, categoria freestyle.

No primeiro lançamento, Zjork, apoiado pela torcida dinamarquesa em maior número, escolhe “pedra”, ante o atônito húngaro, que nada pode fazer com sua “tesoura”. Çzabosz, visivelmente nervoso, é agredido pelo treinador, enquanto Zjork leva as mãos em concha à orelha, como que pedindo para a massa gritar seu nome. Isso faz com que a torcida local dispare uma série de apupos contra o atleta dinamarquês, colocando-se ao lado do húngaro.
O fato animou Fèrènc, que, no segundo arremesso, desferiu a “tesoura”, minando os planos de Zjork com seu “papel”.

Empatados em um, foram para o set derradeiro com enorme tensão. E nenhum torcedor, por mais doente que fosse, poderia imaginar o que viria a seguir: uma fuinha decidiria o ouro. Ao sinal do árbitro, os dois oponentes se preparavam para o lançamento final, quando uma fuinha atravessou o gramado*. Desnorteado, o dinamarquês escolheu “pedra”, sendo alvejado pelo “papel” do húngaro, que, em êxtase, começou a correr em volta de seu cotovelo. Zork Zjork, em vão, tentou invalidar o lance alegando invasão de gramado, porém seu recurso não foi aceito, iniciando uma confusão que não acabaria antes de Antuérpia, 1920.

*Até 1952, o joquempô olímpico era disputado na grama.

Amsterdã, 1928

A competição de Tiro ao Pato era o momento mais aguardado das olimpíadas, devido ao esperado embate entre dois monstros sagrados do esporte. De um lado, o paquistanês Mahutah Singh, único atleta da história a vencer um mundial de Tiro ao Pato atirando-se ao pato (ver “Mundial de Tiro ao Pato, Glasgow 1926”). Do outro, o não menos popular Mohutah Singh, da Índia, que certa vez matou um alvo-pato apenas olhando para ele e fazendo tremenda força.

Como esperado, os oponentes não erraram nenhum alvo na fase eliminatória, levando ao delírio os mais de 162 mil espectadores que superlotavam o estádio olímpico, com capacidade para 25 mil pessoas. Ainda no primeiro lance, Mahutah atingiu os dez alvos-patos enquanto discutia com seu agente as confusas cláusulas de seu contrato; Mohutah, por sua vez, acertou os dez patos com um único tiro, disparado no breve intervalo entre um cochilo e outro.

Depois de 174 rodadas e nenhum erro por parte dos gênios do esporte, a organização informou que todos os patos do continente europeu estavam extintos, restando apenas um. Decidiu-se por fazer os competidores atirarem simultaneamente, e aquele que atingisse primeiro o pato seria o campeão. Segundos antes do lançamento da ave, o público inclinou-se para a frente de modo a não perder nenhum detalhe da História sendo escrita. Porém, o mundo não esperava que o torcedor curvo Rítias, possuidor de escoliose, estivesse inclinado exatamente na linha de tiro, fato que impossibilitou o disparo dos atletas e permitiu ao pato seguir seu caminho rumo à liberdade.

Mahutah Singh e Mohutah Singh começaram a atirar a esmo em qualquer coisa que parecesse remotamente com um pato, alvejando e matando o arquiduque Francisco Ferdinando Filho; o incidente gerou um conflito bélico entre Índia e Paquistão que persiste até os dias atuais.

Helsinki, 1952

Faltando dezoito metros para o final da maratona, exatos 174 atletas estavam empatados em primeiro lugar, todos espremidos ombro a ombro. Eis que surge o ruivo Crítias e, em uma arrancada digna de um herói mitológico, ultrapassa cada um dos competidores e vence. Mas sua glória é efêmera, pois os árbitros anunciam que o ruivo Crítias está eliminado por ter participado da prova somente nos últimos vinte metros e por estar totalmente nu.

Corrida do Queijo de Gloucester, 1964

A célebre contenda de 1964 é, até hoje, motivo de discussões acaloradas e regadas a destilados. Há aqueles que se solidarizam com Harry Truman, não só por ele ser homônimo do presidente americano, mas também por ele não ter largado do queijo mesmo seis dias após a Corrida. Do outro lado, estão os partidários de Zenk Skifalver, o Austríaco, que demonstrou força física e de espírito incompatíveis para seu 1,41m.

Mesmo os dois tendo rolado 33 metros com o queijo entre eles, cada qual se agarrando ao lactoso à sua maneira, a rainha declarou como vencedor um simpático coelhinho, gerando uma batalha campal entre o público e a família real.


Marcos Barbará tem 27 anos e é autor de Anão vestido de palhaço mata 8 (Editora Rocco).
http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=4165&bd=2&pg=1

Horóscopo – Chantecler

Posted: 1st agosto 2007 by Vanessa Barbara in Ficção
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Convém fingir que se tem pressa
por Chantecler
[Marcos e Vanessa Barbara]

Piauí n. 11
Agosto de 2007

Para agosto, mês de cachorro louco, Chantecler prenuncia o juízo final, cataclismos climáticos e, de quebra, problemas digestivos de toda sorte. Segundo o profeta, Deus voltará, e o segredo é parecer ocupado, ou fingir que tem pressa. Se lhe perguntarem alguma coisa (“Crê em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra?”), diga que você é inocente até que se prove o contrário e está atrasado para um compromisso.

ÁRIES [21.03_20.04]
No mês de agosto, Júpiter ingressará em Plutão e colidirá com o planeta-anão, provocando uma calamidade de proporções astrofísicas. O ariano deve tomar cuidado nos dias 14 e 15, quando os pedaços maiores entrarão em rota de colisão com a Terra. Não faça planos para o futuro. No mais, o mês será propício para comer biscoitos e trocar de meias.

TOURO [21.04_20.05]
A segunda quinzena será marcada por um grande vazio existencial, principalmente para os terráqueos. A Fome, a Peste e a Guerra abrirão o sétimo selo – e ele não vale um centavo. Mas o nativo de Touro não deve se preocupar com o fim do mundo iminente. Apenas arrume as malas com antecedência, pois lá não se vendem pasta de dente nem calcinhas. Pedra: sabão. Filósofo: Ataxerxes. Tradutor: Remy Gorga, filho.

GÊMEOS [21.05_20.06]
A configuração astral favorece o geminiano, embora sua chance de morrer aumente para 96,4%. Empregos como tocha humana e homem-placa devem ser evitados, mas não recusados liminarmente – nunca se sabe. No campo financeiro, devem-se comprar ações de empresas que rimem com “herege”, como Telerj. Valem rimas forçadas, como Casas da Banha-RJ (mas se aplicar no Banerj, vai se dar mal). Temperamento: bilioso. Programa de televisão: Leilão de muares, canal 35. Animal: arminho-das-pradarias.

CÂNCER [21.06_22.07]
Agosto será um mês de grande ressonância cósmica para você, nativo de Câncer. Os planetas regentes entrarão numa órbita favorável no ordenamento do céu, mas você não enxergará porque é meio míope. O Sol em Touro mexerá na sua digestão. Seu intestino se tornará preguiçoso e correrá o risco de gerar maus pensamentos, azedar o caráter, transtornar o espírito e criar vocação para o delito. A solução é comer ameixas. Super-herói: Besouro Azul. Celebridade: Ronnie Von.

LEÃO [23.07_22.08]
É época de o leonino resolver os problemas de ordem espiritual e hidráulica, de preferência ao mesmo tempo. A partir do dia 20, aumentarão as chances de encontrar fantasmas, duendes, vizinhos, elfos, ex-cônjuges, Affonso Aroma de Santana e caroços desagradáveis. Compre um telefone com identificador de chamadas, mas não planeje uma viagem a Poços de Caldas. No campo da saúde, atenção à gengiva e aos pêlos púbicos. Elemento: Urânio 237. Big Brother favorito: Dhomini (BBB 1). Curiosidade: o astro Dudley Moore (19 de abril) é de Áries.

VIRGEM [23.08_22.09]
Cuidado, virginiano: você está propenso a pecar por excesso de imaginação. Ao preparar uma torta de maçãs, esqueça os vidros de páprica, alfavaca, coentro e tomilho. No campo sentimental, a mesma coisa. Nada de paquerar gente baixinha. A época é boa para fazer novos amigos e desovar os antigos em terreno baldio. Guru: Roberto Justus. Cor: cova.

LIBRA [23.09_22.10]
O libriano esconde suas emoções e freqüentemente esquece onde deixou. Atentar-se ao metabolismo basal e à osmose. Famoso, o libriano Citrus, que, conforme a literatura, “depois de doze dias preso e amordaçado foi solto, para então comer 112 latas de ervilhas em conserva, vindo a óbito em 25 de abril de 1674”. Personagem mitológico: Batman. Escola filosófica: pós-simbolismo. Especiaria: cominho.

ESCORPIÃO [23.10_21.11]
Você possui o temperamento cético, não-influenciável e racional. É um indivíduo ponderado que não tem medo de nada, exceto do anão Rumpelstiltskin e de palhaços que dançam. A partir do segundo domingo do mês, dedique atenção especial aos móveis da sala e aos rins. Formas: quadradas e cúbicas. Elemento: pedra-pomes. Dupla dinâmica: Tonto e Zorro (o Cavaleiro Solitário, e não outro, o que só se veste de preto).

SAGITÁRIO [22.11_21.12]
Sagitarianos são sujeitos pacatos, serenos, normalmente confundidos com capricornianos ou balões meteorológicos. Adoram azul e polpas. Neste período, não devem pilotar um zepelim, sob pena de não encontrarem vaga no estacionamento. Recomendável limitarem-se às funções vitais e bombear o sangue, que já está de bom tamanho. Planeta: Hercólubus. Sensação: torpor. Profissão: pedicuro.

CAPRICÓRNIO [22.12_20.01]
O capricorniano é impaciente, desonesto, pecaminoso e cabeçudo. Alguns possuem orelhas grandes e problemas na vesícula. À parte isso, terão um mês repleto de transformações financeiras, metafísicas, zodiacais e fiduciárias, sobretudo após o dia 15, quando a Terra sofrerá um pequeno revés e se tornará uma bola de felpo. Boa notícia para os nativos de Capricórnio, que adoram dias agitados. Ditador sanguinário: Kim Jong II. Elemento: surpresa. Supervilão: Sr. Mxyzptlk.

AQUÁRIO [21.01_19.02]
Os aquarianos de nome Adalberto e/ou Edegar devem preocupar-se com contaminação por plutônio ou fruta-pão, decorrente da implosão planetária. No campo afetivo, lamber o cotovelo pode atrair seres de outras espécies. Em hipótese alguma deve-se falar “Pelezinho”, sob pena de arcar com as conseqüências cabíveis. Traje: escafandro. Cor: pinho. Regente: Júlio Medaglia.

PEIXES [20.02_20.03]
O nativo de Peixes possui a sensualidade à flor da pele, automaticamente anulada caso ele tenha micose. Um rápido passeio pelos Bálcãs pode reavivar o espírito e a tuberculose. Durante o mês de julho, o pisciano deve evitar ler livros grandes ou sair sem chapéu. Vestir pulôver com bermudas pode ser instrutivo, embora isso nada tenha a ver com o horóscopo. Data comemorativa: Dia do aço galvanizado. Legume: escarola. Cor: cunda.

Eterno retorno

Posted: 1st junho 2007 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 9
Junho de 2007

por Vanessa Barbara

O Campeonato Brasileiro de Ioiô reúne aspirina, salsicha, chapolim, cogumelo e prenuncia a gloriosa volta à moda do pião

O atleta entra em campo com uma blusa de moletom e a bermuda até os joelhos, mascando chicletes. A torcida prende a respiração. Ele tem espinhas no rosto e um piercing no queixo. Pendurado na gola da camiseta, um par de fones de ouvido. O esportista respira fundo, estala os dedos e se concentra. Jurados prontos? Competidor pronto? Soam os primeiros acordes de um hip hop da banda Fort Minor. Os juízes se inclinam para frente. O atleta efetua o equivalente a um mortal triplo carpado, mas com uma corda de ioiô, e leva a torcida ao delírio.

