AH1294157733x56831Piauí n. 19
Abril de 2008

por Vanessa Barbara

De maneira trôpega, claudicante e bocó de tudo

Não se sabe ao certo quem deu o primeiro passo tolo da história. Sabe-se, no entanto, que em 1970 o grupo britânico Monty Python apresentou um esquete sobre o Ministério das Caminhadas Tolas, no qual o comediante John Cleese, de terno e chapéu, estendia a perna em 90 graus e ia saltitando rumo ao trabalho, onde recebia em seu gabinete um cidadão que buscava apoio da Coroa para desenvolver uma silly walk – ou seja, uma andada bocó – de sua própria autoria. Há quem diga que a gênese da silly walk (em francês, marche futile; em alemão, sinnlos Gehen; em italiano, passeggiata cretina; em espanhol, paseo estúpido; em latim, passus stultus) remonta a Ricardo III, rei coxo e corcunda que fazia os cães latirem quando passava. Ou ao Corcunda de Notre-Dame, a Chaplin e a Groucho Marx, notáveis criadores de passadas ridículas.

Se a origem é controversa, uma coisa é certa: o Brasil sempre esteve na vanguarda da história. Desde há muito, tem se destacado no setor, com Curupira, Saci-Pererê, Jânio Quadros e Garrincha, entre muitos silly walkers proeminentes. Uma nova prova da expertise pátria foi dada depois do último Carnaval. Quando todos já andavam em linha reta, a nação escreveu em São Paulo um capítulo inovador sobre o tema: promoveu uma caminhada tola organizada – a primeira do mundo.

Foi num domingo, às quatro da tarde, no vão livre do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, na avenida Paulista, que os militantes se concentraram para o aquecimento idiota. Inspirados no comediante do Monty Python, os participantes da 1a Silly Walk Brasil usavam chapéus e traziam guarda-chuvas exagerados. Alguns pretendiam apenas imitar John Cleese, embora aperfeiçoando o giro aéreo da perna esquerda, que, para os mais críticos, não parecia suficientemente tolo. Outros apresentariam criações particulares, como o Homem Descendo a Escada, que exige muito das coxas, e a Cavalgada sem Cavalo, inspirada no filme Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, de 1975. A estudante Elisa Mafra, de 20 anos, declarou que iria fazer um medley de estilos, sem, no entanto, desprezar os grandes clássicos. Pensou numa silly walk lateral, mas “com certeza eu iria cair”.

Como tudo ali era de uma rematada tolice, o percurso da passeata foi entregue, deliberadamente, ao deus-dará. “Para onde a gente for, a gente vai”, declarou o organizador, Tiago Lima de Andrade, de 21 anos. “Vai ter sempre um andarilho mané caminhando em círculo”, previu um participante, justificando a impossibilidade de predefinir trajetos.

O aquecimento demorou mais de vinte minutos. O atleta bobo mais promissor é Marcelo Montserrat Silva, o “Sunshine”, de 15 anos. Ele deu piques extremamente imbecis no meio da multidão, indo e vindo feito um pateta pela calçada, tropeçando de vez em quando e, de súbito, se escondendo atrás do guarda-chuva, em pose misteriosa. Marcelo tem os cabelos compridos, encaracolados, e usa uma cartola por cima do capuz. Para ele, o evento é uma oportunidade de exibir a cartola sem que o fato configure um “insulto à moralidade pública”.

Um dos participantes sugeriu uma silly walk dentro do próprio museu. “Dependendo da sala, a gente grita: ‘Todo mundo fazendo silly walk cubista! Agora, expressionista!'” Com erudição invejável, arrematou: “Natureza morta é tipo zombie walk”, referindo-se ao evento fúnebre-peripatético de origem canadense e várias edições no Brasil, no qual centenas de mortos-vivos se fantasiam de zumbis e avançam pelas ruas aos gritos de Cérebro!, Miolos!.

***

A instantes da largada, um tocador de realejo arregalou os olhos e apurou os ouvidos. O organizador Tiago abriu o guarda-chuva e gritou: “É chegado o momento!” – e disparou na frente. Atrás dele, a massa de aproximadamente vinte silly walkers vai atrás, a andar tolamente pelas calçadas da avenida Paulista. Os destaques foram a revolucionária caminhada lateral (ou de banda) de Elisa Mafra, que optou pela glória e pelo reconhecimento de seus pares em detrimento da própria segurança, e a silly walk altamente flexível (abaixa, levanta, acelera, pára, se esconde com grande mistério) de Marcelo Sunshine, um verdadeiro fundista que liderou a marcha do início ao fim.

Na avenida, os transeuntes andavam de forma pouco tola e fingiam ignorar a massa de gente saltitando, trotando e fazendo força para se comportar como rematados basbaques. Já no primeiro quarteirão, a turma mais militante parou para se abanar, pois, segundo a opinião geral, andar tolamente é muito cansativo. Ainda mais para os seguidores do movimento nerd, cujo único movimento real costuma ser da geladeira para o computador, do computador para a geladeira, conforme os próprios. “Eu às vezes vou para a sala também”, comentou Tiago, ao que Elisa, aventureira, acrescentou: “A sala entra nos meus planos porque o DVD está lá.”

O cansaço foi maior para Joel Dias, de 16 anos, criador da pitoresca silly running (corrida tola), que, embora tenha lhe servido apenas para atravessar o sinal, arrancou aplausos dos que corriam atrás. Mais dois quarteirões e os adeptos da bobajada ambulante estavam acabados. A turma enfim se concentrou em frente ao prédio da Gazeta, onde uma fileira de guardas sérios recusou-se a lhes dar um mínimo de atenção, mantendo o olhar fixo no horizonte. Nos últimos instantes da passeata, Vinícius Schiavini, de 24 anos, também repórter do site Jovem Nerd, ainda inventou o caminhar Silvio Santos, enquanto uma colega sua, praticante do jornalismo participativo, alcançou a consagração com seu passo Sidney Magal. “É totalmente tolo”, admite Vinícius. “E ela usa a mão, o que é raro entre os contemporâneos”, comenta outro paspalho.

Embora os organizadores neguem, a 1a Silly Walk Brasil teve um fundo político. Entre os participantes, todos lamentam o descaso do governo com os silly walkers, principalmente diante do fato de que, na Inglaterra, há um ministério específico para cuidar do assunto. Por que no Brasil não temos um igual? Vinícius Schiavini explica que seria redundância. “Todos já cumprem essa função”, diz, referindo-se à governança cretina e à legislatura descerebrada. “O governo negligencia as silly walks”, protestou Vinícius, que ainda não conseguiu verba da Lei Rouanet. “A gente tentou, mas não é fácil”, completou Yule Barbosa, de 21 anos, estudante de artes plásticas na USP. “Tudo aqui é burocracia. Como é que o país vai pra frente sem uma boa silly walk?”

 

Primeiro livro da parceria dos dois escritores, Seis Problemas para Dom Isidro Parodi ganha nova edição em português

O Estado de São Paulo / Cultura
15 de março de 2008

por Vanessa Barbara e Emilio Fraia

Em uma noite de 1936, na sala de jantar da fazenda dos Bioy, Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares inventaram, juntos, uma família búlgara. A história integraria um folheto publicitário, A Coalhada La Martona: Estudo Dietético Sobre Os Leites Ácidos, encomendado por um tio de Casares. Dono da próspera companhia leiteira La Martona, ele prometera à dupla um pagamento vultoso por página. Bioy e Borges se animaram. Passaram a escrever um texto empolado e divertido sobre as vantagens do produto, com frases do tipo: ”Quem tem saúde tem esperança, e quem tem esperança tem tudo – dizem os árabes, esses musculosos falcões do deserto, mas eles têm por trás da esperança algo que luta por sua saúde: a coalhada.” No folheto, aprendemos que o iogurte aproxima o homem da imortalidade e que, na Bulgária, onde é um alimento apreciado, abundam os centenários. ”O exemplo clássico é dos onze irmãos Petkof”, garantem os autores, ”que chegaram todos aos cem anos, com exceção de María Petkof, morta aos 91”.