Maestria, irritação e acidentes aéreos marcaram a sexta edição do Campeonato Brasileiro de Ioiô, num fim de semana de maio, num cinema no Conjunto Nacional, em São Paulo. O certame contou com mais de 50 competidores, todos de boné. (Dois usavam chapéus e o campeão jogou de capuz.) Nenhum dos favoritos tinha mais de 21 anos, e vários não tinham idade sequer para se esponsabilizar judicialmente pelas manobras mais arriscadas. No corredor, um menino de 4 anos arrastava os destroços de um ioiô quebrado, lançando dúvidas sobre a pacatice desse esporte universal – que no idioma tagalo1 quer dizer “volte aqui”.

No Brasil, a febre surgiu em três etapas. Primeiro em 1982, depois em 1995 e finalmente em 2000, com a popularização do ioiô da Coca-Cola, fabricado pela Russell. Os integrantes da nova geração são unânimes em atribuir seu início de carreira à marca de refrigerantes, que no passado distribuiu ioiôs e imprimiu nas tampinhas diversas instruções de manobras.

Mas o ioiô existe antes disso. “Ele foi inventado no império chinês”, afirma Pedro Rosa, de 13 anos, “e era de pedra.” Na verdade, ninguém sabe onde e quando ele foi criado, embora seja considerado o brinquedo mais antigo do mundo, depois da boneca. Sua invenção é atribuída ora aos chineses, ora aos gregos. No Museu de Atenas pode-se apreciar uma cerâmica de 2 500 anos que mostra um jovem brincando com um ioiô. No século xvi, soldados filipinos chegaram a usá-lo como arma.

Hoje, os melhores jogadores são os japoneses, seguidos pelos americanos. Outras potências são a Alemanha e Cingapura. Com cerca de 2 mil filiados à Associação Brasileira de Ioiô, a abi, o Brasil vem ganhando notoriedade. Uma das estrelas nacionais é Rafael Matsunaga, que foi campeão mundial em 2004. Ele é programador de computadores, mora em São Paulo e atende pelo codinome de Red. Matsunaga é um dos únicos onze mestres mundiais de ioiô.

Quase todos os que participaram do Campeonato Brasileiro se conhecem e freqüentam o fórum online da abi. Eles aprenderam suas manobras baixando vídeos na rede, onde há toneladas de clips com as melhores performances. Só o site da Associação Brasileira hospeda 50 gb de material. “Yoyo is a small world”, concorda o americano Paul Yath, de 24 anos, o atual campeão mundial, que se apresentou pouco antes da premiação.

As duas principais categorias do concurso nacional, que valeram uma vaga para o mundial, foram a 1a e a Open. O esporte possui cinco variações, que consistem em intrincados truques com a corda, que quase terminam em um grande nó. A divisão 2a é a mais clássica, praticada com dois ioiôs e manobras de loops (voltas e voltas). A triple A exige dois ioiôs e manobras de cordas – ou seja, é uma mistura das duas primeiras. A quarta variante é conhecida como offstring, pois é praticada sem prender o ioiô à cordinha. A quinta é executada sem prender o ioiô ao dedo, colocando-se um contrapeso no lugar. No Brasil, a categoria Open foi criada para englobar todas as outras, menos a 1a.

O Brasil tem se destacado na 1a e 5a. Nas demais, a prática é ainda incipiente e perigosa. Durante o aquecimento, um ioiô desgovernado (de tamanho grande) atingiu a repórter de piauí. O agressor, Ricardo Tatebe, aka Yuki, de 21 anos, pediu desculpas e negou que praticasse um estilo ofensivo. O fato de vitimar uma assistente leiga não pesou na opinião dos jurados, que conferiram a Yuki o quinto lugar na categoria Open.

Para a trilha sonora das apresentações freestyle, cada atleta trouxe um CD – em geral, gravado por eles mesmos, a partir de músicas em formato mp3. A grande maioria das canções tocadas não saiu do universo rap/ hip hop/ música eletrônica, e poucas eram do gênero hardcore, emocore e rock (em japonês). Um dos competidores usou o tema da Pantera cor-de-rosa, o outro, da série Os Simpsons, e um terceiro, do jogo de videogame Super Mario. Apenas quatro músicas eram nacionais: duas do Planet Hemp, uma dos Raimundos e outra do Castelo Rá-Tim-Bum.

***

Durante o torneio, o americano Paul Yath aproveitou para vender dezenas de unidades de seu ioiô Milk. “It’s a funny yoyo”, justifica o fabricante. O artefato vem em uma embalagem de leite e custa 50 dólares, mas “não é uma fonte recomendável de vitaminas e minerais”, segundo o rótulo. Já o veterano Mark McBride levou seu ioiô de magnésio no valor de 400 dólares, desenvolvido pela Duncan com partes de um carro de Fórmula-1. No Brasil, o único ioiô de alumínio é fabricado artesanalmente pela Yoyojoca, e sai por 139 reais. O mais barato do mercado, feito de plástico resistente e rolamento blindado, é da marca Vulto. Custa 20 reais.

Antes de se apresentar, os atletas escolhem um ioiô e enfileiram uns dez outros na beirada do palco. Na fase preliminar, o jogador tem apenas um minuto para efetuar as manobras que quiser. Dez concorrentes se classificam para a final, com três minutos de freestyle por atleta. Entre os juízes, além de Matsunaga, presidente da abi, e o campeão Paul Yath, estavam o grafiteiro Titifreak e o veterano Hitokiri. Debaixo da mesa, eles manipulavam dois marcadores, um em cada mão, conforme o competidor acumulava pontos e penalidades. Para a comissão julgadora, o maior pecado é enrolar a corda com a mão ou largar o artefato no ar, em um zupt mortífero. Dois competidores quebraram o ioiô e arrebentaram a cordinha em plena apresentação. “Sempre rola de puxar muito forte e voltar na cara”, confessa José Lucas Dechen, de 16 anos, que veio de Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo.

Dechen é um dos jogadores que unem a experiência do ioiô à prática do pião, atualmente apelidado de spin top. A novidade é a junção das manobras do ioiô com o equilíbrio de um pião de rolamento – semelhante ao velho pião de madeira, mas cuja ponta não gira, só o topo. Os praticantes sustentam o pião sobre a palma da mão, enrolam a corda nos braços e fazem o objeto correr. As manobras de ioiô inevitavelmente geram novas técnicas de spin top, e os ioiozeiros passam a se dedicar a ambas as modalidades, como se o pião pertencesse a uma suposta categoria 6a. Mais uma vez, centenas de moleques de 16 anos – que jogam Second Life e baixam filmes pela internet – resgatam um velho brinquedo, mais antiquado impossível. São atletas que têm apelidos como Aspirina, Salsicha, Olívia Palito, Chapolim e “Cogumelo” (“seu fungo ordinário!”, gritou alguém da platéia quando ele se apresentou). O mais respeitado deles é o “Marechal”, carioca de 26 anos apontado como favorito, mas que amargou o vice-campeonato da categoria 1a. O veterano Luiz Ricardo do Nascimento acabou errando uma manobra nos últimos segundos da apresentação e atirou o ioiô na platéia, irritado. Ficou a apenas quatro pontos do primeiro colocado.

A despeito da quantidade e da diversidade dos competidores, o vencedor de ambas as categorias foi o mesmo: Danilo Packer, jundiaiense de 19 anos, que no ano passado também levou o troféu das modalidades 1a e Open. Alto e ligeiro, adepto de correntes e calças largas, Packer estuda design gráfico e pratica ioiô há seis anos. Na modalidade Open, ele abriu quase trinta pontos de vantagem sobre o segundo colocado, mesmo depois de se apresentar com capuz e ouvir da platéia que aquilo não era boxe. Packer não precisou competir com luvas de lã e nem com um ioiô de ouro 24 quilates, ao contrário do que se viu nos bastidores do evento. Segundo ele, “o bom jogador é que faz o ioiô”.

1 Ioiô é cultura: tagalo é língua malaia, falada nas Filipinas.

Sistema de currículos Lattes

Posted: 2nd abril 2007 by Vanessa Barbara in Ficção
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Revista Pesquisa/Fapesp
ed. 134 – Abril de 2007

por Vanessa Barbara

Aos oito anos, Bruno inventou um protótipo de torradeira movida a cuspe que não funcionava. Sua irmã, Teresa, passou a usar o objeto para alisar o cabelo, mas sem a anuência do inventor. Bruno também é conhecido como o detentor das patentes do forno de madeira e do dedal de pão. Na feira de ciências da escola, testemunhas alegam que ele incendiou um batalhão de 58 soldadinhos de plástico — que derreteram lentamente enquanto as meninas da classe gritavam — e, ao ser escoltado à diretoria, garantiu que a ciência ainda descobriria a utilidade prática daquele experimento. Bruno era o campeão em combustões espontâneas e possuía uma coleção de quinze tipos de coleópteros, que ele vinha treinando para estrelar um musical de horror em stop-motion chamado “Besouros!”.

Daí se pode concluir, portanto, que Bruno nasceu para a ciência. No dia em que concluiu seu minucioso trabalho de coleta da gripe (espirrou durante meses nos potes de maionese e rotulou-os de um a vinte) e deu início à fase empírica do trabalho, Teresa foi a primeira voluntária a ser levada ao laboratório. Algum tempo se passou sem que a diretora soubesse exatamente o que tinha acontecido com a menina. Quando, na sexta-feira, a mãe de Bruno ligou para a escola justificando a ausência da filha, contaminada por um rotavírus, Bruno anotou “pneumococo!” no caderno e foi escoltado para a diretoria, provavelmente dedurado pelo bedel surdo do corredor. Além disso, a melhor amiga de Teresa apareceu na escola com piolho, mas não há indícios de envolvimento do garoto na epidemia.

Bruno gostava de fazer incursões por todos os ramos conhecidos da ciência. Aos doze anos, criou cogumelos no tapete da sala. Aos quinze, imantou a máquina de lavar e arrastou-a por três metros, até que ela caísse da escada e quebrasse o chão do quintal. No mesmo ano, construiu um pára-raios e assassinou a tartaruga, após quebrar um termômetro e misturar mercúrio à comida do animal. Seus métodos eram cada vez mais discutíveis. A classe se dividia entre apoiá-lo e dedurá-lo ao bedel, que continuava surdo, a despeito de todas as tentativas de Bruno. (É verdade que certa vez ele fez nascer um pêlo branco na orelha do bedel, mas infelizmente o pêlo não restaurou sua audição e foi arrancado para biópsia.)

Finalmente, Bruno se formou com média seis ponto dois e entrou para a faculdade de biociências. Logo no primeiro ano, seu trabalho de iniciação científica destacou-se por um inédito achado estatístico: o encontro de freqüentes casamentos entre mulheres com artrite reumatóide e homens com úlcera péptica, o que caracterizaria uma ligação neurótica entre mulheres agressivas e controladoras e homens passivos e dependentes. (Embora o tema original do trabalho fossem as abelhas.) Foi nesse ano que Bruno explodiu a porta do Instituto de Física e matou mais uma tartaruga, durante uma pesquisa com amianto. Graças à alta rotatividade de seus animais de estimação, ganhou uma pedra para cuidar quando completou 21 anos.