Bioy e Borges redigem capítulos sobre os méritos do iogurte entre os bretões, os franceses, os tártaros e os calmucos; inventam receitas para preparar bolos e pães de milho. Ao longo das páginas, vão amontoando dados de forma desconexa, afirmações vazias de conteúdo e tiradas repentinas, sem um contexto que as explique ou justifique. Para simular o discurso científico, incluem citações de supostas autoridades, além de frases bíblicas. O resultado é um texto pouquíssimo comercial e de linguagem rebuscada, que, entre elogios ao leite balcânico e ponderações sobre os benefícios de bacilos e outros micróbios, revela o estilo inconfundível de H. Bustos Domecq: o pedantismo, o humor irônico, a mistura de referências absurdas com citações verdadeiras. Começava assim, em uma noite de 1936, com uma família búlgara numa sala de jantar, uma das mais intensas parcerias da história da literatura.

PÓS-IOGURTE

Honorio Bustos Domecq, o ”terceiro homem” que assinou grande parte das narrativas em colaboração de Bioy e Borges, nasce em 1941, cinco anos depois da experiência com o iogurte. Bustos era o sobrenome de um bisavô de Borges; Domecq, de um bisavô de Bioy. Segundo Borges, ”Domecq não tardou a nos governar com mão de ferro e, para nossa grande alegria, e depois consternação, veio a ser muito diferente de nós, com seus próprios caprichos e chistes”. Para os críticos Michel Lafon e Benoit Peeters, que juntos publicaram Nous est un Autre, uma espécie de investigação sobre a escrita colaborativa, ”a voz de Bustos Domecq era grandiloqüente e extravagante, e não a mera superposição da voz dos autores, mas sua transcendência, nascida de um elo misterioso que só existia no ato da colaboração”. Quatro livros foram escritos sob a alcunha do autor-personagem: Seis Problemas para Dom Isidro Parodi (1942), Duas Fantasias Memoráveis (1946), Crônicas de Bustos Domecq (1967) e Novos Contos de Bustos Domecq (1977).

Esta parceria – que se desdobrou em traduções, organização de antologias, escrita de artigos, prefácios e roteiros de cinema – é a história de uma profunda amizade e, também, de intercâmbios e contaminações mútuas, em um diálogo literário vigoroso. Quando se conheceram, no início da década de 30, Bioy tinha 17 anos e Borges, pouco mais de 30. A partir de então, e por muito tempo, passaram a se encontrar com freqüência para discutir textos, inventar e aperfeiçoar personagens e tramas. Em seu ensaio autobiográfico, Borges escreve que um dos principais acontecimentos de sua vida foi o início desta relação. ”Ao se opor a meu gosto pelo patético, pelo sentencioso e pelo barroco, Bioy fez-me sentir que a discrição e o comedimento são mais convenientes”, anota Borges. ”Eu diria que Bioy foi me levando aos poucos ao classicismo.” Para Bioy, ”toda colaboração com Borges equivalia a anos de trabalho”. O autor de A Invenção de Morel diz que aprendia com o amigo sem nenhum pudor ou restrição: ”Quando duas pessoas escrevem juntas, e não são vaidosas, o resultado é melhor do que quando trabalham separadas”.

ECOS DE ECOS

Em Seis Problemas para Dom Isidro Parodi, que a Globo lança este mês em uma edição que inclui Duas Fantasias Memoráveis (tradução de Maria Paula Gurgel Pinheiro), pode-se dizer que Borges e Bioy (ou seja, Bustos Domecq) criam relatos policiais clássicos, nada de narrativas realistas ou psicológicas – ”mera verossimilhança sem invenção”. Nesse esquema de colaboração, Bioy e Borges discutiam a trama, norteados por uma série de regras: oralidade triunfante, propostas alternadas, exigência mútua, direito permanente de veto, prioridade ao jogo e ao prazer. Isidro Parodi, ”um quarentão, sentencioso, obeso e de olhos singularmente sábios”, encarna o limite e a paródia da idéia clássica do detetive imóvel, representação pura da inteligência analítica. No livro, tudo é resolvido a partir de uma seqüência lógica de hipóteses e deduções. A estrutura é simples: os envolvidos no crime acorrem à cela de Parodi, preso por um crime que não cometeu, e se põem a relatar os acontecimentos. Esses discursos escondem os indícios necessários para a resolução do caso, e não é raro que a reescritura, a paródia, o plágio e a tradução estejam entre os motivos ocultos do crime. Nada mais conveniente em uma escrita em dupla, observa Lafon, do que falar de si mesma.

As obras individuais de Bioy e Borges também estão repletas de temas que tangenciam e fazem ecoar a idéia do duo literário. Relatos como O Outro e Tema do Traidor e do Herói (Borges) ou A Trama Celeste e A Invenção de Morel (Casares) amplificam as questões do ”duplo” e das ”realidades paralelas”. No epílogo de suas obras em colaboração, depois de citar The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, de Stevenson, Borges diz: ”A arte da colaboração literária é a de executar o milagre inverso: fazer com que dois sejam um.” Um outro texto, Pierre Menard, a história do homem que reescreveu de maneira idêntica, linha por linha, o Quixote, encabeça o ataque à idéia de criação literária original, considerada por Borges um dos mais graves enganos. A reescritura, a paródia e o plágio são parte das estratégias de Borges para dissolver a idéia de autoria. O crítico Daniel Balderston escreve que Borges formulou em várias ocasiões sua idéia de que a criação literária é em grande parte algo impessoal, por ser cada escritor arquétipo de todos os escritores. ”Talvez, para Borges, a colaboração seja uma forma de superar o ”eu” e a idéia ególatra de que uma obra está possuída por seu autor”, argumenta Balderston. ”Para ele, somos todo o passado, somos nosso sangue, somos a gente que vimos morrer, os livros, somos gratamente os outros.”

TOM E JERRY DO THRILLER

É muito freqüente, no entanto, que os duos literários sejam ignorados ou menosprezados pela crítica, que costuma reduzi-los a circunstâncias determinadas: anos de aprendizagem, exercícios de estilo ou tarefas sob encomenda. Em muitas entrevistas, Bioy e Borges chegaram a considerar ”menores” as obras de Domecq. Em seu ensaio autobiográfico, no entanto, Borges afirma que alguns textos de Bustos Domecq são melhores do que tudo o que ele publicou sob o próprio nome e quase tão bons quanto aquilo que Bioy escreveu sozinho. Sobre The Wrecker, livro cuja autoria Stevenson dividiu com seu enteado, Borges diz: ”Esta novela é a melhor de Stevenson, mas permaneceu ignorada. Ninguém se aventura a elogiar páginas de duvidosa paternidade”.

Para Lafon e Peeters, os críticos costumam nivelar as obras em colaboração, atribuindo a verve literária às piruetas de dois acrobatas. Bioy e Borges suscitam, assim, as mesmas comparações que outros duos literários: são o Tom e Jerry do thriller, o Bouvard e Pécuchet do suspense, o Batman e Robin do crime, quando não o Fred Astaire e Ginger Rogers do romance. Como se essas comparações acabassem por alimentar uma condescendência divertida e dispensassem a análise verdadeira dos textos.

É MEU!, É MEU!

Os casos de parceria na literatura obedecem aos mais diversos princípios. Os inseparáveis irmãos Goncourt, por exemplo, escreviam um diário juntos e encarnaram o máximo da fusão literária, estética, afetiva e psicológica, muito além da escrita em dupla. Jules e Edmond inclusive dividiam as amantes. Já Alexandre Dumas e Auguste Maquet foram parceiros durante sete anos e produziram, juntos, 17 romances. Não haveria nenhum problema na colaboração, se Dumas não assinasse sozinho todos os livros. Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo e A Rainha Margot foram alguns dos romances dessa parceria.

Outro tipo de colaboração foi encarnado por Jules Verne e seu editor, Jules Hetzel. Verne era um autor inexperiente e fazia um papel quase submisso diante das exigências do chefe. O escritor chegava a implorar pela atenção do editor, dizendo que não poderia terminar o livro sem a presença dele. Também Colette e seu marido Willy mantiveram uma parceria literária. Durante dez anos, ela escreveu e ele assinou. Willy mantinha a esposa no anonimato e embolsava seus direitos autorais pela série da personagem Claudine, que fez muito sucesso na época. Mais feliz foi a parceria conjugal entre Julio Cortázar e Carol Dunlop, que escreveram juntos Os Autonautas da Cosmopista. O livro, um relato de uma viagem de carro pela auto-estrada Paris-Marselha, é uma mistura de fragmentos de manuais, diálogos, desenhos e fotografias, sem distinção de autoria. Para eles, a colaboração era uma maneira de lutar contra a morte e de celebrar o amor, a alegria compartilhada e a cumplicidade do instante. Mesmo Gustave Flaubert, o anti-colaborador por excelência, chegou a escrever um livro (nunca publicado) em parceria com o amigo Maxime Du Camp. Era o diário de uma viagem ao oeste da França, que inicialmente seria escrito ao longo da jornada – o que não deu certo, pois estamos falando do preciosista Flaubert. O livro teria doze capítulos: a Flaubert cabiam os ímpares e a Du Camp, os pares. O curioso é que algumas das passagens mais flaubertianas são da autoria de Du Camp. Misturas assim também aconteciam com Borges e Bioy. ”Quando alguém quer saber se essa ou aquela brincadeira ou epíteto saiu de meu lado da mesa ou do lado de Bioy, sinceramente não sei dizer”, confessa Borges. ”Toda colaboração é misteriosa.”

A parceria entre Borges e Bioy é, sobretudo, uma história de amizade. Na página que abre Ficções, dividem a cena um espelho e Bioy Casares. O conto é Tlõn, Uqbar, Orbis Tertius e nele Borges escreve: ”Do fundo remoto do corredor, o espelho nos espreitava. (…) Então Bioy Casares lembrou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens.” Eles descobrem, juntos, que os espelhos têm algo de monstruoso. Nenhuma trama de Borges e Bioy é tão fantástica quanto Borges e Bioy.


Emilio Fraia e Vanessa Barbara são jornalistas, escrevem para a revista Piauí e, juntos, lançam este semestre seu primeiro livro, O Verão do Chibo (Alfaguara)

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,borges-e-bioy-ficcao-de-cano-duplo,140977,0.htm

História bem triste

Posted: 13th janeiro 2008 by Vanessa Barbara in Ficção
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Revista da Folha n. 800
13 de Janeiro de 2008

O palhaço subiu no Lauzane/178L e apareceu no corredor do ônibus com aqueles sapatões, jogou a pasta de couro no banco dos idosos e remexeu os bolsos em busca de uns trocados. Achou apenas uma interminável fila de lenços coloridos. O palhaço, que se recusara a pegar carona num fusca com outros doze colegas, teve que passar por baixo. Praguejou alguma coisa, cansado, e encostou a cabeça no vidro. O dia no escritório tinha sido difícil. O palhaço olhava pela janela e pensava no encarregado do trem-fantasma, que se afogara na tina dos elefantes porque não conseguia assustar ninguém.


VANESSA BARBARA, 25, é repórter da revista “Piauí” e editora do periódico “A Hortaliça”

Tudo por 1,99

Posted: 3rd dezembro 2007 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 15
Dezembro de 2007

por Vanessa Barbara

Em quatro dias de evento, não sobrou um só esguicho de metal

O moderno escorredor de enlatados da Plick Novidades é “ideal para comprimir e espremer dentro de sua própria lata produtos como o atum, extraindo assim o óleo ou salmoura indesejável”. Além de espremer e comprimir, o engenhoso design do escorredor Plick faz dele um produto flex, isto é, permite usá-lo também como peneira. A engenhoca é feita de poliestireno 100% atóxico e está disponível na cor branca. Preço sugerido no varejo: módicos 1,99. Por igual valor, você, consumidor final, levará um pacote de palhas de aço UsiBem, um pregador multiuso Zeek, uma pasta desengraxante Fuzetto ou, por que não?, um par de escovas de dente “pai e filho” com o escudo do seu time do coração – mesmo que ele seja o Coritiba ou o Atlético Paranaense, versões também disponíveis para venda.

Em sua 15ª edição, a “Feira 1,99 Brasil” ofereceu essas e outras maravilhas do varejo popular a lojistas, distribuidores e revendedores, a preços de atacado. Para fazer a feira era preciso ter CNPJ e disposição para comprar lotes fechados – por exemplo, 200 papa-bolinhas (extirpador de bolinhas de roupas) ou 480 mata-moscas. O evento ocorreu no amplo Pavilhão Vermelho do Expo Center Norte, centro de exposições na Vila Guilherme, em São Paulo, e contou com 160 expositores. Em apenas quatro dias, o público deu fim, entre outras mercadorias, a todo o estoque de esguichos de metal e porta-CDs em forma de porquinho.

“Se isso chega na minha loja, não pára nem um dia”, observa um comerciante, indicando uma lousa mágica (para desenho) em meio a um amontoado de brinquedos de plástico. “A lousa e o cubo mágico”, completa, enquanto seu sócio fecha um pedido de 25 bolsas de náilon. Os dois têm uma loja de 1,99 em Feira de Santana, na Bahia. Estão visitando o maior stand do evento, o da distribuidora Issam. Abrindo caminho entre a massa de clientes, apanham alguns produtos, perscrutam, fazem perguntas, devolvem às prateleiras. Entre os itens esgotados, está um relógio de pulso verde da marca Hua Qian.

O evento se realiza duas vezes por ano, em março e outubro. Ao contrário de outros segmentos do comércio e da indústria, que se contentam com feiras anuais, o setor de 1,99, cujo giro de mercadorias é bem mais veloz que o das lojas tradicionais, exige que se façam feiras semestrais para acompanhar o movimento dos estoques. A de março é uma prévia do Dia das Mães, e em outubro se consolidam as encomendas para as festas de fim de ano. Donde a profusão de bolas douradas, laços natalinos, lâmpadas pisca-pisca e Papais Noéis de papel.

Ao entrar no enorme paraíso das bugigangas, o visitante recebe um mapa para se localizar, mas não é o suficiente. Melhor seria um GPS. A feira é um labirinto de potes de plástico e brinquedos semidescartáveis. O ambiente é claustrofóbico e, vez por outra, surreal. Subitamente, duas moças de patins passam voando, ambas com orelhas do Mickey – promoters de alguma loja que vende produtos licenciados da Disney. A maioria dos stands é apertada e entupida de gente. Em alguns há distribuição de brindes, como minitrenas e incensos de benjoim, estratégia não adotada no stand da Fini Guloseimas, cujo modus operandi se assemelha ao da CIA ou do MI-6, a agência onde trabalha James Bond: repórteres são sumariamente expulsos, pois é proibido anotar. Aos afortunados de cotovelos robustos, que conseguem passar à frente das massas, várias são as recompensas. (Algumas vendas são de varejo.) Por 1,99 você pode comprar um funcional amassador de papinha, também no stand da Plick. Por 1,99 você compra um frango de borracha, uma saboneteira com ventosas, um incenso sabor melão, um livro evangélico e um pacote de unhas postiças. Por 1,99 você leva para casa os mais diversos instrumentos de cutelaria e, se der sorte, ainda recebe uma bala de troco. (Conseguir o troco certo de 1 centavo é mais difícil do que descobrir os segredos da Fini Guloseimas.)