A trajetória acadêmica do garoto passou de boa para questionável; professores se recusavam a orientá-lo em projetos francamente anormais e rejeitavam sua inscrição nas disciplinas. Ao ser destacado como monitor das aulas de genética, convenceu um de seus pupilos a implantar duas orelhas em um besouro (ou dois besouros em uma orelha) e obteve sucesso em ambas as experiências, ao que telefonou imediatamente para o bedel surdo. Como o sujeito estava cada vez mais surdo, foi difícil transmitir a emoção que lhe traria uma nova orelha na nuca. Da longa resposta, Bruno só conseguiu entender que o pêlo branco nascera de novo e crescia todos os dias, à razão de dez centímetros por semana. E o pior: estava captando as ondas de uma rádio comunitária. Bruno desistiu da implantação auricular e prometeu passar na casa do bedel com um contador Geiger.

No último ano da faculdade, Bruno decidiu que começaria a usar um chapéu, informação que pode ou não adquirir importância no decorrer da história. Afora isso, a vida se arrastava numa mesmice: Teresa resistindo para não virar cobaia, e o bedel surdo se alarmando com as emissões de ondas infra-sônicas que escutava todas as manhãs. Um dia, porém, na aula de Zoologia de Vertebrados ii, aconteceu o improvável: ele se apaixonou pela garota da primeira fila. Bruno percebeu que a moça não dava bola para ninguém, mas que prestaria atenção (ah, se prestaria) caso ele ejetasse a si próprio da carteira e fosse audaciosamente rumo aonde nenhum acadêmico jamais esteve. Primeiro, esboçou o protótipo da almofada ejetora, que grudaria ventosas na superfície e impulsionaria o cientista para o alto, a uma distância de muitos metros em direção às nuvens. Isso tudo teoricamente, porque na prática a almofada sugou Bruno para baixo com toda força e quebrou o chão do quintal, mais uma vez. Como ele usava apenas um capacete, acabou fraturando a bacia.

Bruno se formou na universidade com média seis ponto dois, ficou três meses em repouso e acabou desistindo de cortejar a garota, que no entanto continuou sendo a musa de suas criações posteriores. Em seu período mais produtivo, aos trinta, ele confeccionou um despertador não intrusivo (que apenas acenava para o dorminhoco, sem disparar alarmes), uma maçã com gosto de mandioca e uma nova linha de post-its sabor morango, que vendeu para a Pfizer.

Aos quarenta anos, veio uma fase mais abstrata, voltada a descobrir coisas já descobertas: primeiro a Birmânia — antiga Mianmar —, depois o fogo e, em seguida, o ovo frito. Bruno já não sentia todo o potencial criativo da juventude e pensou em se aposentar. Foi um período de muitas dúvidas, em que ele chegou ao cúmulo de subestimar a real utilidade de sua pesquisa sobre pneumococos. Mesmo assim, a coleção de coleópteros do cientista alcançou a marca do milhar, com a ajuda de alguns sapos.

Mas Bruno não havia esquecido seu grande projeto de vida, a portentosa obra-prima da engenharia que agora tomaria forma: na noite em que completou cinqüenta anos, afinal, aposentou-se e retirou-se para o campo, a fim de testar a almofada ejetora, o sonho de toda uma vida. Meses se passaram.  Nunca mais se ouviu qualquer notícia do rapaz, e nem sua irmã sabe o que aconteceu durante a comprovação empírica. Anos depois, um cientista acabou lendo a obra completa de Bruno (em volumes de pano) e anunciou a cura do diabetes após estudar o episódio dos soldadinhos incinerados.

Mais tarde, um astrônomo amador descobriu que o pêlo branco conseguia captar rádios comunitárias de outros planetas.


Vanessa Barbara tem 24 anos, é jornalista e escritora, repórter da revista piauí. Desde 2002, edita o sítio A Hortaliça (hortifruti.org). Link para o artigo original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/10/11/sistema-de-curr%C3%ADculos-lattes/

Phaic Tan, terra para intestinos fortes

Posted: 1st abril 2007 by Vanessa Barbara in Traduções
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Phaic Tan, terra para intestinos fortes
O país-fetiche do turista descolado, que não se importa com movimentos peristálticos bruscos

Vanessa Barbara

Piauí n. 7
Abril de 2007

HISTÓRIA
Durante muito tempo, o nome Phaic Tan esteve associado a atrocidades, miséria e massacres, que, combinados com a péssima qualidade das freeshops, limitavam consideravelmente o número de turistas, e fez com que, na prática, o país fosse visitado apenas por funcionários de organizações humanitárias e especialistas em negociação com seqüestradores. Depois de anos de batalhas sangrentas, no entanto, Phaic Tan pode ser enfim considerada uma nação em paz. Os conflitos armados se restringem somente às províncias do norte e ao Cassino Bumpattabumpah. Por toda a ilha, cidadãos que antes militavam em células guerrilheiras clandestinas finalmente pararam de lutar entre si, e agora recebem os visitantes de braços abertos e gritos de “mãos ao alto!”.

TERRA DE CONTRASTES
O perfil dos turistas em Phaic Tan varia muito – do onipresente mochileiro, atraído pelas praias tropicais desertas e pelo serviço 24 horas de massagem nos pés, ao viajante sofisticado e exigente, que busca o conforto nos mais exclusivos resorts litorâneos do mundo, refúgios cinco estrelas tão suntuosos que os funcionários são renovados diariamente só para garantir frescor da paisagem humana.

UM OLHAR SOBRE O PASSADO
Segundo os arqueólogos, Phaic Tan foi uma parada importante na rota do homem de Neanderthal da África para a Ásia. Enquanto os membros mais desenvolvidos do clã seguiram em frente, os espécimes mais lerdos e de cérebro menor se estabeleceram em Phaic Tan e se reproduziram. Como viviam em árvores, só quando as florestas começaram a rarear eles foram obrigados a evoluir. Desceram então de seus galhos e se espalharam pelas planícies. Um grupinho dissidente tentou viver debaixo d’água e logo se extinguiu. Datadas de 4000 a.C., evidências do cultivo do arroz foram encontradas no nordeste do país, quando arqueólogos desenterraram ferramentas agrícolas primitivas e um recipiente extremamente arcaico de molho de soja.

No final do segundo milênio antes de Cristo, amostras de bronze, latão, estanho e jade foram trazidas à região por imigrantes chineses. O povo de Phaic Tan logo percebeu o potencial dos novos metais, e inaugurou o que foi provavelmente a primeira loja de quinquilharias e souvenires da Ásia.

A civilização não se instaurou em Phaic Tan até pelo menos 2000 anos atrás, quando hordas de habitantes do centro e do sul da Ásia migraram para lá, atraídos pela abundância de comida e de creches. Foi nessa época que a roda apareceu no país. Em pouco tempo, os nativos começaram a usar os números e, pouco depois, inventaram a roleta.

Por volta do século VII, mercadores e missionários começaram a chegar da Índia. Os mercadores trouxeram do Ocidente novos valores sociais e políticos, bem como estilos artísticos e arquitetônicos. Os missionários trouxeram o bingo. Nesse período, os Tubom, uma seita de budistas castrados de Burma, invadiu o país e forçou os habitantes de Phaic Tan a se tornarem pacifistas.

MIOPIARAPTOR
Restos fósseis deste dinossauro foram encontrados a leste de Nham Pong. Depois de passar mil anos trombando com árvores, a criatura, de visão limitadíssima, desenvolveu um crânio de 60 centímetros de espessura.

O POVO

Nunca encontrei um povo tão briguento e belicoso, dado a explosões de raiva diante da menor provocação.

(Jules Grenouille, antropólogo, em 1712, pouco antes de ser apunhalado até a morte por um monge noviço, que se irritou com o barulho da caneta de Grenouille ao escrever.)

Não há dúvidas de que os phaic-taneses têm um longo histórico de massacres e de violência. Há anos, tentando reprimir a propensão belicosa da população, o governo experimentou adicionar estrógeno à água potável. A iniciativa resultou num leve declínio das taxas de criminalidade, e num aumento generalizado de clubes de leitura. A experiência teve que ser abandonada quando um bombeiro de 37 anos, de Pattaponga, ganhou o primeiro lugar num concurso de beleza e foi eleito Miss Phaic Tan.

POPULAÇÃO
Phaic Tan é um verdadeiro caldeirão de etnias. Durante séculos, o povo absorveu uma quantidade enorme de influências. Nos últimos tempos, a população também absorveu, como resultado da mineração irregular, uma formidável quantidade de metais pesados. Esses fatores contribuíram para a formação de uma identidade nacional singular.

É difícil saber exatamente quantas pessoas vivem em Phaic Tan, já que, sendo um país budista, ao fornecer informações ao Censo, muitos cidadãos registram tanto a pessoa do presente quanto suas encarnações anteriores. Além disso, mais de 300 funcionários destacados para a coleta de dados demográficos continuam desaparecidos, tornando as estatísticas ainda mais imprecisas.

A superpopulação nos grandes centros continua sendo um problema, a despeito das iniciativas das autoridades locais. Em 1980, o limite de velocidade nas estradas foi aumentado para 340 km/h e a colocação de grades ao redor das piscinas foi considerada ilegal, medida que logrou êxito imediato. Os índices demográficos diminuíram ainda mais em 1992, com a reintrodução no país da gasolina com alto teor de chumbo.

Apesar das mudanças trazidas pelo turismo e pelo comércio, os phaic-taneses continuam apegados às tradições, e a distinção entre sexos é bastante rigorosa: as mulheres podem criar gado, cultivar as plantações, estocar provisões, cortar lenha, fazer artesanato e cuidar das crianças; os homens devem preparar sacrifícios aos deuses e pôr o lixo pra fora.

ETIQUETA
Os turistas ocidentais devem sempre lembrar que Phaic Tan é um país conservador, onde as mulheres andam de moto sentadas de lado. Para muitas, o casamento é consumado de maneira similar. Demonstrações de carinho ostensivas, como andar de mãos dadas, acariciar ou bolinar devem ser evitadas em público, sobretudo se você estiver sozinho.

COMO SE VESTIR
Use roupas simples e evite qualquer tipo de traje que possa ser inapropriado ou ofensivo, como tops escandalosos ou roupas de safári. Seja ainda mais prudente ao visitar mesquitas e templos. Para as mulheres, minissaias indecorosas e umbigos de fora estão proibidos. Para os homens, minissaias indecorosas e umbigos de fora são encrenca na certa.

SAPATOS
Uma dica de etiqueta importante: sempre tire os sapatos antes de entrar em uma casa. A atitude demonstra respeito aos anfitriões e também protege o carpete, em geral de péssima qualidade.

Deve-se também tirar os sapatos antes de entrar num templo, embora seja cada vez maior a incidência de roubo de calçados nas grandes cidades. Os turistas são freqüentemente convocados a comparecer a delegacias para identificar seus sapatos roubados, processo feito pelo olfato.

Na sociedade de Phaic Tan, a cabeça é considerada a parte mais sagrada do corpo, e os pés vêm por último. Portanto, não toque sem querer a cabeça de ninguém e não se sente de maneira relaxada, com os seus pés apontando para outra pessoa. Em hipótese alguma você deve tocar a cabeça com os pés.

IDIOMA
O phaic-tanês oral é uma das línguas mais rápidas do mundo – em média, 192 sílabas por minuto. Um verdadeiro pesadelo para a tradução simultânea, o falante nativo de Phaic Tan costuma cantar o hino nacional inteiro em menos de dez segundos. Para piorar, o idioma phaic-tanês é tonal, e uma palavra pode ter diferentes significados dependendo da entonação usada: “ha”, por exemplo, pode significar “cavalo”, “árvore”, “nuvem”, “paz”, “tarde” ou “você está pisando no meu pé”, dependendo da inflexão da voz e da força com que é berrada.

Devido a essas dificuldades, muitos ocidentais relutam em aprender o phaic-tanês. É uma pena, pois os nativos provavelmente apreciariam qualquer tentativa de dominar o idioma, já que em geral eles não têm muito do que rir.

QUESTÕES DE GÊNERO
Uma das maiores dificuldades para os falantes não-nativos é que as palavras não são determinadas pelo gênero do interlocutor, mas pelo gênero do falante e pela direção do seu olhar. Ainda por cima, as sentenças podem terminar com diferentes sufixos (kar, lo, phar etc.), dependendo da hora do dia. Para complicar, o idioma phaic-tanês emprega três níveis distintos, que indicam a casta ou o status do ouvinte, variando do “Alto phaic-tanês”, um estilo formal cheio de frases elaboradas e floreios retóricos, até o “Baixo” ou “Comum”, que basicamente envolve cuspir.

CULINÁRIA
Para os que não conhecem a culinária phaic-tanesa, é só imaginar os melhores ingredientes da cozinha chinesa e a sofisticação dos temperos indianos, apresentados com a elegância dos melhores restaurantes franceses. A palavra-chave é “imaginar”, já que a cozinha em Phaic Tan sofreu muito com a pobreza dos anos de guerra e com a baderna econômica. Recentemente, no entanto, a culinária phaic-tanesa tem passado por uma espécie de renascimento, e alguns ótimos prazeres aguardam os viajantes aventureiros, inconseqüentes e estomacalmente intrépidos.

QUENTE E APIMENTADA
Os phaic-taneses preferem pratos apimentados, com a presença de chillis por toda parte: nos curries e nas frituras, bem como nos cereais matinais e nos sorvetes. A versão phaic-tanesa para o “bom apetite” (mihn laum) pode ser traduzida literalmente por “Que gotas de suor escorram pela sua testa!”. Mas o afluxo de turistas contribuiu para amenizar os hábitos locais, e vão longe os dias em que, se um freguês pedisse “alguma coisa menos apimentada”, o chef irromperia da cozinha armado com um cutelo de carne e questionaria a sua masculinidade.

Além do chilli, outros ingredientes essenciais para a cozinha phaic-tanesa são os frutos do mar, frutas, vegetais, broto de feijão, broto de bambu, capim-limão (ou, nas regiões mais pobres, limão no capim), manjericão, menta e rato.

Os turistas não demorarão muito para conhecer o molho Sambal, uma mistura inflamável de cebolas, cebolinhas, cúrcuma, gengibre, alho e pimenta vermelha, usada largamente em restaurantes e residências, onde é oferecida a bebês que sofrem de cólica. Outro condimento bastante popular é o praherk, uma pasta de peixe de aroma fortíssimo, usada para disfarçar o cheiro de certas comidas. Infelizmente, nada consegue disfarçar o cheiro do praherk, e é melhor evitá-lo. O prato mais comum ao norte de Phaic Tan é o phoar, um caldo ou sopa para ser comido com palitinhos, o que pode explicar a alta incidência de desnutrição na região.

O SABOR DE PHAIC THAN…
Dica de etiqueta: nos restaurantes e residências de Phaic Tan é de bom tom deixar alguma comida no prato. Não apenas para demonstrar boas maneiras, mas também para dar algo com que trabalhar ao toxicólogo forense que, possivelmente, investigará sua morte.

Os chillis de Phaic Tan são considerados os mais picantes do mundo, tanto que, depois de comê-los, é ilegal arrotar sem a autorização dos bombeiros.

O nergak é um molho de peixe apimentado que acompanha inúmeros pratos em Phaic Tan. Ele é feito de uma planta processada em Pattaponga, uma das maiores fábricas da Ásia, provavelmente a única construção humana que pode ser cheirada da Lua.

O pu wiph é uma fruta tuberosa que dizem combinar o cheiro do queijo gorgonzola com a textura de uma esteira de palha. Quanto ao sabor, ninguém foi corajoso o suficiente para provar.

Para conhecer a comida phaic-tanesa autêntica, vá a uma tradicional barraca de feira, ou sahlmonellah.

COMPRAS
As lojas de Phaic Tan oferecem uma grande variedade de tecidos, roupas, sapatos, jóias e artesanatos. O único problema é que, em geral, esses produtos são de péssima qualidade e foram feitos em Taiwan.

Naturalmente, para obter o máximo em terapia de consumo você não pode deixar de ir a um dos novos supershoppings centers, como o de King Tralanhng, em Bumpattabumpah. Um edifício gigante – tão grande que tem três fusos horários -, o Tralanhng ostenta o maior ventilador de teto do mundo, feito das hélices de um Black Hawk aposentado.

MERCADO NEGRO
Não existe nenhuma dúvida de que Phaic Tam é um dos centros mundiais de produtos pirateados de todos os tipos. A pirataria é tão bem-sucedida por lá que já existe um mercado bem estabelecido de piratas de piratarias.

FÁBRICAS
A seda de Phaic Tan é considerada uma das mais finas do mundo, apesar de sua trama grosseira e da tendência de rasgar quando dobrada. É muito usada no país em todo tipo de roupas, dos tradicionais vestidos de noiva aos guardanapos descartáveis e vendas de pano para o fuzilamento no paredão.

MASSAGEM
A massagem tradicional, ou Sem-Saka-Ngem, costuma ser associada à indústria do sexo, mas na verdade as técnicas phaic-tanesas têm pouco a ver com o prazer sensual. A forma mais comum de terapia tátil é o que se chama de massagem “tradicional”, e não é parecida a nada do que já se experimentou antes, a menos que você tenha recentemente tropeçado numa cerca elétrica. Começa com o seu corpo sendo coberto de óleo de coco da cabeça aos pés. O mais estranho do procedimento é que você continua inteiramente vestido. A massoterapeuta, então, começa a trabalhar vigorosamente em diversos pontos de “ativação”, que têm esse nome pois, quando apertados, ativam uma enorme onda de dor. Ao contrário da massagem sueca, que procura relaxar o corpo através de movimentos suaves com as mãos e dedos, os terapeutas phaic-taneses empreendem um ataque de diversas frentes usando as mãos, os polegares, dedos, cotovelos, antebraços, joelhos e, em alguns casos, uma pistola de pregos. A massagem costuma durar meia hora, ou até o cliente desmaiar.

Atenção: Se uma massagista phaic-tanesa prometer um “final feliz”, isso significa que você sairá do local sem ter sua carteira roubada.

Dica fotográfica: Cuidado ao mandar revelar suas fotos nos bairros de vida noturna intensa, pois neles se presume que você quer ter seu rosto coberto por uma tarja preta.

COMO CHEGAR
A maioria dos turistas chega a Phaic Tan de avião, desembarcando no aeroporto de Phlat Chat. Infelizmente, as grandes companhias aéreas não voam até Phlat Chat, inconformadas com a recusa das autoridades do aeroporto em expulsar os camelôs que montaram barracas em torno da pista de aterrissagem.

A melhor maneira de conseguir um vôo é a bordo da transportadora nacional Royal Fok Tok Airlines. Batizada com esse nome em homenagem a uma ave não-voadora, a Fok Tok tem como uma de suas marcas o procedimento de aterrissagem espontâneo, no qual os pilotos desligam os motores dez minutos antes do pouso, para economizar combustível.

A Fok Tok não apenas permite fumar a bordo, como inclusive encoraja a prática, especialmente à noite, quando uma grande quantidade de cigarros acesos compensa a falta de iluminação na cabine.

Se você prefere optar por outro tipo de transporte, há uma ferrovia expressa ligando Phaic Tan a países vizinhos. A linha mais popular é a do Trem-Bala, que funciona duas vezes por semana, e tem esse nome pois é freqüentemente atingida por tiros de rajadas ao cruzar a fronteira.

Você vai dormir, dormir…

Posted: 1st abril 2007 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 7
Abril de 2007

por Vanessa Barbara

Em 1986, a ajudante de enfermagem Nadean Cool procurou um psiquiatra para tratar de um trauma sofrido pela filha. O médico decidiu que a própria enfermeira deveria ser tratada, e a submeteu a hipnose e outras técnicas sugestivas. O objetivo era resgatar lembranças de abuso que a própria enfermeira teria, supostamente, sofrido. Nas sessões, ela foi convencida de que reprimia memórias de ter participado um culto satânico, de comer bebês, de ser estuprada, de fazer sexo com animais e de ser forçada a assistir o assassinato de uma amiga de 8 anos. Chegou a acreditar que tinha mais de 120 personalidades – crianças, adultos, anjos e até um pato. Quem conta o caso é a psicóloga Elizabeth Loftus, da Universidade de Washington, em um artigo na revista Scientific American. Dez anos depois, Nadean processou o psiquiatra, acusando-o de inoculá-la com falsas memórias. Ganhou e recebeu uma indenização de 2,4 milhões de dólares.

Elizabeth Loftus enumera casos de pessoas que acreditavam ter sofrido abusos na infância e, mais tarde, descobriram que as memórias foram plantadas pelo terapeuta quando estavam hipnotizadas. A recorrência dos casos, segundo a pesquisadora, mostra que a hipnose é indissociável da teoria da sugestão. Os fenômenos hipnóticos, diz ela, provocam efeitos psíquicos – produtos de sugestões que, intencionalmente ou não, são provocadas na pessoa em transe. Para Sigmund Freud, o conceito de hipnotismo equivale ao conceito de sugestão.

Numa sala do Museu Alfredo Andersen, em Curitiba, cerca de vinte alunos se estiram em colchonetes azuis e aprendem a hipnotizar. São psicólogos, médicos, enfermeiros, padres, filósofos, publicitários e até um piloto de avião, que optaram por conhecer uma nova linha de terapia: a hipnose condicionativa que, segundo seu criador, Luiz Carlos Crozera, revolucionará a medicina e as ciências humanas. Nascido em Jaú, no interior de São Paulo, ele não é médico ou psicólogo. Mas fundou e dirige o Instituto Brasileiro de Hipnologia.

Crozera é gordinho, usa óculos, tem bastos bigodes e fala sem parar. Segundo ele, já existem mais de 400 hipnólogos clínicos – condicionativos – formados no Brasil, Angola e Portugal. Ele conta que a Universidade Estadual de Londrina está pesquisando a comprovação científica das técnicas que inventou. O seu curso é intensivo. Começa na sexta-feira e termina no domingo. São dez horas de aulas por dia. Ele diz ter ministrado cursos em Manaus e Fortaleza, em Vassouras e João Pessoa, em Lisboa e Sintra, mas as cidades onde sempre esgota as vagas são Curitiba e Campinas.

Os três dias são mais do que suficientes para uma apresentação aos princípios básicos da hipnose condicionativa. Os inscritos vêm do Paraná, do Mato Grosso, de Santa Catarina ou de Minas Gerais, e se hospedam em hotéis próximos. Alguns moram em Curitiba e estão fazendo o curso pela segunda vez. Na sala, dezenas de cadeiras escolares e uma tela para exibir 200 slides em Power Point (que começam com os dizeres “o início da vida: aí estão as bases biológicas do ser humano”). Em cima da mesa, há suco, chá, água, bolinhos e biscoitos de chocolate. São dois intervalos de dez minutos para lanche e uma pausa de uma hora para almoçar, cada um por si. A quantidade de biscoitos por pessoa não foi estipulada, o que faz com que alguns alunos se encham de doces e, talvez, embotem o cérebro. Fica difícil de pensar, comentam os mais céticos.

A hipnose condicionativa trabalha com o bloqueio dos registros mentais negativos. Ela opera em quatro vertentes: o condicionamento interno (ligado à mente e à fisiologia), o condicionamento externo (meio ambiente), o descondicionamento, e o recondicionamento de registros mentais. A principal diferença da hipnose condicionativa para as outras linhas de hipnoterapia é que a nova técnica pretende resolver as dificuldades psíquicas do paciente sem perscrutar, longa e penosamente, os abismos da psique. Ela chegaria às causas dos problemas sem retomar traumas ou revivenciar os abalos emocionais (o que Crozera chama de “sofrologia”). Com isso, abreviaria o tratamento. Ele sustenta que é possível resolver um caso de depressão em três sessões.