Há cerca de 25 mil lojas de 1,99 espalhadas pelo território nacional, com estantes abarrotadas de quinquilharia e poeira (o pó é intrínseco ao segmento). Elas movimentam 8 bilhões de reais ao ano. Há pouca informação sobre a gênese desse tipo de comércio popular, mas sabe-se que, no Brasil, uma das primeiras lojas de 1,99 foi criada há mais de doze anos em Balneário Camboriú, Santa Catarina, pelo empresário argentino Hugo Martignone. Hoje o estabelecimento se chama Super 1,99 e segue a tendência atual: em vez de “Tudo por 1,99”, os letreiros dizem “A partir de 1,99”.

De fato, embora os produtos de 1,99 ainda representem o carro-chefe do negócio, na maioria dos estabelecimentos os preços oscilam entre 1 real e 10 reais. A feira oferece incontáveis itens nessa faixa. Muitos expositores não tinham uma única quinquilharia a menos de 1,99. “Aqui, só cartão de Natal”, diz o vendedor da Grafon’s, fabricante de artigos de papelaria. “A única pessoa que eu conheci aqui que só vende artigos de 1,99 é uma chinesa, dona de uma loja de flores de plástico.”

Para as festas de fim de ano, que sempre incluem libações várias e celebrações pantagruélicas, o setor também oferece alimentos a granel, tais como pão de cachorro-quente, biscoitos de polvilho, amendoim confeitado e balas de goma em forma de dentadura. Isso sem falar nos cosméticos, indispensáveis ao festeiro formoso e úteis para fazer bonito no amigo-oculto. Um alentado pote de creme (verde) para mãos e pés, de marca indefinida, pode ser adquirido pelos lojistas a menos de 1 real e revendido a 1,99. Nas farmácias, um similar de marca custa, por baixo, 8 reais. E note-se: nem é feito de sebo de carneiro.

A coisa está à solta

Posted: 3rd dezembro 2007 by Vanessa Barbara in esquinas, Reportagens, Revista piauí
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Piauí n. 15
Dezembro de 2007

por Vanessa Barbara

“Me deram um brinquedinho”, diz Wagner Souza Amorim, de 25 anos, funcionário do SAO (sem til) Parking, estacionamento do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. De cinco meses para cá, ele faz a ronda montado num patinete motorizado de 27 mil reais, o Segway, que desliza suavemente pelo piso. Wagner dirige o mimo com peito estufado e porte altivo. Entre duas fileiras de automóveis, breca com destreza para abordar uma funcionária. Faz manobras radicais inclinando o tronco para a frente e desenha curvas arrojadas jogando o corpo para os lados. Sobe as rampas do edifício-garagem e avança com a imponência de um cisne.Acha a geringonça utilíssima para cobrir a área; afinal, são 50 mil metros quadrados, distribuídos em cinco andares.

O Segway, ou a “Coisa” (seu inventor lhe deu originalmente o nome de It), é uma espécie de patinete elétrico de alta tecnologia, movido a bateria recarregável. O projeto é simples: duas rodas, um guidão e uma plataforma para os pés. Lançada em dezembro de 2001 pelo americano Dean Kamen, a Coisa ganhou imediatamente o posto de invenção do milênio, concedido pela imprensa especializada em objetos de desejo do mundo do consumo. Seria assim como um iPod da locomoção humana. A Coisa é mesmo esperta. O pulo do gato é um sistema inovador de estabilização dinâmica: o auto-equilíbrio do condutor. O patinete não tem acelerador nem freio, pois é controlado pelo movimento do corpo. Na base onde se apóiam os pés, há um conjunto de cinco giroscópios e microprocessadores que reproduzem o senso de equilíbrio do labirinto. Assim, acelera-se projetando o tronco para a frente e freia-se jogando-o para trás. Os sensores detectam qualquer retraimento ou inclinação do motorista e respondem na forma de movimento.

“Ganhamos em agilidade”, explica o diretor operacional e financeiro do SAO Parking, João Carlos da Silva, o Jota Silva, de 58 anos. O Segway foi escolhido para substituir as motos, que eram muito poluentes e ruidosas. “E ele entrou com o elemento-surpresa”, acrescenta, “porque agora os vigias se aproximam sem fazer barulho.” Os patinetes são alugados de uma empresa de Cotia, a Segway Brasil, que fornece dois aparelhos e cinco baterias elétricas a um custo de 1 800 reais mensais por unidade. Os Segways fazem até 20 quilômetros por hora (o que não é lá grande Coisa) e têm autonomia de aproximadamente oito horas. De acordo com o fabricante, multiplicam por cinco a área de cobertura de um vigilante.

Segundo Jota Silva, o treinamento na auto-escola do Segway dura cerca de quarenta minutos. Para o usuário, o segredo é alcançar a própria estabilidade em cima do aparelho, que, ao ser ligado, pára em pé sozinho, o que por si só já é uma sensação. O vigia Wagner levou meia hora para pegar o jeito, e confirma: é mole. Tornou-se um experiente piloto, capaz até de dar rodopios sem sair do lugar. “Uma vez caí numa segunda-feira, voltando do fim de semana”, justifica o diligente funcionário, alegando que os folguedos dominicais haviam prejudicado seu equilíbrio. A Coisa, com justiça, é conhecida por ser quase à prova de quedas.

Quase. Em junho de 2003, ao tentar montar num Segway, o presidente americano George W. Bush tomou um tombo diante das câmeras. O acidente ocorreu na propriedade de verão da família, no estado do Maine. O supremo dignitário não seguiu o manual, que aconselha o principiante a usar capacete e chamar um amigo para segurá-lo: “Se você tentar andar pela primeira vez sem um apoio, corre grande risco de se machucar e provavelmente não se divertirá muito”. Rindo da cara do perigo, Bush não usou capacete, não chamou um amigo e, ao que tudo indica, deve ter se esquecido de ligar o aparelho. Este, por sua vez, não acionou o sistema de auto-equilíbrio e arremessou pelos ares o líder do mundo livre. Kim Jong Il, o ditador da Coréia do Norte, também é fã ardoroso do Segway. Com a doce brisa de Pyongyang acariciando-lhe os cabelos espetados, vive a flanar pelos corredores de mármore de seus palácios a bordo de um patinete. Não consta que já tenha caído.

Jota Silva confessa que já caiu três vezes. Com os Segways do estacionamento de Congonhas, até agora ninguém chegou a se machucar gravemente e não houve atropelamentos, mas a Associação Brasileira de Pedestres (sediada em São Paulo) já protestou contra os Segways usados nas calçadas pelos seguranças da Faap, a Fundação Armando Alvares Penteado. Segundo o fabricante, o produto é destinado a circular em áreas de pedestres. Nos Estados Unidos, ele está autorizado a trafegar nas calçadas de 42 estados, embora com restrições. Inglaterra, Japão e Hong Kong baniram o tráfego nas calçadas, alegando que é proibida a circulação de veículos motorizados no espaço destinado a pedestres. Cidades como São Francisco adotaram a mesma regra.

No Brasil ainda não há legislação específica sobre patinetes. Não importa. Dentro ou fora da lei, no estacionamento de Congonhas o Segway é muito popular. “A Preta Gil encheu o saco e conseguiu dar uma volta no G5”, conta Jota Silva, referindo-se ao último andar do estacionamento. A cantora já havia experimentado a Coisa nos Estados Unidos. Gostou tanto que, ao reencontrá-la no Brasil, insistiu até dobrar o segurança.