***

O segredo do método é encontrar um meio rápido para chegar às causas e bloquear os traumas. O hipnólogo descobre a origem do problema fazendo uma espécie de rastreamento na mente, indo da vida intra-uterina até o presente num curto espaço de tempo. Trabalha-se sempre o lado positivo das coisas. “Cognitivamente, o fato fica intacto, mas fazemos um bloqueio das sensações negativas”, explica, diante da alegação de que sua técnica “apagaria” as memórias indesejáveis (tal como faz a empresa Lacuna Inc. no filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças). “O abalo emocional é que vai embora.”

No primeiro dia de aula, Crozera distribui uma pedrinha para cada aluno, estende colchonetes na sala e dá início a uma sessão coletiva de hipnose para mostrar como a técnica funciona. Apagam-se as luzes e o sistema de som toca uma música calma. Como não há colchonetes para todos, alguns se deitam no chão, espremidos entre os pés das cadeiras. Aos poucos, todos param de se mexer. Ele começa a repetir, com a voz mole: “Quero que você deixe os seus problemas lá fora… concentre-se na música”. A primeira etapa do processo se destina a reduzir a ansiedade e fixar o controle de voz. Crozera comanda um vagaroso exercício de respiração para relaxar os músculos, e vai descrevendo o relaxamento da cabeça, da nuca, dos ombros e da barriga, beeeeeeem devagar. Devagar, mesmo. Devagar para burro. Muito devag…

Em seguida, começa a falar da pedrinha. “Quero que sua atenção e concentração fiquem na pedrinha que está nas suas mãos… e não na minha voz”, ele diz, pausadamente. “Sinta a textura… a forma. Enquanto sente a pedrinha, permita-se sentir uma agradável sensação de paz interior, muita paz e tranqüilidade, envolvendo o seu corpo.” Cada frase que o hipnólogo repete é seguida por segundos de silêncio, que reforçam as ordens de liberar a mente dos pensamentos e deixá-la totalmente vazia, focando apenas na referida pedrinha. Algumas tosses são ouvidas na sala. Depois de dez minutos de preliminares, tem início o relaxamento propriamente dito: “Sinta seus pés pesados… muito pesados… pesados e moles, moles e relaxados. Sinta uma agradável sensação de calor envolvendo seus pés. Relaaaaaxe”.

A frase demora vinte segundos para terminar. É uma etapa de sugestionamento, que serve para que o paciente entre no transe. “Quanto mais você relaxa, uma sensação mais profunda de paz… paz e calma… calma e tranqüilidade vai envolvendo cada parte do seu corpo.” O silêncio na sala é total. Um dos alunos aproveita para coçar o pé. “Onde você ouve apenas a minha voz… E faz somente aquilo que eu lhe disser. Relaaaaaaxe”.

Os órgãos internos da barriga, o tórax, o coração, braços, queixo, bochechas e a testa são mencionados na etapa de relaxamento, bem como as sobrancelhas, as pálpebras e até partes do corpo menos ortodoxas. “Sinta seus pulmões calmos e tranqüilos… tranqüilos e relaxados.” Essa etapa dura um tempão: de trinta a cinqüenta minutos. Aí vem uma lenta contagem de vinte-dezenove-dezoito-dezessete que tem o objetivo de baixar a freqüência mental do paciente. Ao chegar ao número um, espera-se que ele tenha alcançado o relaxamento profundo. Para fixar o nível do sono, Crozera diz a palavra “agora” (alguns alunos entendem “amora”).

***

Desta forma, em teoria, o sensor crítico (racional) do paciente é afastado e a voz do terapeuta tem acesso ao seu universo de registros mentais, captados de forma involuntária e não percebidos pela memória consciente. A terceira fase da sessão consiste nos condicionamentos em si, já que o paciente se encontra em transe hipnótico e está pronto para receber sugestões. (A essa altura, vários alunos estão roncando.) Crozera desenvolveu inúmeras técnicas de condicionamento mental, que ele apelidou de “espelho”, “porta”, “chuveiro”, “travesseiro”, “maçaneta” e “cofre”. São sugestões positivas que se dá ao paciente para aumentar a auto-estima, por exemplo: “Todas as manhãs, quando você se olhar no espelho, sentirá muita disposição e alegria”. Já a técnica do cofre é utilizada para bloquear os registros mentais negativos: pede-se que a pessoa mentalize um cofre sólido, com portas de aço puro, no qual irá colocar todos os sentimentos que a incomodaram, ano a ano, desde a vida intra-uterina. Depois o cofre é fechado e a chave fica com o terapeuta. Segundo Crozera, é assim que se curam os problemas que têm origem em traumas: “O cofre é um inconsciente dentro do inconsciente, onde a pessoa vai pôr o lixão dela”.

Uma etapa opcional é a “energização” – fórmula que consiste em imaginar “uma luz branca entrando pelo seu dedão do pé”, trazendo saúde para todas as células do corpo, removendo as impurezas e fortalecendo as artérias. Pode-se também energizar a pedrinha, ou qualquer outro objeto que o paciente tenha nas mãos. Concluída essa fase, o hipnólogo empreende a saída do sono terapêutico, contando (len-ta-men-te) de 1 a 10 até que os batimentos cardíacos do paciente voltem ao normal.

Nesse momento, após uma hora e meia de sessão, alguns alunos continuavam dormindo. Para Crozera, eles não estavam dormindo, e sim em transe profundo. “Você quase não sente a respiração dele”, explica, apontando para o aluno Darcy Nichetti, filósofo clínico (não se trata de erro: o curso atrai “filósofos clínicos”, aqueles que aplicam o conhecimento filosófico à psicoterapia). Todos trocam olhares, desconfiados, e alguém protesta: “Mas ele está roncando!”. O professor ressalta que o ronco é uma manifestação fisiológica, que não tem necessariamente a ver com o sono. São 11 horas da noite; a sessão termina com as luzes se acendendo e o pessoal se espreguiçando. Uma das alunas se levanta e vai correndo para o banheiro, pois está apertada. “Provavelmente ela não sabe, mas tinha uma doença que acabou de ser curada”, declara o professor. “Uma vez, quando acabou a sessão, uma aluna minha foi correndo para o banheiro fazer xixi. Ela tinha câncer no ovário, e depois da sessão estava curada.”

Sonolentos, os alunos vão embora, com a promessa de que na manhã seguinte olharão para o espelho e sentirão muita disposição e alegria.

***

Nas aulas, Luiz Carlos Crozera garante que a hipnose condicionativa é diferente de todos os tipos anteriores de hipnoterapia. Ele cita a hipnose clássica e a ericksoniana como pontos de partida da nova vertente, mas lembra também do pioneiro Franz Anton Mesmer, médico alemão formado pela Universidade de Viena que, no século XVIII, publicou uma tese de doutorado sobre a influência dos planetas na saúde das pessoas. Mesmer acreditava que havia um fluido universal conectando cada elemento do universo, e que as doenças surgiam quando havia um desequilíbrio dessa energia dentro do corpo. Influenciado pelas curas com ímãs do jesuíta Maximilian Hell, lançou a teoria do “magnetismo animal”, capacidade de um indivíduo em causar efeitos similares ao magnetismo mineral e promover a cura em outra pessoa. Suas técnicas consistiam em efetuar passes com as mãos e olhar fixamente para o paciente, conduzindo-o ao transe. Em 1784, as curas pelo mesmerismo ganharam o mundo e chamaram a atenção da Academia de Ciências de Paris, que nomeou uma comissão para investigar o método.

Em pouco tempo, os cientistas concluíram que o magnetismo animal não passava de charlatanice, pois não possuía validação científica e se sustentava em teorias astrológicas. A comissão anunciou que o fluido universal não existia e que as curas dependiam da auto-sugestão dos pacientes (ou do poder de sugestão do hipnotizador), não sendo, portanto, confiáveis. Mais tarde, também Freud retomou o assunto e o descartou, ao perceber que Mesmer acreditava em um fluido magnético que passaria do hipnotizador ao hipnotizado. Crozera alega que a importância histórica de Mesmer é indiscutível, apesar de tudo.

O termo “hipnotismo” surgiu apenas em 1843, em Manchester, e foi cunhado pelo cirurgião escocês James Braid, para designar o procedimento de indução ao estado hipnótico. Uma vez que hipno significa sono, a palavra em si não é adequada, já que a hipnose coloca a pessoa num estado especial do cérebro que se assemelha ao sono, mas que não é o sono. Depois veio o médico parisiense Jean-Martin Charcot, já em 1882. Ele percebeu que, por meio do hipnotismo, conseguia inculcar sintomas de histeria nos pacientes, ou seja, uma pessoa sadia passava a sentir tremores, paralisia, insensibilidade à dor e outros sintomas físicos da doença. Era possível, portanto, fazer o caminho inverso e curar os sintomas dos pacientes histéricos. A visão de Charcot era puramente somática, pois a considerava um estado fisiológico modificado do sistema nervoso, causado por estímulos externos (o toque da mão, o efeito de ímãs).

Apesar de ter sido seu discípulo, Freud discordava de Charcot em favor de uma terceira teoria da hipnose, a teoria da sugestão, de Ambroise Liébeault. O grande mérito dessa teoria foi despojar o hipnotismo de seu mistério, correlacionando-o com fenômenos conhecidos da vida psicológica normal e do sono. Com isso, o problema da hipnose foi inteiramente transposto para a esfera da psicologia, e a sugestão foi erigida como núcleo do hipnotismo e chave para sua compreensão.

Freud valeu-se da técnica durante dez anos, no máximo: entre 1886 e 1896. Mais tarde, aderiu ao método catártico, criado com Josef Breuer, que usava o transe para perguntar a origem dos sintomas a um paciente que, em seu estado de vigília, podia descrevê-los só muito imperfeitamente, ou de modo algum. Com o método de Breuer, o paciente hipnotizado era levado a expressar em palavras a fantasia emotiva pela qual se achava dominado.

***

Com o tempo, a experiência deu lugar a dúvidas mais graves quanto ao emprego da hipnose, mesmo como um meio para a catarse. A principal foi que até mesmo os resultados mais brilhantes estavam sujeitos a ser de súbito eliminados, se a relação pessoal do terapeuta com o paciente viesse a ser perturbada. Ou seja, a relação emocional entre médico e paciente era, afinal de contas, mais forte do que todo o processo catártico, e a sugestão acabava sendo um instrumento que comprometia a origem e a significação do sintoma.

Assim, Freud decidiu abandonar a hipnose como método, embora continuasse tirando proveito de suas descobertas: em primeiro lugar, o hipnotismo era uma prova convincente de que notáveis mudanças somáticas podiam ser ocasionadas unicamente por influências mentais. Em segundo, mostrava que, na consciência dos homens, existiam poderosos processos mentais escondidos – que só se poderiam descrever como inconscientes. O inconsciente, aliás, estivera muito tempo sob discussão entre os filósofos como conceito teórico, mas naquele momento, pela primeira vez, ele se tornava algo concreto, tangível e sujeito a experimentação.

***

Enquanto isso, na capital paranaense – 100 anos depois de Freud e 200 após o “magnetismo animal” de Mesmer -, Crozera declara que a energia psíquica de cada um de nós está ligada à energia das outras pessoas. “Quando pensamos, projetamos nossas energias positivas ou negativas aos outros; por isso, depois de encontrar alguém cheio de problemas, é preciso fazer um descarrego”, diz. Ele ensina a importância de tirar os sapatos para descarregar as energias no solo e acusa o calçado de ser a própria fonte do stress, ao que alguns alunos decidem terminar a aula de meias. O que obriga o professor a sacar um desodorizador de ar, de tempos em tempos.