É proibido emprestar a Coisa a curiosos. Afinal, ela tem mais o que fazer: mantém-se em ronda permanente para vigiar o estacionamento, leva e traz recados entre os funcionários e acompanha clientes de olhar ansioso que vagam pelos corredores atrás de carros que não sabem onde enfiaram. O SAO Parking adotou “o mais avançado meio de locomoção da história” para achar automóveis perdidos. Toda hora aparece gente que alugou um carro e não faz a mínima idéia da cor e da marca do dito-cujo. Segundo o condutor oficial Wagner Amorim, são pelo menos dez carros perdidos por dia. “O problema é que na etiqueta da chave a locadora não especifica o modelo do carro, então fica difícil achar”, diz Jota Silva. É a proverbial agulha no palheiro: um carro afogado entre 3 350 similares. Servicinho talhado para a Coisa.

Revista Diálogos&Debates
ed. 30 – Dezembro de 2007

por Vanessa Barbara

Para os adolescentes, relógios de pulso já vão em boa hora

 

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Piauí n. 15
Dezembro de 2007

por Vanessa Barbara

Missa em latim provoca protestos de fiéis de 3 anos

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti, diz o padre de costas, voltado para o altar. As palavras chegam miúdas na assembléia. Os fiéis têm os olhos fixos na estola verde sobre o dorso do sacerdote e no seu barrete litúrgico. Ele segue adiante: Introibo ad altare Dei, e sobe um degrau. Alguns fiéis respondem: Ad Deum qui lætificat juventutem meam [Ao Deus que alegra minha juventude], e viram a página do missal. A maioria se mantém calada, de joelhos e olhando para baixo. Outros rezam o terço ou tentam controlar suas crianças. Do altar, o padre prossegue com a oração inicial: Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto. Os fiéis replicam: Sicut erat in principio et nunc et semper et in sæcula sæculorum. Amen. É o começo da missa.

Desde o dia 16 de setembro, pode-se assistir, aos domingos, a uma missa em latim no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. O ofício acontece às 18 horas e segue o rito tridentino, com o padre de costas para os fiéis, guardando distância. No dia do retorno à missa de são Pio V (1504-1572), ou “missa de sempre”, como é chamada pelos tradicionalistas, mais de 400 pessoas compareceram ao mosteiro.

Num domingo de outono, o número de fiéis continua grande. Até que toda a congregação possa comungar, recebendo a hóstia das mãos de dois sacerdotes, passam-se mais de dez minutos. “Voltou de suas catacumbas modernas a missa de são Gregório Magno, de são Bento, de são Pio V e de são Pio X”, rejubila-se o presidente da Associação Cultural Montfort, Orlando Fedeli, num artigo para o jornal da instituição. “Graças ao papa Bento XVI, a nau da Igreja, de novo, foi atada à coluna da hóstia”, comemora. Entre vitrais alemães e paredes de madeira entalhada, o coral gregoriano da Montfort solta o latim no cântico “Gloria in excelsis Deo”, com acompanhamento do portentoso órgão Walcker de 6 mil tubos. Lá fora faz calor, mas os homens vieram de terno. As mulheres usam véus rendados, pretos ou brancos. Laudamus te, benedicimus te, adoramus te, segue o coro, liderado por um insólito japonês.

A essa altura, as crianças já estão cansadas – a missa não chegou nem à metade – e perambulam pela nave da igreja, com seus sapatinhos lustrosos e roupas de domingo. Há uma quantidade incrível de crianças. A terceira fila é ocupada por uma constelação de menininhas: Maria Lúcia, Maria Helena, Maria Cecília, Maria Tereza e Maria Clara, todas nascidas neste século. Cada uma traz uma bolsinha para carregar o véu e o terço, como se estivessem num filme italiano da década de 50. Maria Helena, de 3 anos, muito compenetrada, lê o missal de ponta-cabeça.

Meia hora depois de iniciado o ritual, chega o momento da liturgia da palavra. O mistério se adensa, dado que as passagens bíblicas não constam do missal ordinário. Lidas em latim pelo padre, são incompreensíveis para a maioria dos fiéis. Um garotinho protesta em voz alta, mas também não é compreendido. Ao “Deo gratias” do público, e a mais um cântico do coro, segue-se a leitura do Evangelho. Maria Helena vira a página. Atenta, ouve minutos e mais minutos da vida de Cristo desfiada na língua de Sêneca, até a conclusão: Per evangelica dicta deleantur nostra delicta [Que pelas palavras do Evangelho nos sejam perdoados os pecados], quando todos se sentam. Depois da homilia – pregada em português e, o que é melhor, ao som de um microfone -, o padre convoca a congregação a dizer o creio-em-deus-pai: Credo in unum Deum, Patrem omnipotentem, factorem coeli et terræ. A pequena Maria Helena embarca: “Djubidjubi dju”.

***

Foi no dia 7 de julho de 2007, às nove da manhã, fuso horário do Vaticano, que Bento XVI publicou um motu proprio [por iniciativa própria] que liberou a celebração das missas em latim. O ritual tridentino segue o missal promulgado em 1570 por Pio V, em cumprimento ao mandato que recebera do Concílio de Trento; ficou em vigência exclusiva até a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, nos anos 1960. O Mosteiro de São Bento adotou o motu proprio dois meses depois da sua publicação. Sob o crucifixo barroco de 1777 e o ícone da Virgem de Kasperovo, trazido por russos foragidos da revolução comunista de 1917, os monges passaram a promover a sua própria missa tridentina, com duração de uma hora e quarenta minutos. Nela, o sacerdote não fica “de costas”, como se costuma dizer, mas na posição ad Orientem [para o leste], em direção à Terra Santa. Sacerdote e congregação assumem a mesma posição, de frente para o altar, lugar simbólico de Cristo, versus Deum.

“Vão acabar, sim, as missas-rock, as missas com moçoilas dançantes com vestes diminutas ou transparentes, exibindo-se sensualmente ante o calvário”, prevê Fedeli, o presidente da Montfort, feliz com a resolução papal. “Essas missas com sambas e rocks, cuícas e baterias, essas missas de sacerdotes com rosto pintado como palhaços de circo. Acabou a missa de Oxum do padre Pinto. Acabou a missa com baldes de água jogados sobre os fiéis! Acabou a missa da cristoteca!”, festeja, num artigo intitulado “Christus vincit”. Adeus, padre Marcelo Rossi.

Mas nem todos estão satisfeitos. Na terceira fila, a pequena Maria Lúcia decide que é hora de ir ao banheiro. É retirada às pressas. As irmãzinhas ficam excitadíssimas: “Ih, a Lúcia fez cocô”, repetem. A novidade é tão graúda que, de uma hora para outra, elas não querem mais saber do ritual eucarístico nem das preces finais pela conversão da Rússia (introduzidas na missa tridentina por Pio XI, horrorizado que estava com os bolcheviques). A balbúrdia das menininhas chama a atenção do coral, que vacila. Como forma de manifestar impaciência, as cinco comportadas Marias arrancam os véus e deixam cair as chupetas.

Dando voz à insatisfação dessa parcela da cristandade que não aprova o motu proprio do Santo Papa, um menino de 3 anos aproveita uma pausa e grita: “Cabô?”

(Para os que sonham em celebrar o advento do Senhor na língua de Cícero, frei Guilherme Pinto, O.B.S., informa que “na Vigília de Natal não haverá missa no ritual tridentino”. Ou seja: Missa do Galo, só no vérnaculo mesmo.)

Redemoinho de círculos secretos

Posted: 1st novembro 2007 by Vanessa Barbara in Ficção
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Redemoinho de círculos secretos
Alguém pode começar a morrer muito cedo, e levar dias, horas ou anos para não existir mais

por Vanessa Barbara e Emilio Fraia

Piauí n. 14
Novembro de 2007

 

Lá estão os meninos no corredor de milho onde o tiroteio começa; o Bruno escapa na dianteira com a barriga mole de tanto dar risada, atrás vem o Cabelo, que cai sempre nos mesmos buracos e abre fogo com munição colorida – posso jurar, mesmo de longe, que o bombardeio de balas de goma tomou o campinho e riscou o ar feito serpentina. Meu irmão, o Chibo, ia no banco de trás. Eu estava no do passageiro, de joelhos, com a cabeça para fora.

Pela janela avistei o Cabelo que não conseguia alcançar ninguém, ainda mais entre os pés de milho, e novamente o espião búlgaro chegaria à fronteira do país neutro sob uma chuva de masca-masca sabor banana, talvez ferido nas costas, subiria a escada de sisal da casa da árvore e gritaria mulherzinha, mulherzinha. O Cabelo diria que não valeu porquessim, porque a brincadeira já perdeu a graça e os planos de Sua Majestade estavam criptografados, ou a Bulgária não existia de todo (no que decerto teria razão). Seria acometido da mais gorda e suntuosa birra desde os tempos do prezinho, e iria bater nos meninos mais novos. No Chibo não, claro. De todos, o meu irmão era o mais velho, tinha acabado de fazer doze anos, ele era forte, sempre me defendia e – olhei pelo retrovisor. Ele estava quieto: as palavras sumiam de vista feito uma estação fora do ar. Quando o carro parou, saltei com um pé só, e o Chibo, cheio de relâmpagos, nem se mexeu. Ficou lá, distante. Tentei dizer alguma coisa, mas peguei soluço ao bater a porta do carro (e sei que todo mundo ri quando começo uma frase e sou interrompido por um soluço, entrecortado por um susto que me faz perder o equilíbrio), então me calei. Engoli a respiração e fiquei vendo o carro diminuir, diminuir cada vez mais, depois sumir pela borda do milharal.

Na plantação, o Cabelo vinha na direção do Bruno, de banda, como desgovernado. O Bruno acelerou com força (os pulsos firmes), disparou uns restos de mato por cima do ombro – a essa altura eu também corria sem saber direito por quê – e nos cruzamos no ponto médio entre a casa da árvore e a estrada. Ou melhor, quase fui atropelado: ele passou voando por mim e me girou feito uma catraca, levando uma nuvem de poeira e vento sul de mormaço. Eu tossia e soluçava em seqüências alternadas e mal conseguia abrir os olhos quando (o soluço passou) surgiu o Cabelo em alta velocidade e, plof, me derrubou. O chão estava quente, dava para fritar as mãos; aos poucos, a plantação começava a queimar e ficaria pior, mas naquele dia caiu um temporal de machucar as costas, desses que acabam em cinco minutos e deixam um rastro de civilizações e formigas submersas.

Sem parar, o Bruno olhava para o céu com a boca aberta e tentava engolir os pingos. Não percebeu que a terra já escorregava e que as chances de acontecer uma derrapagem eram tantas quanto nosso amontoado de tralhas da casa na árvore, de modo que ele patinou, patinou e perdeu um sapato. Praguejou alguma coisa que não escutei e seguiu correndo de meias. Logo atrás, o Cabelo parou, apanhou o artefato e classificou-o como prova A da Promotoria – mas nem chegou a pedir autorização do juiz para girar o tênis pelo cadarço e arremessá-lo à distância. Plof: uma artilharia de palmilha e cano alto bem na mira do espião búlgaro.

Apesar do ferimento de calibre 35/36 nas costas, o Bruno continuou correndo. Arrastava-se aos tropeços, imaginando sua consagração como herói nacional. A perseguição passaria na tevê em câmera lenta, depois o povo o aclamaria em carro aberto. Ele mostraria aos tataranetos a marca da sola durante um churrasco da família e contaria longas histórias de guerra, talvez até participasse de encontros de veteranos e coisa e tal.

O Bruno chegaria à casa na árvore, de fato, não fosse a intervenção da Grande Poça, a mãe de todas as lamas, que aconteceu de repente bem quando ele olhava para trás. O espião afundou em cheio e caiu de cara. Emergiu daquela massa de lodo um Bruno caramelado e viu que era inútil continuar fugindo. A dois passos, a silhueta do Cabelo já lembrava seu direito de permanecer calado, citava a primeira emenda de cabeça e mostrava as algemas (que sequer existiam). A 2 centímetros, um aro sujo de metal encarava o Bruno, talvez um anel. Ele deu um jeito de guardar o objeto sem que o Cabelo percebesse, em seguida foi detido pelas autoridades e preso na casa da árvore.

O Chibo também não estava quando o Bruno falou do homem morto – um corpo do lado de lá do arame, em um lugar da plantação que, contando daquele jeito, parecia muito, muito distante. Não demorou: no meio do milharal, um redemoinho vivo de círculos secretos, entradas e saídas, o Bruno propôs o jogo. Ficou de joelhos e espalhou as folhas do caderno espiral (toda sua cartografia) pelo chão de terra. Calculou distâncias e provisões, pediu para todo mundo girar em torno do próprio eixo a fim de despistar o inimigo e, finalmente, baseado em estudos preliminares sobre a geografia local e o posicionamento das nuvens, apontou o caminho mais estreito, onde as folhas pareciam manchadas de ferrugem. Por ali, disse. Suas orientações vagas e intensas (o oeste correspondia ao norte e o centro estava junto à fronteira leste) passavam ao lado de uma árvore sozinha e muito vermelha, entre uns velhos pés de caqui, por trás de uma elevação onde o corredor se bifurcava em um, dois, três outros. O Cabelo decidiu, de repente, que também tinha visto o presunto, e para provar que não estava mentindo se apressou em ir na frente sem maiores (ou menores) perguntas, abrindo caminho com o braço, colhendo amostras de mato: “Vira à direita ou segue em frente porque dá na mesma”, e protegeu o rosto com a outra mão.

Fizemos silêncio e fomos andando, peteleco aqui e ali para espantar os carunchos que grudavam nas pernas. O Cabelo parecia animado e caminhava rápido: “Agora é traçar linhas coloridas nos mapas do Bruno, fazer a volta, vinte, trinta passos e pronto”. Às vezes ele parava num estalo, olhava para trás e dava alguma ordem a esmo (a gente quase nunca entendia). Na minha frente o Bruno, que lidava bem com aquelas freadas bruscas, continuava quieto – talvez pressentisse uma dor de barriga. Eu apenas seguia, na popa.

O caminho de milho não parecia levar a parte alguma, era cada vez mais espesso e abafado. Olhei para trás e notei que também se fechava por onde a gente tinha passado, mas não disse nada. Nunca dizia. O Cabelo estava todo picado e parecia feliz, parou para coçar a perna e analisar um besouro grudado no ossinho do tornozelo. O Bruno pensou em aproveitar a ocasião e subir nas costas dele, lá no alto gritar “terra à vista”, mas acabou agindo de maneira polida e pediu escadinha. Em dois segundos foi erguido o brunoscópio; por cima do milharal, ele não achou o arame nem nada, mas viu uma clareira à distância de vinte passos a estibordo, onde poderíamos descansar da coceira e analisar os mapas.

Era um pequeno espaço de folhas pisadas, que do alto formava um desenho alienígena (segundo o Cabelo). Sentamos sem vigiar a retaguarda ou saber se o terreno estava minado, apenas desabamos no chão e passamos a nos abanar. O Bruno juntou os joelhos e cantou baixinho. A essa altura, ele já devia ter uma explicação terrível para tudo e ficaria cada vez mais quieto – ele parou de cantar e olhou para a gente, como se fosse a vez do coral. O Cabelo abaixou a cabeça e confessou que, bem, na verdade, não tinha visto o morto, visto, assim, com os olhos, sabe?, tinha apenas ouvido uma história que – o Bruno se levantou, tomando a frente: “Minha vez de guiar”. Consultou o mapa, falou que estávamos no caminho certo e (só para impressionar) tirou do bolso um anel. “Não toquem nisto”, disse, satisfeito com o olhar de espanto dos expedicionários. “Achei na poça semana passada… É uma aliança”, e esperou uns segundos para fins dramáticos, “do cara morto.”