Diante de uma platéia na qual havia um neurocirurgião e uma dermatologista, ele afirmou que a maioria dos medicamentos tem efeito placebo, que o alcoolismo não é doença e que o câncer não é genético, pois é a mente que o desenvolve. Para Crozera, 90% dos casos de câncer são emocionais. “Quem não tem nenhum mecanismo de fuga tem grande tendência a ter câncer. Porque a pessoa se fecha dentro dela e absorve tudo”, explica. Segundo ele, o câncer se desenvolve na região do organismo onde houve abalo emocional. Do universo inteiro das doenças, 90% também surgiriam da mente humana, bem como a obesidade, que teria um fundo quase inteiramente emocional. É por isso, também, que ele se declara contrário à propaganda antitabagista impressa atrás dos maços de cigarro – pois não é o cigarro que mata, e sim a foto. Crozera sai para fumar durante o intervalo, enquanto confessa que acha difícil haver técnica mais eficaz para tratar problemas psíquicos.

Ele avalia que, desde 1927, não havia surgido nenhuma novidade no campo da hipnose, e que sua invenção pode ser considerada a medicina do futuro. “Com a hipnose condicionativa, podemos fazer a pessoa adorar cebola”, diz. Mesmo sob a resistência dos médicos, ele sustenta que a única maneira de bloquear os registros negativos é por meio da hipnose, que trabalha de forma direta na mente. Para ele, nenhum remédio tem eficácia no tratamento de abalos emocionais: eles apenas burlam a mente e não chegam às causas. “A medicina trabalha com o efeito placebo”, garante.

***

Até então, o neurocirurgião Silvio Feitosa, de 40 anos, permanecia calado. A partir desse instante, começou a suspeitar que Crozera não acreditasse naquela história de neurotransmissores, e perguntou se ele não achava que a mente era química. O professor respondeu que “mente” é diferente de “cérebro”, pois a mente estaria acima de tudo: é o seu próprio espírito. Desafiado, Crozera se considera pronto para provar sua teoria, que apresenta sem medo para todos os tipos de profissionais. “Falei alguma coisa de mais?”, pergunta, olhando para Silvio Feitosa. “Falei o que a medicina não tem coragem de falar, só isso.”

Ele acentua que a hipnose condicionativa tem a vantagem de não fazer a pessoa sofrer, como nas outras terapias. Na hipnose clássica, é preciso reviver para poder entender o trauma e se livrar dele. Já na condicionativa, logo que o paciente começa a sofrer, o terapeuta isola o sentimento e manda trancá-lo no cofre. Ao contrário da hipnose clássica, a nova técnica não é narrativa e nem investigativa, já que apenas 20% das pessoas conseguem falar durante o estado de transe (ao passo que todas são hipnotizáveis, segundo Crozera). O hipnólogo condicionativo não tem a necessidade de saber o que está acontecendo enquanto repassa um determinado ano na vida do paciente – apenas lê as reações em seu rosto calado, e manda trancar tudo o que o incomoda no cofre. Às vezes eles sabem o que aconteceu durante a sessão porque o próprio paciente lhes conta depois. Crozera narra o caso de uma mulher que tinha aversão a creolina e, em estado hipnótico, teria descoberto que o pai dera um copo do produto para que a mãe abortasse, quando estava grávida.

Na hipnose condicionativa, portanto, é possível fazer regressões até a vida intra-uterina, repassando os sentimentos negativos de forma direcionada (em uma determinada época), ano a ano ou por frações de períodos. Também é possível fazer progressões e ver o futuro – o que vai de encontro a todas as teorias do inconsciente já conhecidas. Ele narra que hipnotizou uma paciente com câncer e curou a doença, mas que ela continuava com medo de que o câncer voltasse. Crozera ressaltou que o processo era perigoso, pois podia revelar coisas que ela não queria saber. A paciente insistiu, e ele fez uma progressão até o ano de 2010. No futuro, a mulher estava saudável, descansando num sítio, cercada de netos. Muitos alunos contestaram. “Mas e se ela estivesse morta, o que iria acontecer?” Outros simplesmente descartaram aquilo como uma grande bobagem. “Algumas coisas você aproveita, outras você ignora”, disse o estudante de psicologia Francisco Benhur, de 44 anos, de Caxias do Sul, um dos mais contestadores da turma.

Crozera acrescentou que é possível fazer projeções, ou seja, projetar a mente do paciente à distância, de modo que ela entre na mente de outra pessoa. Por exemplo: se uma mãe deseja hipnotizar o filho, mas ele não está presente, ela pode pedir para o hipnólogo fazer a sessão com ela, e assim hipnotizar o filho por tabela. “A gente é racional e até ouve, mas tem coisas que não dá pra engolir”, admite a aluna Karen Beatriz Silva, psiquiatra forense de Curitiba.

***

Luiz Carlos Crozera conta que é formado em engenharia civil. Trabalhava como analista de sistemas e era professor de linguagem de programação antes de se interessar pela hipnose. Por influência do pai, começou a estudar o fenômeno, sem nunca ter realizado um curso sobre o assunto. A criação das técnicas, iniciada na década de 1980, demorou muitos anos, até que ele pudesse entender o funcionamento do mecanismo mental. “Numas férias com minha família no Guarujá, vendo pelo menos uma dezena de obesos malhando na academia do Spa Med, resolvi levar a proposta da hipnoterapia ao doutor Augusto Santomauro, que na época era diretor clínico do spa.” Crozera fez uma demonstração. Ele diz que não lembra o nome das pessoas que acompanharam a experiência, mas que havia uma psicóloga, o diretor de UTI do Hospital das Clínicas de São Paulo, um cardiologista e mais um quarto médico de cuja especialidade, lamentavelmente, ele também não lembra.

O hipnólogo colocou um paciente em situação de risco, fazendo-o acreditar que estava amarrado em uma linha de trem. Com apenas uma palavra: “relaxe”, teria conseguido diminuir a freqüência cardíaca da pessoa de 130 bpm a 23 bpm. “Naquele final de tarde de 1993, os médicos chegaram à conclusão de que estávamos perto da descoberta de um mecanismo de controle da hipertensão”, relata entusiasmado. “Restava descobrir uma forma para que o paciente não ficasse na dependência psicológica do terapeuta, muito menos de medicamentos.” Foi assim que surgiu a técnica da pedrinha. E a hipnose condicionativa.

Segundo o método, basta que o hipnólogo estabeleça uma série de rotinas para aplicar, em voz monocórdia, de acordo com a queixa do paciente. Se a pessoa tem medo de sapos, o terapeuta trabalha “o espelho, o travesseiro e o chuveiro” para aumentar a auto-estima, e depois faz “o cofre”, em que o paciente irá localizar o acontecimento traumático e trancá-lo lá dentro. Energizando a pedrinha, ele garante que o paciente tenha uma espécie de talismã para ajudá-lo nos momentos difíceis, um objeto com potencial curativo que pode ser tanto uma pedra quanto um terço. “Estou até agora com uma dor de cabeça terrível”, reclama uma das alunas, depois da sessão. “Passou a pedrinha?”, pergunta o professor. “Passei, mas não adiantou”, ela responde.

Crozera alerta que a hipnose condicionativa só é eficaz quando considera o componente externo do condicionamento. O terapeuta deve conversar com as pessoas que possam exercer pressão na vida do paciente, para que não haja reincidência. Ele lembra do caso de um alcoólatra que parou de beber durante vários meses, mas retomou o vício quando, em uma festa, a filha duvidou que ele estivesse sóbrio. “Se a gente condiciona uma criança para ir bem nos estudos, mas vem o pai e diz: ‘seu burro’, ele acabou de destruir tudo!”, sustenta. O professor recomenda que os condicionamentos sejam reforçados na mente durante o máximo de tempo possível e que o hipnólogo oriente a família. “Você trabalha o paciente, sugere e ele sai zeradinho”, garante. “Mas aí qualquer coisinha vem e destrói.” (Ele também ensina que há palavras proibidas durante a sessão, como “não”, “medo”, “dor”, “pavor”, “barata” e “dentista”, para aqueles que têm fobia de ir ao dentista. Nesses casos, pode-se usar a palavra “profissional dentário”.)

Estas seriam algumas das falhas da hipnose. O psicanalista Renato Mezan, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, explica que, desde a época de Freud, “a sugestão não resolvia o conflito, como não resolve até hoje: simplesmente o silenciava, o recobria com a influência do hipnotizador. Cessada a sugestão, o conflito retornava tal e qual, às vezes agravado”. Ele explica que bloquear o acesso aos traumas é, na verdade, trabalhar a favor do recalque: é como empurrar a sujeira para baixo do tapete. Nem por isso o cheiro vai deixar de se espalhar. “É como se eu dissesse que, se não olhar para a coisa que dói, ela vai parar de doer”, resume o autor de Freud, Pensador da Cultura. Além disso, ele aponta que o sofrimento psíquico nem sempre tem causa linear, ou seja, não é porque alguém apanhou do pai aos 5 anos de idade que essa pessoa vai fazer xixi na cama quando adulta. É como se não existisse o deslocamento, a metáfora, o recalque. Ou como se todas as crianças que apanhassem aos 5 anos de idade futuramente tivessem problemas de enurese. “Nesta área, não dá pra dizer que A produz B. Não é uma causalidade linear simples”, avisa. Como numa equação física, existem diversas variáveis possíveis, pois muitos elementos concorrem para formar um comportamento.

Mezan lembra que uma das maiores conquistas no campo da psicoterapia foi reconhecer que o paciente se cura por sua própria atividade, por meio de uma reeducação ativa. A terapia pressupõe o diálogo. Por isso, resgatar a hipnose para curar transtornos psíquicos, nos dias de hoje, é ir na contramão do conhecimento – já que o elemento ativo, nesse caso, é o terapeuta. O paciente permanece quieto, quase como um objeto de que não se exige nenhuma participação.

***

Atualmente, muitos profissionais de saúde consideram a hipnose um procedimento sério e eficaz, cientificamente comprovado, que pode ter inúmeras aplicações terapêuticas. Mas observam que é também uma ferramenta perigosa nas mãos erradas, principalmente por utilizar a sugestão – por introduzir uma idéia consciente no cérebro da pessoa hipnotizada, e essa idéia ser aceita como se tivesse surgido de forma espontânea. Afastado o sensor crítico do paciente, o hipnólogo tem um poder bastante grande sobre suas crenças. Em tempos de gnomos, florais e unicórnios, não é preciso muito para acreditar que uma de suas personalidades é um pato.

O curso de hipnose condicionativa de Luiz Carlos Crozera dura três dias, é aberto para profissionais de todas as áreas e custa 900 reais. O psiquiatra Kenneth Olson, por sua vez, cobrou 300 mil dólares do plano de saúde de Nadean Cool, que posteriormente o processou. Era o preço da terapia em grupo para cada uma das 120 personalidades que ela apresentava.

Os Silva

Posted: 1st abril 2007 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 4
Abril de 2007

por Vanessa Barbara

Douglas e Claudia vivem brigando por assuntos banais. “Coisas pequeníssimas!”, ela diz, chacoalhando os pés do alto de seu banquinho. Eles estão juntos há oito anos. São o menor casal do mundo, atestado pelo Guinness Book.Claudia Pereira Rocha da Silva tem 34 anos e 92,5 centímetros de altura, o tamanho de uma criança de três anos. Ela nasceu em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre, e aos oito anos conheceu o futuro marido, que é menor do que ela: tem 89,5 cm. Na época, Douglas Maister Breger da Silva se mudou para Curitiba e perdeu o contato com a amiga. Décadas depois, voltaram a se encontrar.

Após dois anos de namoro, casaram-se na televisão, ao vivo, numa cerimônia no Programa do Gugu. Distribuíram bloquinhos e ímãs de geladeira com a foto dos dois, e cada lembrancinha recebeu um toque de Douglas, que é artista gráfico. “Na verdade, sou pau pra toda obra. Cozinho, passo e lavo”, afirma o maridão, triunfante, ao que a esposa concorda. “É verdade! O feijão dele é muito bom.”