De cócoras, tragado por um sol imenso, o Bruno remexia as folhas secas do chão. Quando me viu, levantou rápido e fingiu estar interessadíssimo em um graveto sem nenhuma graça. Com as mãos cheias de pedras, o Cabelo apareceu. Distribuiu a artilharia e se afastou. A gente brincava de acertar pedras nas lagartixas da árvore, mas, por medo, nojo ou piedade, o Cabelo só assistia, ensaiando caretas a cada tiro. Não tardou para que um golpe dividisse ao meio uma das lagartixas. O Cabelo apertou os olhos, virou o rosto.As duas partes do bichinho despencaram tronco abaixo. Fiquei olhando para o vazio que separava a cabeça – os olhos estavam muito vivos ainda – e o rabo. Com um pauzinho, o Bruno cutucou a lagartixa: “Será que um homem demora assim para morrer?” Pensei no Chibo, em todo aquele silêncio do banco de trás, e que sim, alguém pode começar a morrer muito cedo (e levar dias, horas ou anos para não existir mais).

 

[trecho de O Verão do Chibo, Alfaguara, 2008)

Almanaque secreto da filosofia e do esporte

Posted: 3rd setembro 2007 by Vanessa Barbara in Ficção
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Revista Pesquisa/Fapesp
Ficção

Edição Impressa 139 – Setembro 2007

© Luana Geiger


Por Marcos Barbará

parte um: Filósofos-não-tão-filósofos

Polículo era um cidadão fidalgo e refinado, mesmo nos dias de chuva. Foi o primeiro antigo a amarrar as sandálias nas pernas, ainda que tenha amarrado as sandálias umas nas outras e pisado nos cadarços.

O grande momento da vida de Flatão (319-265 a.C.) foi quando o grande legislador Sólon, constipado, chamou Platão de Flatão, alçando este último à fama repentina e criando a efêmera escola Flatônica.

Brotágoras de Mileto acreditava que era sofista e, mesmo tendo nascido em 1981, fazia questão de pegar todos os dias o coletivo 701-U Jaçanã–Butantã/USP vestido como um ateniense orgulhoso, proclamando em voz alta: “A experiência ensina que para triunfar no mundo não é mister justiça e retidão, mas prudência e habilidade”, ao mesmo tempo que murmurava palavras incompreensíveis, alternadas com  “Sócrates” e “maldito barbudo”.

Monógoras descobriu que a matéria era formada de pequenas partes, que por sua vez eram formadas por partes menores ainda, e assim por diante. A menor de todas as partes ele chamou de “minhoca”. Decidiu apresentar sua descoberta na feira de ciências de sua escola ptolomaica, mas perdeu o prêmio máximo para Demócrito, que copiou totalmente seu trabalho, mas mudou o nome das pequenas partes para “átomos” e distribuiu balinhas de coco aos visitantes.

Hermeto era, provavelmente, a pessoa mais sábia de toda Tebas. Porém, sua tremenda dificuldade em ficar mais do que trinta segundos em uma sauna causou grande isolamento social, especialmente porque ele nunca conseguia ouvir uma piada de Xerxes até o final.

Penóprates (447-398 a.C.) era orador, mas seu sonho era ser técnico em informática.

Érmio de Platéia foi grande atleta em seu tempo, sobretudo nas provas de soletrar, as que mais agradavam os deuses na época. O célebre embate entre Érmio e Eustáquio de Átila foi interrompido por falta de segurança após Érmio soletrar “Mãe Edite, sua calvície molestou o otomano!”, em vez de “Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!”, e em seguida alegar falha no sistema de som, causando tumulto de grandes proporções.

parte dois: Atletas não-tão-atletas

Jogos Olímpicos, 76 a.C.

“Os corredores já partiram! A torcida entra em delírio! Mas que competição, patrícios e patrícias! Aquiles, o favorito, tomou a dianteira, mas… espere um segundo! Ele parece demorar uma infinidade de tempo a correr o primeiro metro, como se o movimento fosse de algum modo impossível!”
Na tribuna da plebe, Zenão divaga: “Não acredito que comprei bilhete para isto”.

Estocolmo, 1912

Sob um frio de -5°ßC, o húngaro Fèrènc Çzabosz enfrenta o dinamarquês Zork Zjork pela disputa do ouro no joquempô, categoria freestyle.

No primeiro lançamento, Zjork, apoiado pela torcida dinamarquesa em maior número, escolhe “pedra”, ante o atônito húngaro, que nada pode fazer com sua “tesoura”. Çzabosz, visivelmente nervoso, é agredido pelo treinador, enquanto Zjork leva as mãos em concha à orelha, como que pedindo para a massa gritar seu nome. Isso faz com que a torcida local dispare uma série de apupos contra o atleta dinamarquês, colocando-se ao lado do húngaro.
O fato animou Fèrènc, que, no segundo arremesso, desferiu a “tesoura”, minando os planos de Zjork com seu “papel”.

Empatados em um, foram para o set derradeiro com enorme tensão. E nenhum torcedor, por mais doente que fosse, poderia imaginar o que viria a seguir: uma fuinha decidiria o ouro. Ao sinal do árbitro, os dois oponentes se preparavam para o lançamento final, quando uma fuinha atravessou o gramado*. Desnorteado, o dinamarquês escolheu “pedra”, sendo alvejado pelo “papel” do húngaro, que, em êxtase, começou a correr em volta de seu cotovelo. Zork Zjork, em vão, tentou invalidar o lance alegando invasão de gramado, porém seu recurso não foi aceito, iniciando uma confusão que não acabaria antes de Antuérpia, 1920.

*Até 1952, o joquempô olímpico era disputado na grama.

Amsterdã, 1928

A competição de Tiro ao Pato era o momento mais aguardado das olimpíadas, devido ao esperado embate entre dois monstros sagrados do esporte. De um lado, o paquistanês Mahutah Singh, único atleta da história a vencer um mundial de Tiro ao Pato atirando-se ao pato (ver “Mundial de Tiro ao Pato, Glasgow 1926”). Do outro, o não menos popular Mohutah Singh, da Índia, que certa vez matou um alvo-pato apenas olhando para ele e fazendo tremenda força.

Como esperado, os oponentes não erraram nenhum alvo na fase eliminatória, levando ao delírio os mais de 162 mil espectadores que superlotavam o estádio olímpico, com capacidade para 25 mil pessoas. Ainda no primeiro lance, Mahutah atingiu os dez alvos-patos enquanto discutia com seu agente as confusas cláusulas de seu contrato; Mohutah, por sua vez, acertou os dez patos com um único tiro, disparado no breve intervalo entre um cochilo e outro.

Depois de 174 rodadas e nenhum erro por parte dos gênios do esporte, a organização informou que todos os patos do continente europeu estavam extintos, restando apenas um. Decidiu-se por fazer os competidores atirarem simultaneamente, e aquele que atingisse primeiro o pato seria o campeão. Segundos antes do lançamento da ave, o público inclinou-se para a frente de modo a não perder nenhum detalhe da História sendo escrita. Porém, o mundo não esperava que o torcedor curvo Rítias, possuidor de escoliose, estivesse inclinado exatamente na linha de tiro, fato que impossibilitou o disparo dos atletas e permitiu ao pato seguir seu caminho rumo à liberdade.

Mahutah Singh e Mohutah Singh começaram a atirar a esmo em qualquer coisa que parecesse remotamente com um pato, alvejando e matando o arquiduque Francisco Ferdinando Filho; o incidente gerou um conflito bélico entre Índia e Paquistão que persiste até os dias atuais.