O casal mora nos fundos de uma casa simples em Capão Raso, na periferia de Curitiba. O imóvel é pequeno e pertence ao chefe de Douglas. “Há algumas semanas, eles pediram a casa. Estamos pensando em voltar pro Rio Grande”, diz, contrariado. Eles gostam de Curitiba. Os ônibus ali não têm degraus tão altos como em Porto Alegre. “Quantas vezes eu não ficava com os nervos esticados porque tinha que fazer ginástica pra subir”, protesta Claudia. “Como nós temos bem menos de 1 metro, dificulta.”

Alguém bate palma no portão. Douglas sai correndo, sobe num banquinho e olha pela janela, esticando o pescoço. “Ah, é a Josi e a Salete!”. Salete Fernandes Alves, de 38 anos, é de longe a mais alta da turma: mede 1,24. Trabalha no departamento financeiro de uma empresa onde começou há cinco anos, como telefonista. Joseane Maria do Nascimento, a Josi, de 26 anos, é mais tímida. Está desempregada e vive da pensão que recebe do pai.

Em estatura, Douglas e Claudia batem no ombro das duas amigas. Para eles é ainda mais difícil arrumar roupas e sapatos do tamanho certo. “Comprei uma vez um sapatinho maravilhoso”, conta Claudia, que calça 25/26. Depois de anos, quando o sapato enfim furou, ela não descobriu mais nada parecido. Hoje, quando acha alguma coisa que lhe agrada, já vai comprando duas ou três peças, e ainda avisa as amigas. É ela quem costura as roupas básicas do casal, feitas de malha. “Aprendi com minha mãe, que era costureira.”

O casal vai se adaptando como pode nesta terra de gigantes. Para eles, é difícil alcançar os telefones públicos e caixas eletrônicos. “Os elevadores modernos estão mais acessíveis”, segundo Claudia, mas Salete protesta: “É, mas às vezes você tem que levar um objeto comprido na bolsa para alcançar o botão”. As prateleiras de supermercados quase chegam ao céu. Os balcões dos estabelecimentos comerciais – de padarias a lojas de roupas – exigem que eles pulem para chamar atenção. Muitos os confundem com crianças. “Às vezes, você está na fila, chegam outras pessoas atrás, fingem que não vêem e passam na frente. Você só é atendido quando se esforça um pouquinho mais”, diz Salete.

Na casa de Douglas e Claudia muitos móveis têm o tamanho regular, outros são adaptados. Na sala, duas mesinhas de centro fazem as vezes de mesa de jantar. A televisão também é pequena. Na cozinha, uma pia baixa de banheiro foi adaptada para lavar a louça. A geladeira é um frigobar. O balcão principal é fixo e, por isso, quando eles querem cortar legumes, por exemplo, usam uma escada de dois degraus com rodinhas. “A gente leva essa escada para todo lugar, até para o fogão. Mandamos fazer sob medida”, conta Douglas. Para o quarto, eles conseguiram módulos baixos que servem como guarda-roupas. Claudia fez de um banquinho a sua cômoda de maquiagem. “Ela é maquiadora, costureira, dançarina.”, diz Douglas. E, como muitos anões, chegou a trabalhar no teatro. “Adivinhe a peça”, desafia Claudia. Vem o silêncio, ela abre os braços e responde: “A Branca de Neve!”.

Os quatro concordam que o país está mais atento para os deficientes, mas, ainda assim, eles sofrem com o preconceito. Segundo Claudia, é normal as crianças perguntarem: “Pai, por que é que ele não cresceu?”. E o pai responde: “Porque ele não come feijão, não come verdura”.

Mas os quatro dizem que há vantagens em ser pequeno. Na opinião de Douglas, só depende do ponto de vista. Assim como os cegos desenvolvem melhor o tato ou a audição e os surdos aprendem a ler os lábios, os anões adquirem maior agilidade. Para Douglas, isso acontece porque eles precisam de um banquinho para tudo. “Então, no ato de subir e descer para fazer as coisas, a gente se torna mais rápido. Na rua, no centro da cidade, no meio da multidão, se a gente pára ou anda no nosso ritmo, o povo passa em cima. Nós temos então que andar no ritmo deles. E, para nós, esse ritmo é mais rápido.” Claudia acha que eles também têm mais equilíbrio. Nos ônibus, por exemplo, não precisam segurar nas traves. “Quanto mais alto você é, mais difícil”, diz Douglas. Na hora de tropeçar e cair, ser pequeno também é vantagem, pois o tombo é menor.

***

No início de fevereiro, Douglas deu um grande passo. Concluiu as aulas práticas para tirar a carteira de motorista. Ele mostra na câmera digital os vídeos de seus passeios com o instrutor da auto-escola. Em geral, os anões dirigem automóveis adaptados. Os pedais recebem extensões. No carro de Douglas e Claudia – que são muito menores do que a maioria dos anões -, todos os comandos ficam na direção. O carro tem de ser automático; o motorista controla o acelerador e o freio com a mão. “A Salete usa os pedais porque tem mais agilidade e é mais comprida. No meu caso, mesmo com o alongador, os pés não alcançam, e eu uso então o pé aqui em cima, na alavanca. Facilita para usar as duas mãos e ainda posso apoiar os pés aqui do lado, no volante, para ajudar.” Josi observa que é quase como se ele dirigisse com quatro mãos.

Como já está ficando tarde, Salete se levanta, pega as chaves do carro e chama todos para dar uma volta no shopping. No caminho, voltam a reclamar dos pais que assustam os filhos com histórias de anões. Espremido no banco de trás com Claudia e Josi, Douglas exemplifica o absurdo: “Eles chegam a dizer que os anões comem criancinha, você acredita?”.

A São Silvestre do ziriguidum

Posted: 1st janeiro 2007 by Vanessa Barbara in Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 4
Janeiro de 2007

Em São Paulo, dez horas seguidas de samba e pisões no pé para ganhar mil reais

por Vanessa Barbara

Não se sabe se, lá fora, chovia ou ventava, se era dia ou noite, Páscoa ou Carnaval, se os Quatro Cavaleiros tinham descido à Terra para trazer a peste ou a fome. Lá dentro, no salão de dança, a única certeza compartilhada por treze casais era a de que quando acabasse a 30ª música – e, com fé, isso iria acontecer – viria outra, e depois do pé esquerdo o direito, e depois do direito mais um rodopio e um passo para trás. Os giros já são automáticos, os casais se olham pensando em sofás, os pares parecem robôs.

A 1ª Maratona de Samba da Cidade de São Paulo teve início num domingo abafado de dezembro, às duas da tarde. Estava prevista para terminar dez horas depois, com o recolhimento dos corpos e o anúncio dos vencedores. Era pouco mais de meio-dia quando os primeiros concorrentes chegaram ao local – o Consulado Music, casa de shows na Zona Norte – para fazer exames de pressão arterial e assinar termos de compromisso. Dois bombeiros, William e Ricardo, foram chamados para medir os batimentos cardíacos e a respiração dos casais antes da largada. Eles também ficariam de plantão para agir em caso de síncope: “Há dez anos, as maratonas de lambada derrubavam bastante gente”, relembra Ricardo. “Quando você ia ver, o pessoal estava caindo no salão.”

Na concentração, os participantes não parecem nervosos. Discutem o que fazer com as camisetas oficiais, que deveriam ser usadas durante a maratona. Eram muito vermelhas e excessivamente quentes. Um dos dançarinos decide rasgar as mangas com uma faca, e o organizador anuncia: “Está chegando a tesoura!”. Prontamente, as meninas confeccionam miniblusas e inventam nós para amarrar a camiseta acima do umbigo.

Enquanto recorta a roupa, Juliana Marques, de 22 anos, confessa que havia almoçado dois pratos grandes de macarrão e um pão com bife, notícia que abala o moral de seu parceiro, Osíris da Silva, 19 anos. Alguém afirma que comeu um pastel e recebe olhares de reprovação. A mais empolgada das dançarinas, Claudia Chaves, 24 anos, professora da escola Algazarra’s, aparece para dizer que “bombou” no teste da pressão arterial. “Estão tentando me derrubar”, desconfia. Depois de um lanche leve e uns passinhos de samba, a pressão de Claudia voltaria ao normal. Às 13h30 chega o capitão da PM Silvio Sciacca, dançarino de fôlego e de longas distâncias, e faz uma aposta: se a sua pressão não der 11 por 7 ou 12 por 8 irá trocar de nome. O resultado é 12 por 7. Ele protesta. Diz que não é reprovado “nem em exame de fezes”.

Dos concorrentes, muitos são professores de dança, como Claudia Chaves, e alguns já participaram de maratonas de salsa e samba-rock. Sciacca, o capitão da PM, com seus 40 anos e 1,95m de altura, foi um dos finalistas da histórica competição de tango de 2003 no Avenida Club. A maratona durou 24 horas e apenas dois casais chegaram ao fim. “Nunca mais”, garante o capitão. “As duas últimas horas foram as mais difíceis, só continuei por questão de foro íntimo.” Ele chegou disposto a enfrentar o desafio de samba, embora preferisse ritmos mais condizentes com as tradições da dança de salão, como a valsa inglesa, a valsa vienense, o slow fox e o quick step, além do tango. Há três anos, ele fez par com a própria professora. “Tive a aula particular mais extensa do mundo”, diz.

Os casais são mandados ao vestiário. As mulheres vestem calças confortáveis e tênis de dança. Os homens escolhem sapatos com bico de camurça e solado de borracha. Pheliphe Britto, de 22 anos, entra no quartinho cheio e pergunta o que houve com o camarim particular que prometeram para ele: “Com licença, onde fica o camarim do Netinho?”. Ele é professor de dança na Algazarra’s e seu par é uma aluna, a jornalista Danielle Marques, de 27 anos.

Às 14h05, os treze casais são reunidos pelo organizador do concurso, Clovis Pereira Jurado, que (até pelo sobrenome) fará parte do júri. Jurado é diretor da Cia. La Luna, uma das escolas responsáveis pela maratona, em parceria com a rival Algazarra’s e com a Consulado Music. A despeito de ser organizada por academias locais, a prova consta no calendário oficial de eventos da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação. Clovis anuncia as regras: os casais devem dançar, ininterruptamente, até a meia-noite, com pausas de cinco minutos a cada duas horas para ir ao banheiro, e uma parada de quinze minutos na quinta hora para uma refeição. Não serão permitidas trocas de roupas ou de calçados. As duplas podem se servir à vontade das frutas e biscoitos dispostos nas mesas, contanto que não parem de dançar. A partir das 23h, a equipe de jurados avaliará a técnica, a simpatia e a harmonia dos sobreviventes, a fim de eleger um vencedor. Na última hora, houve competidor que reclamou: “Ih, só agora eu lembrei que precisava ir ao banheiro”.

Ainda antes da primeira música, durante o alongamento, o capitão Sciacca conta que não dançará até o fim porque terá de trabalhar. Mesmo assim, ele espera que as primeiras duas horas sejam bem pesadas, para eliminar metade dos concorrentes: “Toca só Paulo Moura”, ele pede, olhando para a cabine da DJ Drica. Ao seu lado, com o número 12 colado nas costas, Pheliphe Britto diz que não se importa, pois já começou na pegada: dançou com Danielle Marques até as 3h30 do dia anterior, deu aula das 9h ao meio-dia e foi direto para a competição. “E amanhã eu volto para a Segunda Absoluta do Netinho!”, completa. O cantor é sócio do Consulado Music, e bate ponto na casa às segundas.

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Às 14h13 tem início a maratona, com “Meu samba pede passagem”, da música de Claudio Jorge “O Samba Melhor do Brasil”. Os casais começam com os passos básicos: um pra frente, um pra trás, um pra frente, um pra trás – bem juntinhos, porque ninguém é pingüim, ensina Rafael Martins, 21 anos, parceiro de Claudia. Pheliphe está mascando chicletes e Lacyle Emerson Terezinha, 29 anos, traz uma toalhinha no bolso de trás, que se mostraria muito útil no decorrer da maratona. Sua parceira, Elis, usa uma sandália de salto alto, assim como Elizangela Alves Gomes, 20 anos, e Aline Batista Cleto, 18. Das mulheres, apenas elas usam salto, e só Aline dança de saia. Três dos homens vestem calças brancas. Um dos organizadores aponta para Lacyle e para Claudinho Ferreira, 29 anos, e observa: “Aqueles dois são nêgo véio, é tudo malandro”.

14h19 – Pheliphe anuncia: “Troca de damas!”, mas ninguém dá bola.

14h26 – Claudia e Rafael, o casal no 1, não poupa energias. “Ela é assim: sai na escola de samba e dança a avenida inteira, depois ainda vai para a bagunça”, informa o bombeiro Ricardo, que também é dançarino.

14h32 – Sem parar de sambar, Pheliphe diz para uma garçonete: “Me vê uma Brahma!”.

14h44 – Elizangela diz que dança é diversão e Claudinho, seu parceiro, completa: “Estamos só aquecendo”.

14h52 – Rafael amarra na cabeça o que sobrou da manga da camisa.

15h10 – O capitão Silvio Sciacca abandona a prova para ir trabalhar. Agora são doze casais na pista.

15h25 – Chega um repórter de TV e um cinegrafista, que se põem a filmar os pés das pessoas.

15h38 – Pheliphe, com a voz séria: “Bem, amigos da Rede Globo, estamos aqui em mais uma maratona…”.

15h57 – O repórter de TV se mata de comer bananas.

16h10 – Pausa para ir ao banheiro. As mulheres saem correndo e uma funcionária é enviada para controlar o tempo. “E se o xixi for comprido?”, pergunta uma das concorrentes. “Três minutos!”, responde a moça do cronômetro. De dentro da cabine, alguém protesta: “Mas número dois é cinco minutos! Número dois é cinco!”. A dançarina Elis Cristina de Souza, 22 anos, reclama que levou um pisão no pé que quase arrancou a sua unha fora. “O esmalte já foi”, ela mostra. O tempo se esgota e as dançarinas lamentam: “Aqui os minutos passam tão rápido”.

16h15 – “Te segura/ que a vida está dura”, diz a letra do samba.

16h17 – Danielle dança com um pedaço de melancia na mão. Pheliphe continua a mascar chicletes.

16h21 – “Crioula/ eu quero é mocotó”.

16h26 – Um dos organizadores grampeia de volta o número 20 nas costas de Hércules Silva.

16h37 – Osíris faz uma pausa para amarrar o cadarço, sob supervisão.

16h52 – O casal no 2 pergunta as horas.

17h14 – Clovis Jurado avisa que alguns participantes estão dançando fora do ritmo.

17h32 – “Deixa o meu cabelo em paz/ Deixa o meu cabelo em paz”.

17h42 – Os dançarinos estão dispersos, sambando de qualquer jeito e conversando entre si.

17h48 – O no 4 arruma as calças.

17h58 – “É um lugar especial/ Para quem é sentimental/ E aprecia um gostoso bacalhau”.

18h10 – Outra pausa para o banheiro. A organizadora avisa: “Nada de número dois, hein?”. Uma das participantes se desespera: “Gente, a calça não sobe”. Elis continua a reclamar: “Nada-nada, já levei cinco pisões”. Alguém diz que ela devia conversar com o parceiro, porque assim não vai dar. “Não foi o meu parceiro, não, eu levo pisão dos outros!”.

18h21 – Pheliphe dedura um casal que estava quase parado.

18h26 – Mariana Anduta, 16 anos, dança segurando o rabo-de-cavalo para o alto, incomodada com o calor.

18h32 – Fora da pista, bombeiro tira uma moça para dançar.

18h36 – Os jurados se reúnem para deliberar sobre os números que se esfarelam nas costas, principalmente das mulheres, já que os homens dançam com as mãos nas costas de suas parceiras.

18h38 – Elizangela e Claudinho, casal no 14, dão uma demonstração de extrema habilidade no samba-rock, que envolve giros consecutivos.

18h42 – “Provei do famoso feijão da Vicentina/ Só quem é da Portela sabe que a coisa é divina”.

19h02 – Alguns casais dançam coladinho.

19h04 – Substituição dos sucos de laranja.

19h12 – Osíris grita: “Vamos lá! Faltam só cinco!”.

19h15 – Brito comanda alguns casais na dança: “Cinco, seis, sete, oito, gira”.

19h20 – Pausa de quinze minutos para comer macarrão ao alho e óleo. Sentados, Pheliphe e Danielle continuam dançando. A maioria tirou os sapatos e reclama dos calos. Brito declara: “Nunca quinze minutos foram tão importantes na minha vida”. Danielle estima que aproximadamente três casais estão “só a alma”. Alguns fazem alongamento, e antes de retornar ela se levanta e diz: “Agora é só o espírito!”.

19h35 – “Olha nós outra vez no ar/ O show tem que continuar”.

19h43 – Casal no 5 quase colide com a mesa de frutas.

19h47 – Pheliphe faz esforço para abrir mais um chiclete enquanto dança. Com a mão esquerda, Danielle tenta ajudar.

20h32 – Casal no 11 desiste. “Sei que estou quase morrendo”, afirma Vitor Albani, de 15 anos.

20h35 – Casal no 13 é tirado da pista por estar fora do ritmo. Marinês Capanema, de 46 anos, reclama e diz que não está cansada: “Eu me canso de lavar roupa, de limpar a casa. De dançar eu não canso”.

20h42 – Claudinho esnoba os outros competidores: “Mais dez horinhas? Tranqüilo, tranqüilo”.

20h55 – Mariana olha feio para a música animada que a DJ colocou.

21h02 – Casal no 8 desiste.

21h04 – Começa o show de uma banda de pagode, ao vivo. A casa enche.

21h15 – “Estrela, ilumina meu céu/ Me tira desse fel/ Adoça o meu vi-veer”.

21h22 – O vocalista articula as palavras felicidade, liberdade e sofrer na mesma estrofe.

21h32 – Adolescentes se enfileiram em frente à pista e gritam os refrões das músicas, sobretudo os finais: a-mô-or, fe-e-li-i-z.

21h37 – O mau humor atinge índices jamais auferidos.

21h42 – Avós, tios e primos acenam para o casal no 1.

21h47 – Começa a carnificina: casais no 4 (Mariana e Gerson) e no 1 (Claudia e Rafael) são tirados da pista. Na seqüência, no 2 (Osíris e Juliana) e no 12 (Pheliphe Britto e Danielle) também recebem o bilhete-azul dos jurados: “Você está muito cansado, sai daí”. A revolta é geral. Danielle afirma que o organizador encostou em seu ombro e disse apenas: “Tocou o seu celular”.

21h52 – Justificativa de Clovis Jurado: “Eles não estavam na pegada, estavam só enrolando”.

22h01 – Pheliphe Britto, já fora da pista, continua a dançar. Uma das eliminadas chora.

22h10 – Casal no 5 recebe o aviso: “Chegou a hora de vocês”, e entende que era hora de ir ao banheiro. Eles fazem uma pausa e ficam esperando o momento de retornar, mas descobrem que haviam sido eliminados.

22h36 – Um dos organizadores confessa: “O pessoal ainda está bravo comigo”.

22h56 – “Blablablablá/ Eu nasci pra te amar”.

23h05 – Uma repórter é convidada para ser jurada da competição. Ela argumenta que entende tanto de dança quanto de jardinagem.

23h12 – Jurados saem com as fichas de avaliação.

23h18 – O vocalista da banda faz uma piada e ninguém dá bola.

23h20 – A maioria dos eliminados vai embora, bem como parte do público. A casa está quase vazia.

23h26 – A música pára por alguns segundos e os quatro casais finalistas continuam dançando, sem perceber.

23h27 – “Vamos continuar com o pagode!”, diz o vocalista. Silêncio na platéia.

23h38 – Comentário de um espectador: “Está todo mundo triste”.

23h42 – Claudinho corta o pé e continua dançando.

23h46 – “Eu quero voar bem mais alto que o condor/ Lê leleô/ Chega de tanto sofrer e de tanta dor”.

23h54 – Ivan Carlos Gonçalves, no 6 nas costas, começa a bater na perna direita. Diz que está com cãibra há horas, mas continua a dançar.

0h08 – A maratona termina com “Brasileirinho” e “Tá a Fim de Sambar”, do grupo Os Morenos. Os participantes se jogam no chão e ficam por lá, paralisados. Alguns colocam gelo nos pés e pedem água.

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Depois de dez horas ininterruptas de samba, os jurados chegaram ao veredicto: em terceiro lugar, o casal Hércules e Andréia Silva, professores da Algazarra’s, que levaram como prêmio uma coletânea de CDs para dança de salão. Em segundo lugar, com apenas dois pontos de diferença, Elizangela Gomes, 20, e Luiz Cláudio Ferreira Silva, 29, o Claudinho, também da Algazarra’s. Eles ganharam um kit de roupas e sapatos, além da coletânea de CDs. Ao casal número 7, Elis Cristina de Souza e Lacyle Emerson Terezinha, coube a glória do primeiro lugar, e um prêmio de mil reais. “É, mas eu vou aparecer na TV e eles, não”, pondera Pheliphe Britto, eliminado após sete horas de maratona.

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Elis tem 22 anos de idade, 1,68m de altura e é babá. Ela joga a cabeça pra trás e dá uma risada gostosa quando lhe perguntam se é dançarina profissional. “Não sou, não! Eu danço por esporte”, responde. Mas acrescenta que está se profissionalizando, e para isso freqüenta as aulas do CPD, o Centro Profissional de Dança, ao lado da estação Carandiru do Metrô, também na Zona Norte. Seus ritmos preferidos são o black e o samba-rock. Foi ela quem insistiu junto ao professor, Lacyle, para se inscreverem na competição.

Lacyle tem 29 anos e é professor de dança de salão e técnicas de samba-rock. Começou a dançar aos 16 anos com “um ritmo que ninguém acredita: o hip-hop”. Da dança de rua passou para o samba, e hoje dá aulas em escolas de Santana, Guarulhos, ABC paulista e Alto da Lapa. Seu sonho é abrir uma academia só de samba, para valorizar os ritmos locais, divulgar a cultura negra e dar ao samba o mesmo valor das danças consideradas, como diz, “mais clássicas”, caso do balé.

Lacyle confessa que passou mal de ansiedade na noite de sábado, e no domingo de manhã tomou apenas “sucos e sucos”. Só foi comer na hora do macarrão ao alho e óleo, quando ganhou novo ânimo. Após dez horas de samba, com o fim da maratona, foi para casa tomar um banho e comer. Logo seu corpo começou a apresentar cãibras sucessivas: nas pernas, nos braços, no abdômen. Sua irmã virou a noite cuidando das dores de Lacyle e fazendo curativos, até que o pacote de Salonpas acabou e tiveram que sair para comprar mais. Como foi a segunda-feira? “Passei o dia todo com Salonpas, e dei aulas de dança à noite.”

Quando lhe perguntam o que mais ele gosta de fazer, além de sambar, Lacyle faz uma pausa, dá risada e responde: “Olha… eu não consigo ver outra atividade que me agrada: se vou assistir alguma coisa, é sobre dança, se vou ler uma coisa, é sobre dança. Eu gosto de conversar sobre dança, discutir sobre dança… na verdade, para mim tudo é dança”.