Helsinki, 1952

Faltando dezoito metros para o final da maratona, exatos 174 atletas estavam empatados em primeiro lugar, todos espremidos ombro a ombro. Eis que surge o ruivo Crítias e, em uma arrancada digna de um herói mitológico, ultrapassa cada um dos competidores e vence. Mas sua glória é efêmera, pois os árbitros anunciam que o ruivo Crítias está eliminado por ter participado da prova somente nos últimos vinte metros e por estar totalmente nu.

Corrida do Queijo de Gloucester, 1964

A célebre contenda de 1964 é, até hoje, motivo de discussões acaloradas e regadas a destilados. Há aqueles que se solidarizam com Harry Truman, não só por ele ser homônimo do presidente americano, mas também por ele não ter largado do queijo mesmo seis dias após a Corrida. Do outro lado, estão os partidários de Zenk Skifalver, o Austríaco, que demonstrou força física e de espírito incompatíveis para seu 1,41m.

Mesmo os dois tendo rolado 33 metros com o queijo entre eles, cada qual se agarrando ao lactoso à sua maneira, a rainha declarou como vencedor um simpático coelhinho, gerando uma batalha campal entre o público e a família real.


Marcos Barbará tem 27 anos e é autor de Anão vestido de palhaço mata 8 (Editora Rocco).
http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=4165&bd=2&pg=1

Horóscopo – Chantecler

Posted: 1st agosto 2007 by Vanessa Barbara in Ficção
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Convém fingir que se tem pressa
por Chantecler
[Marcos e Vanessa Barbara]

Piauí n. 11
Agosto de 2007

Para agosto, mês de cachorro louco, Chantecler prenuncia o juízo final, cataclismos climáticos e, de quebra, problemas digestivos de toda sorte. Segundo o profeta, Deus voltará, e o segredo é parecer ocupado, ou fingir que tem pressa. Se lhe perguntarem alguma coisa (“Crê em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra?”), diga que você é inocente até que se prove o contrário e está atrasado para um compromisso.

ÁRIES [21.03_20.04]
No mês de agosto, Júpiter ingressará em Plutão e colidirá com o planeta-anão, provocando uma calamidade de proporções astrofísicas. O ariano deve tomar cuidado nos dias 14 e 15, quando os pedaços maiores entrarão em rota de colisão com a Terra. Não faça planos para o futuro. No mais, o mês será propício para comer biscoitos e trocar de meias.

TOURO [21.04_20.05]
A segunda quinzena será marcada por um grande vazio existencial, principalmente para os terráqueos. A Fome, a Peste e a Guerra abrirão o sétimo selo – e ele não vale um centavo. Mas o nativo de Touro não deve se preocupar com o fim do mundo iminente. Apenas arrume as malas com antecedência, pois lá não se vendem pasta de dente nem calcinhas. Pedra: sabão. Filósofo: Ataxerxes. Tradutor: Remy Gorga, filho.

GÊMEOS [21.05_20.06]
A configuração astral favorece o geminiano, embora sua chance de morrer aumente para 96,4%. Empregos como tocha humana e homem-placa devem ser evitados, mas não recusados liminarmente – nunca se sabe. No campo financeiro, devem-se comprar ações de empresas que rimem com “herege”, como Telerj. Valem rimas forçadas, como Casas da Banha-RJ (mas se aplicar no Banerj, vai se dar mal). Temperamento: bilioso. Programa de televisão: Leilão de muares, canal 35. Animal: arminho-das-pradarias.

CÂNCER [21.06_22.07]
Agosto será um mês de grande ressonância cósmica para você, nativo de Câncer. Os planetas regentes entrarão numa órbita favorável no ordenamento do céu, mas você não enxergará porque é meio míope. O Sol em Touro mexerá na sua digestão. Seu intestino se tornará preguiçoso e correrá o risco de gerar maus pensamentos, azedar o caráter, transtornar o espírito e criar vocação para o delito. A solução é comer ameixas. Super-herói: Besouro Azul. Celebridade: Ronnie Von.

LEÃO [23.07_22.08]
É época de o leonino resolver os problemas de ordem espiritual e hidráulica, de preferência ao mesmo tempo. A partir do dia 20, aumentarão as chances de encontrar fantasmas, duendes, vizinhos, elfos, ex-cônjuges, Affonso Aroma de Santana e caroços desagradáveis. Compre um telefone com identificador de chamadas, mas não planeje uma viagem a Poços de Caldas. No campo da saúde, atenção à gengiva e aos pêlos púbicos. Elemento: Urânio 237. Big Brother favorito: Dhomini (BBB 1). Curiosidade: o astro Dudley Moore (19 de abril) é de Áries.

VIRGEM [23.08_22.09]
Cuidado, virginiano: você está propenso a pecar por excesso de imaginação. Ao preparar uma torta de maçãs, esqueça os vidros de páprica, alfavaca, coentro e tomilho. No campo sentimental, a mesma coisa. Nada de paquerar gente baixinha. A época é boa para fazer novos amigos e desovar os antigos em terreno baldio. Guru: Roberto Justus. Cor: cova.

LIBRA [23.09_22.10]
O libriano esconde suas emoções e freqüentemente esquece onde deixou. Atentar-se ao metabolismo basal e à osmose. Famoso, o libriano Citrus, que, conforme a literatura, “depois de doze dias preso e amordaçado foi solto, para então comer 112 latas de ervilhas em conserva, vindo a óbito em 25 de abril de 1674”. Personagem mitológico: Batman. Escola filosófica: pós-simbolismo. Especiaria: cominho.

ESCORPIÃO [23.10_21.11]
Você possui o temperamento cético, não-influenciável e racional. É um indivíduo ponderado que não tem medo de nada, exceto do anão Rumpelstiltskin e de palhaços que dançam. A partir do segundo domingo do mês, dedique atenção especial aos móveis da sala e aos rins. Formas: quadradas e cúbicas. Elemento: pedra-pomes. Dupla dinâmica: Tonto e Zorro (o Cavaleiro Solitário, e não outro, o que só se veste de preto).

SAGITÁRIO [22.11_21.12]
Sagitarianos são sujeitos pacatos, serenos, normalmente confundidos com capricornianos ou balões meteorológicos. Adoram azul e polpas. Neste período, não devem pilotar um zepelim, sob pena de não encontrarem vaga no estacionamento. Recomendável limitarem-se às funções vitais e bombear o sangue, que já está de bom tamanho. Planeta: Hercólubus. Sensação: torpor. Profissão: pedicuro.

CAPRICÓRNIO [22.12_20.01]
O capricorniano é impaciente, desonesto, pecaminoso e cabeçudo. Alguns possuem orelhas grandes e problemas na vesícula. À parte isso, terão um mês repleto de transformações financeiras, metafísicas, zodiacais e fiduciárias, sobretudo após o dia 15, quando a Terra sofrerá um pequeno revés e se tornará uma bola de felpo. Boa notícia para os nativos de Capricórnio, que adoram dias agitados. Ditador sanguinário: Kim Jong II. Elemento: surpresa. Supervilão: Sr. Mxyzptlk.

AQUÁRIO [21.01_19.02]
Os aquarianos de nome Adalberto e/ou Edegar devem preocupar-se com contaminação por plutônio ou fruta-pão, decorrente da implosão planetária. No campo afetivo, lamber o cotovelo pode atrair seres de outras espécies. Em hipótese alguma deve-se falar “Pelezinho”, sob pena de arcar com as conseqüências cabíveis. Traje: escafandro. Cor: pinho. Regente: Júlio Medaglia.

PEIXES [20.02_20.03]
O nativo de Peixes possui a sensualidade à flor da pele, automaticamente anulada caso ele tenha micose. Um rápido passeio pelos Bálcãs pode reavivar o espírito e a tuberculose. Durante o mês de julho, o pisciano deve evitar ler livros grandes ou sair sem chapéu. Vestir pulôver com bermudas pode ser instrutivo, embora isso nada tenha a ver com o horóscopo. Data comemorativa: Dia do aço galvanizado. Legume: escarola. Cor: cunda.